Hollande admite recandidatura em 2017 e diz não ceder na nova lei do trabalho

Presidente defendeu necessidade de "reformas impopulares" e abriu caminho para nova candidatura ao Eliseu. Manifestantes voltam amanhã às ruas em mais uma jornada de contestação.

Confrontos opuseram ontem nas ruas de Paris manifestantes que contestam a nova lei do trabalho, atualmente em fase de discussão, a elementos das forças de segurança, tendo-se registado 12 detenções.

Os manifestantes participavam em mais uma jornada de contestação às mudanças na legislação do trabalho que constam do projeto de lei apresentado pela ministra desta pasta, Myriam El Khomri, aprovado na passada semana na Assembleia Nacional com recurso pelo governo a um mecanismo constitucional que dispensa o voto dos deputados. Além dos desfiles de ontem, novas ações de rua estão marcadas para amanhã em Paris e noutras grandes cidades, tornando esta "a semana social de todos os perigos", escrevia na segunda-feira o jornal L"Est Républicain, porque, além das manifestações, decorrem em simultâneo greves em diferentes setores.

Ontem, em Paris, naquela que foi a sexta manifestação desde a apresentação no final de março do projeto conhecido como Lei El Khomri, desfilaram 12 mil pessoas, segundo as forças de segurança, ou 55 mil, de acordo com fontes sindicais. No total nacional estiveram nas ruas 68 mil pessoas ou 220 mil, consoante as autoridades ou os sindicatos.

Entre as principais mudanças consagradas na nova legislação encontram-se o aumento do horário de trabalho, que pode ir até 12 horas por dia, mas que tem que ocorrer no quadro de acordo coletivo e em resposta a um aumento da atividade empresarial. Outras das mudanças são a simplificação das regras para os despedimentos, o fim das 35 horas por semana nas empresas com menos de 50 trabalhadores e um diferente cálculo para a remuneração das horas de trabalho suplementar. Atualmente, estas são majoradas a 25% para as primeiras oito horas e a 50% para as subsequentes. Com a nova legislação, poderiam ser majoradas em apenas mais 10%.

A Lei El Khomri está a ser apreciada desde esta semana no Senado, onde Os Republicanos (partido liderado pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy) estão em maioria, antecipando-se a introdução de algumas alterações. Após votação nesta Câmara, prevista para 14 de junho, o texto voltará à Assembleia Nacional para um último voto, prevendo-se que, de novo, o governo recorra ao mecanismo constitucional já empregue na passada semana. A oposição de direita e de esquerda já anunciaram a intenção, de como sucedeu na primeira ocasião, voltarem a apresentar uma moção de censura. Então, a moção recolheu 246 votos quando eram necessários 289 para bloquear a lei.

A presente onda de contestação e a situação económica em França foram o tema central de uma entrevista do presidente François Hollande, ontem, à Europe 1. Uma entrevista em que, inadvertidamente, admitiu a possibilidade de se recandidatar em 2017 ao Eliseu.

A pensar em eleições

Num momento mais intenso, Hollande afirmou que "há alternativas à direita. E se eu não for... se a esquerda não for reconduzida , será a vitória da direita ou da extrema-direita". Todavia, não foi esta a primeira vez que o atual presidente aludiu, em tempos recentes, a uma candidatura (com cenário de vitória) em 2017. No dia 8, após as cerimónias do final do II Guerra Mundial, declarou à France 2 que tencionava "estar presente" nas do próximo ano, que decorrem já após a realização das presidenciais.

Hollande estabeleceu dezembro de 2016 como data limite para anunciar, de forma oficial, se será ou não candidato à sua sucessão. Mas, além da frase "se eu não for...", da entrevista à Europe 1, é possível extrair outras declarações em que se revela um Hollande candidato ao Eliseu. "Já chega de se comprazer com coisas negativas", lançou a um dos entrevistadores quando este lhe recordava a situação política: "recorde de impopularidade, ausência de maioria, o país bloqueado". E deixou ainda críticas indiretas, mas suficientemente claras, ao primeiro-ministro Manuel Valls e ao Ministro da Economia, Emmanuel Macron, possíveis candidatos pelo campo socialista nas eleições de 2017.

Sobre a reforma das leis de trabalho, o presidente garantiu que não cederá: "a meia dúzia de arruaceiros, que não ficarão sem resposta". E, de novo, em tom de campanha, recordou que "muitos outros governos" antes dele e que prefere ser lembrado como um presidente "que fez reformas impopulares, à de um presidente que nada fez".

Quanto à economia, Hollande insistiu numa fórmula a que costuma recorrer quando aborda o tema: "Ça va mieux" ("As coisas estão a melhorar"). "Quando uso essa fórmula, não é para dizer que está tudo bem. As coisas estão a melhorar para a França, mas não necessariamente para todos os franceses, reconheço-o". E deu como exemplo a taxa de crescimento económico, que deverá ser de 1,5%. "Quando cheguei [ao Eliseu], era de 0,2%. Então, pode dizer-se que as coisas estão a melhorar".

Polícias na rua

Em paralelo à contestação à Lei El Khomri, os principais sindicatos da polícia convocaram para hoje na Praça da República - onde desde final de março se concentram os adeptos do movimento Nuit Debout (Noite a Pé), nascido contra aquela legislação - uma manifestação contra o "ódio à polícia".

Marcada para as 12.00, a manifestação na capital francesa irá coincidir com concentrações em outras cinquenta cidades do país e assume conotação simbólica, como referiam ontem alguns media.

Muitas das concentrações do Nuit Debout têm terminado em confrontos com a polícia, com feridos em ambas as partes. Um ambiente de tensão que ameaça repetir-se hoje, pois um coletivo intitulado Urgência, a Nossa Polícia Assassina quer promover uma concentração logo de manhã no mesmo local.

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