Islamita não atuou sozinho e planeou longamente o ataque

Atacante radicalizou-se após ter chegado aos EUA em 2010. Presidente Trump contempla hipótese de o enviar para Guantánamo.

O ataque terrorista que provocou oito mortos e 12 feridos em Manhattan na tarde de terça-feira foi cuidadosa e longamente planeado, tendo o seu responsável, Sayfullo Habibullaevic Saipov, consultado instruções em sites ligados ao grupo terrorista Estado Islâmico (EI). A polícia de Nova Iorque pensa que Saipov não terá atuado sozinho e está a investigar a presença de um indivíduo, visto na área a tirar fotografias, dias antes do ataque.

Um responsável da polícia de Nova Iorque declarou à CNN que se procurava estabelecer possíveis ligações com indivíduos que estão sob investigação por suspeitas de terrorismo islamita. O FBI pedia ontem informações sobre Muhammadzoir Kadirov, de 32 anos, que como Saipov também é natural do Usbequistão. Horas depois de emitir o alerta, o FBI detetava Kadirov, não revelando contudo porque o queria interrogar.

O principal suspeito do ataque, que ontem apareceu em tribunal em cadeira de rodas e foi acusado de cometer um atentado terrorista em nome do Estado Islâmico, chegou aos EUA ao abrigo do programa Green Card em 2010, vivendo primeiro em Tampa, na Florida, antes de se mudar para Nova Jérsia. O programa concede anualmente 50 mil vistos de residência, que se podem tornar permanentes, e abre caminho à concessão da cidadania americana de pessoas provenientes de países sem tradição de imigração para os EUA.

O presidente Donald Trump, comentando ontem o ataque, lançou duras críticas a este programa, em vigor desde 1990, responsabilizando os democratas pela sua criação, ao mesmo tempo que insistia na necessidade de ser aplicado um maior controlo à entrada de imigrantes no país. A Reuters notava ontem que o número total de candidaturas foi de 17,6 milhões em 2016, sendo certo que, por exemplo em 2015, 6% do total da população da Serra Leoa (7,6 milhões) concorreu. O programa sempre foi alvo de controvérsia, sendo criticado por abrir caminho à entrada nos EUA de pessoas sem particulares qualificações profissionais.

Trump, que classificou Saipov como um "animal", disse estar a considerar a hipótese de o enviar para Guantánamo, e voltou a criticar as políticas para a imigração seguidas pelos seus antecessores na Casa Branca. "Somos tão politicamente corretos que passámos até a ter medo de atuar."

Saipov, de 29 anos, alugou uma carrinha de caixa aberta numa das lojas da marca Home Depot, especializada em materiais de construção civil, em Nova Jérsia, dirigindo--se depois para Manhattan, onde desencadeou o ataque. Ao sair do veículo, foi atingido no abdómen por um agente da polícia, Ryan Nash, de 28 anos, que estava ontem a ser considerado um herói pela sua rápida atuação, impedindo o atacante de continuar a matança.

Ainda segundo fontes da polícia de Nova Iorque, Saipov teria consultado profusamente páginas na internet onde se detalha como levar a cabo diversos tipos de ataques. "Ele seguiu à risca as instruções de como se realiza um ataque desta natureza", disse às agências o número dois da polícia da cidade, John Miller, acrescentando que a preparação do atentado "demorou semanas".

A polícia descobriu no local do ataque várias armas brancas e um papel a glorificar o EI. Fonte do FBI revelou que o usbeque, detido num hospital, estaria a mostrar-se algo colaborante com os agentes encarregados do interrogatório.

Saipov, que é casado e pai de três filhos, tinha o visto de residência permanente e o seu nome não constava de qualquer lista de vigilância das agências de segurança americanas. Apenas fora várias vezes multado e detido em 2016 por não ter comparecido em tribunal devido a uma contravenção não especificada. Trabalhava na Uber, em Nova Jérsia, e dos registos da empresa não constam reclamações ou denúncias sobre o seu comportamento.

O presidente da Câmara de Nova Iorque, Bill de Blasio, revelou que Saipov ter-se-ia radicalizado após a chegada aos EUA. Facto confirmado por um outro usbeque nos EUA, Mirrakhmat Muminov, ouvido pela Reuters. "Começou a estudar religião nos EUA", disse Muminov, esclarecendo que a liberdade de prática religiosa no país fascinava o seu compatriota.

O ataque de terça-feira na Baixa de Manhattan é o mais mortífero em Nova Iorque desde o 11 de Setembro de 2001. Além dos oito mortos, sete homens e uma mulher, causou 12 feridos, permanecendo hospitalizados nove, dos quais quatro em estado crítico. Das vítimas, cinco são argentinos, duas são americanas e uma belga. Até ao final do dia de ontem, não havia registo de portugueses entre as vítimas.

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