Incerteza mantém-se seis meses depois do referendo do brexit

Processo de negociação só arrancará no final de março, libra ainda não recuperou da queda e os crimes de ódio aumentaram

Seis meses após o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, britânicos e europeus continuam à espera para saber como é que o brexit se vai concretizar. Theresa May, que substitui David Cameron à frente do governo britânico após a vitória do "sim" a 23 de junho (51,9% contra 48,1%), ainda não acionou o artigo 50.º do Tratado de Lisboa para iniciar as negociações com Bruxelas - isso só acontecerá no final de março. A economia, apesar da queda da libra já pesar nas carteiras britânicas, não está numa situação tão catastrófica como previsto. Mas o número de crimes de ódio aumentou, assim como as autorizações de residência permanente a cidadãos europeus.

Apesar das tentativas de May para discutir temas ligados ao brexit - no último Conselho Europeu quis falar de uma amnistia para os cidadãos dos 27 que já vivem no Reino Unido - da parte dos outros Estados membros a posição tem sido só uma: esperar pelo acionar do artigo 50.º do Tratado de Lisboa, que anuncia oficialmente a intenção do país de sair da UE e dá início ao prazo de dois anos para negociar.

Questionado sobre o que espera das negociações, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português disse ao DN que "Portugal considera que a unidade das quatro liberdades (liberdade de circulação de capitais, bens, serviços e pessoas) representa uma linha vermelha inultrapassável e crê que é possível conduzir uma negociação que respeite essa unidade e que mantenha o Reino Unido como um parceiro da UE".

O Ministério lembrou ainda que as negociações oficiais só começarão com a ativação, por parte do Reino Unido, do artigo 50º, lembrando contudo que "naturalmente, tem havido contactos bilaterais entre os dois países, mas que não podem ser descritos como uma negociação". Há pelo menos 234 mil portugueses a trabalhar no Reino Unido, estimando-se que a comunidade ascenda a meio milhão de pessoas.

Segundo os dados do gabinete de estatísticas britânico, entre setembro de 2015 e setembro de 2016, foram autorizados 37 600 pedidos de residência permanente a cidadãos da União Europeia (que estão há mais de cinco anos no país) - comparando com 18700 no ano anterior. No terceiro trimestre, houve 14500 autorizações, face a quatro mil no mesmo período de 2015. No total, há mais de 3,5 milhões de europeus a viver no Reino Unido.

Supremo Tribunal

Ainda antes de May acionar o artigo 50.º - alegadamente até ao final de março - o Supremo Tribunal do Reino Unido deverá pronunciar-se já em janeiro sobre se o brexit tem ou não de passar primeiro pelos deputados em Westminster. A maioria já disse que os britânicos votaram e que o processo é para ir em frente - exigindo contudo que May lhes apresente o plano de negociações antes de o levar a Bruxelas -, mas o tribunal poderá decidir que os parlamentos da Escócia, Gales e Irlanda do Norte também têm que se pronunciar sobre o tema.

Entretanto, enquanto se espera o arrancar oficial das negociações, o brexit já pesa nas carteiras dos portugueses no país. "As empresas que importam produtos para vender no Reino Unido, os supermercados portugueses ou os cafés, já estão a pagar o preço do brexit", disse ao DN o presidente da Câmara de Comércio Luso-Britânica, Bernardo Ivo Cruz. "Os comerciantes já estão a pagar mais, só por causa da diferença na taxa de câmbio, refletindo isso ou não nos consumidores. Se o país sair do mercado único, vão pagar ainda mais, com os impostos de circulação, com a burocracia."

Ainda assim, admite que há empresas que estão a beneficiar - para já - da situação. "A minha empresa é de exportação de bens e serviços e os nossos clientes gastam menos para nos pagar. É uma vantagem, mas pode ser passageira. Ninguém sabe o que vai acontecer depois", indicou. E lembra que o Reino Unido, que era a quinta economia mundial, foi ultrapassado pela Índia.

Outro problema são os crimes de ódio contra imigrantes. Dados de outubro do Ministério do Interior britânico apontavam para um aumento de 41% desde o referendo. "Até ao brexit, mesmo que os britânicos tivessem estes sentimentos, não tinham coragem de os expressar como fazem agora", disse Bernardo Ivo Cruz. "Agora, parece que se sentem no direito de expressar o seu racismo e xenofobia."

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