Irão sobe recompensa para quem cumprir fatwa contra Rushdie

Organizações do regime oferecem 3,6 milhões de euros a quem assassinar o autor de obra publicada em 1988. Morte foi pedida pelo fundador da república islâmica.

Um conjunto de 40 entidades iranianas, dos setores público, semipúblico e privado, aumentaram o valor da recompensa para quem cumprir a fatwa (decreto religioso) emitida, em 1989, pelo então Líder Supremo Ruhollah Khomeini, em que se apelava ao assassínio de Salman Rushdie, autor da obra Versículos Satânicos, publicada pouco antes, no ano anterior.

O valor agora estabelecido é equivalente a 3,6 milhões de euros. Anos após a declaração de Khomeini, uma fundação religiosa estabelecera um prémio de 2,4 milhões de euros. E em 2012 procedeu a um aumento para 2,9 milhões de euros. O novo montante foi anunciado esta semana na inauguração de uma exposição promovida por um departamento das milícias Baseej que integram a estrutura dos Guardas da Revolução, a elite político-militar do regime de Teerão.

As agências sublinham que é prática comum, no mês em que se assinala a publicação da fatwa, os setores mais duros do regime realizarem alguma iniciativa a marcar a data. O que surpreendeu este ano foi, não obstante o acordo sobre o nuclear e o fim das sanções, os conservadores insistirem num gesto da natureza do anunciado e que ressuscita antigas tensões entre o Irão e o Ocidente. A interpretação corrente é que permanece tensa a competição política entre os diferentes setores do regime, em particular no momento eleitoral que se vive no país, com legislativas e voto para Assembleia dos Peritos, órgão que designa o Líder Supremo.

O escritor, de 68 anos, e o seu agente literário recusaram-se a qualquer comentário. Após a proclamação da fatwa, a única proferida até hoje contra o autor de Versículos Satânicos, Rushdie foi forçado a viver na clandestinidade de 1989 a 2005, sob proteção da polícia britânica.

A obra foi considerada blasfema e desencadeou, logo após a publicação, violentas manifestações, primeiro no Paquistão, estendendo-se a outros países islâmicos e a comunidades muçulmanas pelo mundo. Na sequência destas manifestações, a 14 de fevereiro de 1989, o ayatollah Khomeini emitiu a fatwa com o argumento de que o livro era uma obra "contra o Islão, contra o Profeta do Islão e o alcorão", merecendo a morte o autor. Khomeini apelava "a todos os bravos muçulmanos, onde quer que estejam no mundo, a executar esta sentença sem demora, para que daqui em diante ninguém ouse insultar (...) os Muçulmanos".

Khomeini morreu em junho de 1989, permanecendo vigente a fatwa contra o escritor indiano de nacionalidade britânica, tendo um responsável da agência oficial Fars, uma das entidades que reforçaram a verba para assassinar Rushdie, declarado que "a fatwa é um decreto religioso. Ninguém no mundo pode anular uma fatwa. Foi, é e será". Alguns teólogos islâmicos argumentam que só o autor de uma fatwa a pode anular - algo impossível no caso.

Na época da presidência de Mohammad Khatami, entre 1997 e 2005, este declarou que "não impediria assim como não incentivaria" quaisquer tentativas de concretizar a fatwa. O Líder Supremo, que sucedeu a Khomeini, Ali Khamenei garantiu, em 2005, que a fatwa permanecia em vigor. Ao longo dos tempos, outros dirigentes religiosos foram sublinhando a vigência do decreto religioso de Khomeini.

Entre outras retaliações, o tradutor para japonês foi assassinado e os editores da obra na Noruega e em Itália foram alvos de ataques.

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