"Impeachment é golpe contra a democracia"

Dilma não renuncia e Lula já trabalha como ministro informal. Lava-Jato descobre que Odebrecht tinha departamento para subornos

Sob cânticos de "Dilma guerreira do povo brasileiro" e "não vai ter golpe" cantados por juízes e advogados brasileiros que foram ontem prestar-lhe solidariedade ao Palácio do Planalto, a presidente do Brasil classificou o processo de impeachment como "um golpe", sublinhou que "não vai renunciar" em nenhuma circunstância e pediu "juízes serenos, equilibrados e imparciais".

"Não importa se a arma do golpe é um fuzil ou a vingança, não há meias palavras, o que está em curso é um golpe contra a democracia", afirmou a líder de governo que está sob processo de destituição. "Já fui alvo de uma injustiça na ditadura, não quero ser vítima de outra em democracia."

"Preferia não ter de viver esse momento de ter de lutar novamente pela legalidade neste país, a justiça brasileira fica enfraquecida e a Constituição é rasgada quando são gravados e divulgados, em evidente violação da segurança nacional, diálogos da presidente da República", disse, a propósito das escutas telefónicas reveladas por Sérgio Moro. Ainda com o juiz de primeira instância de Curitiba em mente, assinalou: "Quero ouvir o som do martelo da justiça batido por juízes serenos, equilibrados e imparciais".

Jamais renunciarei em hipótese alguma

Para concluir que quer "tolerância, diálogo e paz na diversidade". "Sejamos firmes na defesa das conquistas do povo brasileiro nos últimos anos, se formos, tenho a certeza: não vai ter golpe. Tenho energia, disposição e respeito à democracia suficientes para não renunciar, jamais renunciarei em hipótese alguma."

À mesma hora, na comissão de análise de impeachment no Congresso, a centenas de metros de onde Dilma discursava, o governo obtinha uma vitória ao ver ser recusada a inclusão do depoimento do ex-senador do PT Delcídio do Amaral no processo.

Noutra frente de batalha jurídica, o plenário do Supremo vive sob clima de desconfiança a pairar. Primeiro porque Gilmar Mendes, o juiz que aceitou mandado de segurança requerido pelo PSDB, tem prestado declarações públicas contrárias ao governo.

Depois porque o juiz sorteado como relator do processo a Lula se indisponibilizou: alega Edson Fachin ser "suspeito" por ser padrinho de casamento de um dos advogados de Lula. O pedido caiu, em segundo sorteio, no colo de Rosa Weber, juíza que é citada numa conversa gravada pela Lava-Jato entre o ex-presidente e o ex-ministro da Casa Civil Jaques Wagner - o primeiro pede ao segundo para convencer Dilma Rousseff a pressioná-la num outro momento do processo.

Lula já trabalha como ministro da Casa Civil informal, tentando convencer Michel Temer, vice-presidente de Dilma e presidente do PMDB, maior força parlamentar do Brasil, a não virar costas ao governo na votação do impeachment. É esperada para as próximas horas cimeira com Temer.

Nos últimos dias, José Serra, senador do PSDB, verbalizou o que se diz há meses em surdina: ele e Temer costuram um entendimento para o próximo governo, onde o tucano ocuparia uma pasta fundamental - possivelmente a da Fazenda - num executivo liderado pelo peemedebista. O vice-presidente negou.

A 26.ª etapa da Lava-Jato, chamada de Xepa, emitiu 110 mandados de busca e de prisão, incidiu em oito estados do país e atingiu, sobretudo, a construtora Odebrecht. De acordo com os investigadores, a maior construtora do Brasil, cujo dono, Marcelo Odebrecht, está preso desde Junho, mantinha um departamento só para gerir os subornos. "Com o conhecimento de Odebrecht", destacaram os agentes. Entre os detidos estão gestores do Itaquerão, estádio do Corinthians que foi o palco de abertura do Mundial-2014, construído pela Odebrecht.

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