Inimigos do Irão? É só escolher

Os jihadistas são os suspeitos lógicos dos ataques de hoje contra o Parlamento iraniano e o mausoléu de Khomeini, mas à República Islâmica não faltam os inimigos, desde os Estados Unidos a Israel, passado pela Arábia Saudita, campeã do campo sunita contra o bloco xiita liderado pelos ayatollahs.

Inimigos do Irão? É só escolher: Estados Unidos, Israel, Arábia Saudita, Estado Islâmico, etc, etc, etc. Para simplificar, os etc são os separatistas baluches, curdos e árabes, ativos por vezes nas províncias fronteiriças da antiga Pérsia (o nome Irão só foi adotado em 1935). E apesar das suspeitas de contactos recentes na lógica do inimigo do meu inimigo meu amigo é, não descartemos também os talibãs e a Al-Qaeda entre as ameaças ao regime dos ayatollahs, que governa o grande país xiita desde a Revolução Islâmica de 1979 que derrubou o xá.

Os jihadistas são os principais suspeitos dos ataques de hoje contra o Parlamento de Teerão e o mausoléu de Khomeini, o fundador da República Islâmica. Tanto na Síria como no Iraque, as milícias xiitas apoiadas pelo Irão (e enquadradas por militares iranianos) têm estado na primeira linha do combate ao Estado Islâmico, sendo que no primeiro desses dois países constituem também um suporte vital para o próprio regime de Bashar Al-Assad. Na lógica jihadista, os xiitas são infiéis e não apenas a corrente minoritária do islão (10% dos 1500 milhões de muçulmanos).

A Arábia Saudita, de relações cortadas com o Irão desde janeiro de 2016, é outro inimigo declarado dos ayatollahs. Líder do campo sunita, os sauditas enfrentam o Irão com argumentos teológicos que remontam ao século VII e à questão da sucessão do profeta Maomé mas também através de guerras por procuração bem atuais, como acontece na Síria ou no Iémen. A desconfiança em relação ao Irão é tal que o Qatar, um país sunita, está a ser punido por esforços de conciliação com os ayatollahs.

Quem também não esconde a aversão ao Irão é Israel, que se sente tão ameaçado com um moderado como Rohani na presidência como nos tempos em que esta era ocupada pelo radical Ahmadinejad. Os israelitas não esquecem que no passado houve dirigentes iranianos a ameaçar a destruição do Estado Judaico e que ainda hoje o Irão é um dos grandes financiadores do Hamas, o ramo islamita do movimento nacional palestiniano. E o facto de o Irão ter assinado com os Estados Unidos em 2015 um acordo que regulariza o seu programa nuclear não convence o governo de Netanyahu do abandono das intenções bélicas por parte dos ayatollahs. Entre 2012 e 2015, quatro cientistas nucleares iranianos foram mortos em ataques e Teerão sempre apontou o dedo aos serviços secretos israelitas, decididos a manter o Estado Judaico como única potência nuclear da região.

Quanto aos Estados Unidos, a intenção de Trump é clara, como se viu no discurso na recente visita à Arábia Saudita: designar o Irão como principal ameaça no Médio Oriente, a par do Estado Islâmico, e apoiar sauditas e israelitas na sua frente comum (apesar da ausência de laços oficiais) contra os ayatollahs. Ao contrário de Obama, que negociou otimista o acordo sobre o nuclear, o novo presidente não acredita ser possível uma reaproximação estratégica com o Irão, que no tempo do xá era um aliado-chave da América. Trump, tal como o Partido Republicano, tudo fará para manter o máximo de sanções ao Irão, de modo a impedir o ganhar de força por um país petrolífero com 80 milhões de habitantes e herdeiro civilizacional da antiga Pérsia, o que explica a permanente tensão com os vizinhos árabes.

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