Janira vs. Ulisses. Independentes vão decidir as legislativas

Líderes do PAICV e MpD apresentam-se pela primeira vez a votos. O MpD tenta regresso ao poder após 15 anos na oposição

Os líderes dos dois maiores partidos de Cabo Verde, Janira Hopffer Almada, do PAICV, e Ulisses Correia e Silva, do MpD, fizeram ontem os últimos apelos ao voto em comícios realizados na ilha de Santiago, onde se encontram os dois maiores círculos eleitorais do arquipélago que escolhe hoje novo Parlamento.

O PAICV realizou o último comício no largo do Estádio das Várzeas e contou com a participação do primeiro-ministro José Maria Neves. Por seu lado, o MpD concentrou-se na zona da Fazenda.

As eleições são consideradas mais importantes para o MpD, na oposição, do que para o PAICV, há 15 anos no poder. Esta é a opinião do analista cabo-verdiano João Alvarenga, que defende que os eleitores independentes serão decisivos para o resultado. Em entrevista à Lusa, Alvarenga explicou existirem estudos recentes a indicar que a maioria do eleitorado (56%) mostrou não se sentir próxima nem de um nem de outro partido. Considerou, por isso, que serão os eleitores independentes a decidir as eleições e que tudo dependerá da "capacidade de mobilização e convencimento dos diferentes partidos concorrentes".

Outro fator relevante será o eleitorado jovem, "os mais descrentes" em relação à política e ao voto, além de se apresentarem como a camada maioritária dos potenciais abstencionistas, pelo que "a volatilidade da intenção de voto nessa camada é muito elevada".

Os jovens são eleitores que "se hoje dizem que não pretendem votar amanhã podem mudar de ideia e, diferentemente dos mais adultos, eles mudam mais fácil e rapidamente de preferência de voto", salientou o analista. Por isso, a volatilidade do eleitorado jovem torna a previsibilidade das eleições "uma grande incógnita".

MpD versus PAICV

"Se o MpD voltar a fracassar no contexto em que o PAICV está mais enfraquecido em toda a sua história recente ficará muito difícil obter tão boa oportunidade em pouco tempo e será muito mais provável outro partido se substituir ao MpD como segunda força política", defendeu o analista, mestre em Ciência Política.

Alvarenga sustentou que é mais provável a ocorrência de uma alternância política do que a continuidade. Mas "tudo dependerá da capacidade de o MpD mobilizar o eleitorado descontente", referiu João Alvarenga. "De qualquer maneira, não imagino que, caso vença o MpD, este conseguirá uma vitória fácil, razão por que o PAICV tem uma base eleitoral forte e conta com a vantagem de estar no poder há 15 anos e, com isso, ter à sua disposição uma vasta rede de influências", prosseguiu. De qualquer forma, pensa que as legislativas serão "muito competitivas" entre os dois principais partidos.

Relativamente à terceira força política, União Cabo-Verdiana Independente e Democrática (UCID), Alvarenga estima que deverá eleger mais do que os atuais dois deputados. "Quanto mais deputados eleger mais importante se tornará no cenário político nacional, especialmente se nenhum dos maiores partidos conseguir maioria absoluta", sustentou o analista.

Balanço positivo

Os dirigentes dos principais partidos, que são também candidatos a primeiro-ministro, mostraram-se otimistas sobre o desenrolar da campanha.

Para Janira Hopffer Almada, "as duas semanas de campanha correram muito bem, houve um grande entusiasmo, muita confiança, mas também uma grande esperança de que, juntos, continuaremos a construir Cabo Verde". E a presidente do PAICV garantiu que "aquilo que não foi feito ainda será garantido por quem construiu as bases nesses 15 anos de governação".

Por seu lado, Ulisses Correia e Silva considerou que a campanha foi muito positiva e serviu para o partido reconfirmar "uma grande adesão" do eleitorado, sobretudo jovem. O líder do MdP garantiu ter constatado que "o povo cabo-verdiano realmente quer mudança, quer novas soluções".

Cerca de 350 mil eleitores cabo-verdianos no arquipélago e no estrangeiro vão hoje às urnas para eleger os 72 deputados ao Parlamento, numas eleições que serão disputadas por seis partidos. O arquipélago vive em regime multipartidário consagrado na Constituição de 1992, tendo o MpD governado entre 1991 e 2001 e o PAICV regressado ao poder neste último ano.

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