"Já vimos isto no passado. Felizmente nada vai mudar"

Khalid chegou à Holanda há quatro décadas. Não acredita na vitória de Wilders mas admite que cada voto conta

É difícil pensar numa cor que não esteja num dos tecidos à venda na bancada de Khalid. É véspera de eleições e este paquistanês acredita que "felizmente" nada vai mudar. A "euforia" em torno da ascensão da extrema-direita de Geert Wilders não passará de um "receio" que não será concretizado. "Mesmo que agora consiga um resultado melhor, ninguém vai querer formar um governo com ele", atira depois de entregar duas moedas de um euro de troco a uma cliente. "Vendo a três euros o metro", diz no início de uma conversa que haveria de recuar quatro décadas, ao primeiro dia em que pisou a Holanda.

"Cheguei apenas com boa vontade", afirma com um sorriso ao mesmo tempo que desvia o olhar, para desfiar as pontas de uma tira de tecido. Confessa que na altura era um imigrante económico em busca de sustento e foi "bem acolhido aqui", ao longo "deste tempo todo". A razão que o trouxe foi diferente da dos "milhares" que chegam à Europa, vindos da "Síria" e servem de argumento para alimentar um debate com todos os sinais do populismo anti-imigração. "Há muitos refugiados a chegar aqui à Europa e este tipo de partidos não gosta deles. Acusam o governo de ter políticas erradas", afirma, procurando uma explicação para as sondagens que colocam Wilders no topo, como possível vencedor das eleições.

Roterdão parece indiferente aos acontecimentos que colocaram a cidade no epicentro do debate que antecede o escrutínio. Mas, na rua é fácil encontrar quem descreva com detalhe o que se passou. "Eles estavam além, a seguir àquele semáforo a protestar pacificamente. Muitos turcos estavam a gritar em protesto. É o direito deles. Mas não fiquei feliz com o que se passou a seguir, quando a polícia chegou", confessa Robert ao DN. Este engenheiro informático admite que faz parte de um grupo que pode decidir o escrutínio. "Não sei em quem votar. Por isso, também não sabemos o que irá mudar", diz, admitido que o cenário a partir de amanhã "pode ser um pântano político".

Descontente com a situação atual, Turgay, holandês de origem turca, espera que estas eleições se traduzam numa alternativa ao governo atual, "visto que muitos imigrantes já não o querem, porque não fez nada por nós. Muita gente está pronta a mudar para outro canal." Para qualquer um, desde que não seja para o partido de Wilders. "A maior parte das pessoas, aqui, não querem um Trump número dois na Europa, especialmente na Holanda. É a minha opinião. Não sei o que as outras pessoas pensarão, mas nós não queremos um segundo Trump", afirma.

O maior receio de Turgay não está afastado e há quem não tenha a mínima dúvida que "o PVV vai ganhar estas eleições", nomeadamente "por causa dos refugiados", nota Dorian, uma estudante de Medicina, acreditando que "muitas pessoas vão votar em Wilders", aproximando a Holanda de um cenário de que nem quer ouvir falar, a saída da União Europeia.

"Muitas pessoas querem um NLexit, porque não acham que o Reino Unido tenha tido má sorte [com o brexit] e muitos pensam que a nossa economia está má e, se sairmos da União Europeia, será bom para nós, não teremos mais refugiados e a nossa economia ficará melhor", acredita.

Khalid, o vendedor de tecido mantém-se firme, dizendo que nada mudará. "Já vimos este tipo de situações no passado, três ou quatro vezes. Nos anos 90, no início deste século e agora estão a tentar outra vez. Mas não terão hipótese", disse, referindo-se ao PVV de extrema-direita. Mas, "um único voto pode decidir o que vai acontecer", pensa o engenheiro informático, insistindo que "reina a incerteza".

"Desde que o Geert Wilders não ganhe está OK para mim", afirma Nathaniel, um imigrante originário de Curaçao, a viver há mais de duas décadas em Roterdão.

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