Ibrahim, Durr, Abd e mais um milhão arriscaram a vida para chegar à Europa

Metade dos que chegam ao Velho Continente fogem da guerra na Síria. Ontem mais 11 afogaram-se ao largo da Turquia

Ibrahim carrega Mohammed, um dos filhos de 10 meses, num marsúpio azul. Foi assim que o transportou desde a Turquia, onde este sírio, de Homs, e a mulher, encontraram refúgio há dois anos, após fugirem da guerra civil no seu país. Foi ali que os gémeos nasceram. E foi isso que o levou a arriscar a vida na travessia entre a Turquia e a Grécia para chegar à Europa com a família. Agora está na fronteira entre a Macedónia e a Sérvia, mas sonha alcançar a Alemanha e juntar-se ao pai.

Ibrahim é apenas um dos mais de um milhão de migrantes que este ano já entraram ilegalmente na Europa, na larga maioria por mar. Este número foi ontem revelado pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), segundo a qual estes refugiados são oriundos sobretudo da Síria (metade), do Iraque e do Afeganistão. O refugiado um milhão entrou na Europa na segunda-feira, mas como o fluxo nunca para, a OIM apontava para ontem já estarmos perto dos 1 006 000.

Com o número de entradas até agora a ultrapassar já o total de 2014, histórias como a de Ibrahim há muitas. Abd, por exemplo, também deixou a Síria com o pai. Tem seis anos e agora vive no campo de refugiados de Nijmegen, na Holanda. Para trás, na Turquia, ficaram a mãe e as sete irmãs. "Como é que o podia deixar. Sem mim o meu pai nunca teria conseguido chegar aqui", explica aos Médicos sem Fronteiras (MSF) o rapaz que atravessou a pé todos os Balcãs e espera que a lei holandesa lhe permita agora voltar a juntar a família.

Durr veio sozinha. Esta afegã de 30 anos decidiu deixar o seu país depois de o marido ter desaparecido. Já tinha sido ameaçado várias vezes pelos talibãs e um dia, não voltou. "Não sei onde ele está. Se está vivo ou morto", confessa Durr aos MSF. Agora a afegã vive em Calais, no campo de refugiados daquela cidade francesa conhecido como A Selva, mas só pensa numa coisa: pegar nos três filhos e juntar-se ao irmão no Reino Unido.

Mortes

Menos sorte do que Ibrahim, Abd e Durr tiveram as 11 pessoas que ontem se afogaram quando tentavam atravessar da costa da Turquia para a Grécia. A guarda costeira turca conseguiu ainda salvar sete migrantes e ao fim do dia prosseguia as buscas ao largo do resort turístico de Kusadasi. As vítimas deste novo naufrágio juntam-se assim aos mais de 3600 refugiados mortos (ou desaparecidos) desde o início do ano. E nem as condições meteorológicas adversas do inverno parecem capazes de travar o fluxo de migrantes que tentam a travessia da Turquia para a Grécia, de onde seguem depois para o Norte da Europa, em especial para a Alemanha.

As autoridades alemãs, que se têm destacado pela sua política de braços abertos para com os refugiados, quando outros países europeus, como a Hungria, ergueram vedações, para os travar, esperam receber um milhão este ano. Um número que inclui cerca de 40% de pessoas oriundas dos Balcãs, que não estão contempladas nos dados da OIM.

Os desentendimentos entre os Estados membros da UE, com alguns a defenderem o fim de Schengen e da livre circulação dentro da União, os receios de que entre os refugiados cheguem terroristas, bem como a relutância de muitos migrantes em irem para os países do sul, como Portugal, fazem que a maioria dos 160 mil que Bruxelas determinou distribuir pelos 28 continue sem ter uma casa.

"A migração deve ser legal e segura para todos - tanto para os refugiados como para os países que os acolhem", disse à BBC William Lacy Swing, diretor-geral da OIM. E num comunicado conjunto com o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, a organização diz acreditar que a UE está a preparar uma "resposta mais coordenada" a uma crise que promete marcar 2016.

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