"Inevitável. O custo de um brexit sem acordo terá que ser pago por alguém"

Em entrevista ao DN e à TSF, Will Surman, dirigente da FoodDrinkEurope, que congrega os maiores representantes da indústria agro-alimentar e bebidas da União Europeia, defende mais flexibilidade de parte a parte e considera que a extensão do período de negociações seria a uma forma evitar consequências mais graves, numa altura em que um acordo parece distante.

Em Bruxelas, os representantes do sector Agro-Alimentar e da industria de processamento alimentar expressam preocupação, perante os obstáculos para a obtenção de um acordo sobre a relação comercial futura com o Reino Unido.

Temem fortes disrupções nas cadeias de abastecimentos de ambos os lados, com "inevitáveis" consequências ao nível dos preços para os consumidores e para empresas europeias, no caso de um não-acordo, com o prazo para as negociações a encurtar-se e o período de transição a menos de seis meses de expirar.

Hoje mesmo, o governo britânico rejeitou uma nova possibilidade para solicitar a extensão do período de transição, que seria uma forma de dar mais tempo às negociações, que encontram agora na pandemia de covid-19 uma nova contrariedade.

Em entrevista ao DN e à TSF, Will Surman, dirigente da FoodDrinkEurope, que congrega os maiores representantes da indústria agro-alimentar e bebidas da União Europeia, defende mais flexibilidade de parte a parte e considera que a extensão do período de negociações seria a uma forma evitar consequências mais graves, numa altura em que um acordo parece distante.

Quais são as consequências previsíveis para as cadeias de abastecimento agro-alimentar no caso de um fracasso das negociações entre a União Europeia e o Reino Unido?
O grande perigo para a cadeia agro-alimentar, se houver um brexit sem acordo, é o impacto naquilo que é a enorme quantidade de intercâmbio comercial, que vai do Reino Unido para a União Europeia e da União Europeia para o Reino Unido. Acho que, se olhar para os números, é qualquer coisa em torno dos 58 mil milhões de euros, em comércio alimentar e de bebidas, entre dois mercados. E isso ficará ameaçado pelo brexit sem acordo. O que terá sérios impactos nas empresas e no emprego.

Quando aponta para um impacto enorme, nos empregos e empresas, é possível quantificá-lo?
Sim, o grande problema é... Ou dito de outra forma: a grande vantagem da UE é o Mercado Único. E, o mercado único permite que os produtos, os bens agrícolas, e os alimentos e bebidas se movimentem entre mercados, - entre Estados-membros -, com liberdade, com zero tarifas, zero cotas. Assim que se começar a colocar qualquer tarifa ou cota em mercadorias, nas deslocações entre as fronteiras, isso começará a custar dinheiro. E custará dinheiro às empresas e também começará a custar aos consumidores. É este o problema de um não-acordo. Se não houver acordo - e o que isso significa, em teoria, é que os negociadores não chegaram a entender-se sobre um acordo de livre comércio -, irá haver tarifas sobre mercadorias da União Europeia para o Reino Unido. Tanto produtos processados como agrícolas. E isso irá abrandar o comércio e terá um grande impacto nos negócios, nos consumidores e também nos preços.

Ou seja, a fatura de um não acordo nas negociações do brexit vai recair sobre os consumidores...
Inevitavelmente, sim. Eu acho que sim. Ou, pelo menos o custo de um brexit sem acordo terá que ser pago por alguém. Portanto, se o consumidor não suportar o custo, serão as empresas. E vai ver que haverá empresas que não serão capazes de assumir o custo extra. Acho que inevitavelmente verá parte desse custo passado para o consumidor. Também veremos empresas que precisariam de apertar o cinto e talvez haja empregos em risco. Quero dizer, nós realmente não queremos cair nessa ravina, de um não-acordo. O que estamos a fazer é a exigir aos negociadores, em primeiro lugar, que cheguem a um acordo. E isso é a nossa prioridade. Ter um bom acordo onde não haja cotas, nem tarifas. Mas, em segundo lugar, se não conseguirem chegar a um acordo até o final de dezembro de 2020, - e, o vamos ser sinceros, só temos seis meses para encontrar um acordo e há um longo, longo caminho a percorrer -, precisamos realmente de estender o período de transição, para garantir que haja alguma previsibilidade para as empresas poderem continuar, para os agricultores, para as empresas alimentares e de bebidas. Para poderem continuar a comercializar. E, também para ter alguma certeza, num momento tão incerto com a covid-19, com o impacto que está a ter em todos os sectores de negócio.

Existe alguma alternativa possível a estas duas opções?? Identificam alguma outra via, que permitisse uma saída, no caso de não haver nem um acordo nem um pedido de extensão?
É muito uma escolha binária, na verdade. Não há muito no meio. Se não houver acordo, nem qualquer extensão do período de transição, aí entramos em terreno muito difícil. E esse será o maior impacto. É o que designamos como a opção da beira do abismo. A melhor opção será chegar a um acordo. E, a segunda melhor opção seria ter um acordo de [extensão da] transição, para nos levar adiante com alguma certeza para as empresas. A indústria alimentar e de bebidas é a maior indústria de produção da Europa. Então isso conta. Conta para os empregos e empresas. Mas o que estamos a pedir aos negociadores é uma tarifa gratuita, um acordo de livre comércio que não tenha tarifas e nem taxas, encargos ou cotas sobre as mercadorias que circulam entre a União Europeia e o Reino Unido. Além disso, estamos a pedir condições equitativas, das regras e regulamentos aplicados aos produtores do Reino Unido ou da União Europeia, para garantir que todos operamos em pé de igualdade. Isto também é fundamental, termos igualdade de condições. É uma tarefa difícil. Mas - é certo -, o Brexit, será difícil com qualquer situação.

Ouvindo o que está a dizer e reflectindo sobre o andamento de todo o processo do Brexit, não parece haver grande coisa a fazer do lado de cá do Canal da Mancha. É o Reino Unido que pode pedir a extensão. Ou considera que do lado europeu devia de haver mais flexibilidade nas negociações?
Penso que em qualquer negociação são necessárias duas partes. Então, sim, acho que precisa haver flexibilidade do lado do Reino Unido. A posição de negociação é muito clara neste momento: eles dizem que não vão além de dezembro de 2020 e que as negociações terão que ser concluídas dentro deste período. Por isso, pedimos flexibilidade do lado do Reino Unido. Mas, do mesmo modo, penso que também deve haver flexibilidade e compreensão da parte dos negociadores da União Europeia. Creio que a União Europeia tem um papel a desempenhar aqui, assegurando a sua própria flexibilidade e afastando-se dos conflitos, que temos visto na imprensa, para conversas mais conciliatórias, cooperantes e construtivas em que possamos realmente considerar e pensar nas consequências para pessoas reais, além disso, para concentrar o pensamento dos negociadores de ambos os lados.

A situação não é seguramente nada ajudada pela pandemia de covid-19.
Sim. A pandemia torna as coisas ainda mais complicadas. Para lá da covid-19 há muita coisa a acontecer no Reino Unido, com o Brexit à mistura. Mas não é intransponível. E o Reino Unido está comprometido para o conseguir. Mas acho que precisa haver alguma flexibilidade do Reino Unido para garantir que não vamos ver esse precipício e que não ocorrem perdas maciças de empregos ou um impacto nos negócios ou um aumento potencial dos preços nas prateleiras.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG