"Hillary é a última oportunidade para travar a erosão da ordem internacional"

Carlos Gaspar, em entrevista ao DN, considera a Rússia uma potência assertiva mas longe da capacidade que tinha a União Soviética e que só a China pode desafiar a supremacia dos Estados Unidos. Investigador do Instituto Português de Relações Internacionais acaba de publicar 'O Pós-Guerra Fria'

A Europa Ocidental assistiu há dias à passagem de uma frota russa, inclusive com o seu único porta-aviões. Isso criou uma espécie de histeria de que a Rússia está de volta e de forma ameaçadora. Esta Rússia é mesmo assim, forte como foi a União Soviética, ou é uma sombra do que aquela era?

A Rússia é uma potência regional. A União Soviética era a outra grande potência internacional. Na Guerra Fria havia uma competição entre duas grandes potências - os Estados Unidos e a União Soviética - que se reconheciam como pares e que se equilibravam reciprocamente. Hoje em dia há uma única grande potência internacional, com responsabilidades e com capacidade de intervenção à escala global, e depois existem várias potências relevantes mas que são, no essencial, regionais. A Rússia, mesmo nesta fase em que está a seguir uma estratégia mais assertiva, está concentrada nas suas fronteiras. A anexação da Crimeia, a guerra híbrida na Ucrânia Oriental, a intervenção na guerra civil na Síria, são ações dentro de um raio limitado e numa área de contiguidade.

Há o poder nuclear a ter em conta.

Bem entendido, a Rússia é uma grande potência do ponto de vista estratégico nuclear; desistiu formalmente da paridade com os Estados Unidos desde 1993, mas continua a ter uma capacidade nuclear muito superior à da China, à da Inglaterra ou à da França; é uma potência que mantém alguma capacidade relevante e que está a criar uma espécie de cerco à volta da Europa Ocidental, desde o Ártico e o Báltico, com Kalininegrado, ao mar Negro com a Crimeia e, agora, no Mediterrâneo Oriental com Tartus e a nova base aérea na Síria; tem uma capacidade militar significativa, mas não tem uma capacidade económica relevante. Mesmo no passado, esse era um dos pontos mais vulneráveis da União Soviética. Em todo o caso, deixou de ser em 1991 o par dos Estados Unidos.

E a sua capacidade, por exemplo, de deslocar este porta-aviões. Os Estados Unidos têm dez, o que significa que se houvesse um outro conflito no Oriente a Rússia não tinha capacidade de se desdobrar.

A Rússia é uma potência continental e as suas capacidades navais sempre foram relativamente escassas. A viagem do Kuznetsov lembrou-me sobretudo 1905, quando a esquadra do Báltico vai dar a volta, fazer uma viagem até à Manchúria, onde é afundada pela esquadra japonesa. Em 1905 os almirantes russos nem sequer tinham os mapas para fazer as viagens de circum-navegação. Foi uma coisa prodigiosa mas não estavam no seu meio e a impressão que uma pessoa tem é que, mais uma vez, aqui não estão exatamente no seu meio. A capacidade naval não é o ponto forte...

Mas é uma exibição de força.

É uma demonstração de força e uma demonstração de que aquilo que a Rússia está a fazer na Síria ou na Crimeia não tem que ver com a guerra civil na Síria, nem tem tanto que ver com o que se passa na Ucrânia. Estes meios são meios irrelevantes para a luta contra o Estado Islâmico na Síria; são relevantes para fazer pressão sobre os aliados da NATO no Mediterrâneo Oriental, designadamente a Turquia.

Para que aceitem entendimentos?

É uma demonstração de uma capacidade de pressão estratégica permanente, de inverter a pressão que foi feita sobre a Rússia depois do fim da Guerra Fria. Depois do fim da Guerra Fria há, com o alargamento paralelo da NATO e da União Europeia, uma espécie de ocupação de uma grande faixa que, no tempo da Guerra Fria, estava sob domínio soviético.

Esse alargamento da NATO acha que era necessário ou foi um pouco audacioso de mais?

Para os Estados Unidos, com Gorbachev e depois de Gorbachev, a estratégia de referência é reorganizar a ordem internacional numa parceria entre Washington e Moscovo. A unificação da Alemanha é feita entre Washington e Moscovo. A intervenção no Iraque, em 1991, é feita no quadro de um acordo entre Washington e Moscovo. E mesmo a seguir ao fim da União Soviética, a relação entre Washington e Moscovo continua a ser decisiva: a desnuclearização da Ucrânia é de 1993. Os Estados Unidos querem que a Rússia seja o único sucessor político e nuclear da União Soviética, querem que seja o seu parceiro. Esse processo é prejudicado sobretudo pelo impasse da transição política na Rússia. Há um longo impasse nos anos de Ieltsin e, por outro lado, há uma tensão crescente nos países da Europa Central e Oriental com as guerras da Jugoslávia. E a resposta aos riscos de uma escalada da violência nas transições pós-comunistas na Europa de Leste é o duplo alargamento da NATO e da União Europeia. Que começa por ser uma estratégia alemã. É só quando os Estados Unidos desistem de ter como parceiro principal a Rússia pós-soviética, pelo impasse da transição, que aceitam essa estratégia de alargamento. E, mesmo assim, combinam o calendário do alargamento da NATO ao mais alto nível, entre o presidente Clinton e o presidente Ieltsin. O pacto para o alargamento da NATO é que ele só se fará depois da reeleição do presidente Ieltsin, o que implica uma intimidade política muito forte e que nega a versão atual do alargamento da NATO como uma conspiração contra a Rússia pós-soviética.

Mas, nesse contexto, vê a ascensão de Vladimir Putin ao poder como uma negação pela parte da Rússia dessa estratégia de Ieltsin?

As elites políticas na Rússia é que têm de explicar porque é que não aceitam o legado de Gorbachev e de Ieltsin que juntamente com Bush e com Clinton definiram os termos da paz no fim da Guerra Fria: a unificação da Alemanha, a restauração do Koweit, a desnuclearização da Ucrânia, que, salvo melhor opinião, é absolutamente essencial para a Rússia ser hoje aquilo que é - uma grande potência nuclear. Se a Ucrânia fosse uma potência nuclear as coisas eram muito diferentes na relação entre a Rússia e a Ucrânia. Esses termos foram feitos através de uma concertação diplomática a todos os títulos notável. A elite russa, com o presidente Putin, nega esses termos da paz e põe em causa a ordem do pós-Guerra Fria. A elite russa é que mudou de posição e ela é que tem de explicar porque é que mudou.

Mas Putin, numa primeira fase, exibe respostas mais simbólicas do que reais, como o regresso do hino soviético. É preciso chegar ao segundo período de Putin como presidente para que esta atitude mais agressiva venha ao de cima. Isso é uma estratégia de sobrevivência pessoal ou enquadra-se na lógica da Rússia como potência?

Acho que existe um ressentimento profundo nas elites russas que o presidente Putin reflete, do ponto de vista político, de uma forma muito clara. É um ressentimento comparado ao ressentimento das elites alemãs depois de Versalhes, com uma diferença: é que o Tratado de Versalhes foi imposto à Alemanha; os termos da paz do fim da Guerra Fria foram feitos em parceria com Gorbachev e com Ieltsin. Mas o ressentimento das elites russas existe, está lá - das elites políticas, das elites militares, das elites de segurança. E é a partir desse ressentimento que Putin define a sua estratégia revisionista, cuja finalidade é pôr em causa a ordem do pós-Guerra Fria e em que, na opinião dessa elite, não há um reconhecimento suficiente da Rússia.

Há pouco falou que a Rússia não tem meios económicos para as ambições. No caso da China, chegou a potência económica antes de chegar a potência militar?

E pode não chegar.

Mas acha que há alguma possibilidade de a China - pela sua história, pelas características do seu crescimento baseado no comércio internacional - vir a tornar-se um rival global dos Estados Unidos?

Os Estados Unidos levam isso a sério. E só isso já é importante. A redefinição das prioridades regionais - de resto, feita pela secretária de Estado Hillary Clinton, desde 2008, de uma forma oficial - é uma mudança estável na política norte-americana. Ao longo dos dois mandatos do presidente Obama, a prioridade asiática manteve-se intacta. Quando o presidente Putin anexou a Crimeia, o presidente Obama não foi a Kiev, não foi a Berlim, nem sequer foi a Bruxelas, foi a Tóquio dizer que os Estados Unidos garantiam a defesa das ilhas Senkaku, cuja soberania é disputada pela China. Há aqui uma mudança real que implica um reconhecimento de que a única das potências emergentes, incluindo a Rússia, que pode vir a ser um challenger para os Estados Unidos é a China.

Mas um challenger sempre de alcance regional, na Ásia Oriental.

Um challenger que pode pôr em causa a balança internacional. Certamente regional, para começar. Mais do que isso, muito rapidamente. Embora não seja evidente que os Estados Unidos estejam inteiramente preparados para a penetração internacional que começa a fazer sentir-se do lado da China em África, na América do Sul e mesmo na Europa de Leste.

Acha que a China conseguirá, com a força económica, ter a projeção que a União Soviética teve através da ideologia comunista? Tornar-se rival global dos Estados Unidos com armas diferentes?

Não. A Guerra Fria é uma guerra total entre duas grandes potências que têm um peso estratégico, militar e nuclear equivalente; é também uma disputa entre dois modelos económicos e duas ideologias. Isso não existe na competição entre a China e os Estados Unidos. Desde logo porque a China não tem a pretensão de representar um modelo alternativo de organização da sociedade industrial. Desistiu no momento em que começam as reformas, em 1978. Faz parte da estratégia de liberalização de Deng Xiaoping renunciar a esse capítulo. Primeiro as reformas económicas, a liberalização, que é indispensável para garantir a segurança nacional da China, a sua projeção internacional e a criação de uma capacidade militar correspondente.

Então a China ameaça a supremacia americana de que ponto de vista?

Do ponto de vista clássico. Como outra grande potência que não aceita a ordem internacional do pós-Guerra Fria, que procura criar, de resto, um sistema de instituições multilaterais paralelo, cujo padrão é excluir os Estados Unidos. A China tem não apenas uma grande história mas também uma grande ambição. A sua projeção principal é no domínio da economia. Mas, aparentemente, os responsáveis pela definição da estratégia norte--americana acreditam que a China pode vir a ser capaz de transformar essa capacidade económica numa capacidade estratégica militar.

Mas, olhando para o orçamento militar, ainda é um anão comparado com os Estados Unidos, não é?

Sobretudo olhando para a parte estratégica nuclear, a China não é sequer comparável à Rússia hoje em dia, muito menos em relação à União Soviética.

Ainda há pouco falou de Hillary Clinton ter tido um papel essencial nessa redefinição da política externa americana. Olhando para estas eleições americanas, no caso de Hillary ganhar, será a continuidade. No caso de Trump ganhar, o que imagina que pode acontecer?

Acho que existe da parte dos decisores europeus uma visão errada de que os resultados da eleição são indiferentes para a política externa norte-americana. Não é assim nos media. Os media são muito sensíveis à polarização entre um candidato populista e uma candidata convencional, mas entre os decisores europeus a posição que prevalece é a de que o resultado é indiferente.

Creem que a máquina americana manter-se-á ganhe quem ganhar?

O presidente Obama desenvolveu nos seus dois mandatos uma política de retraimento estratégico. Fechou o ciclo das intervenções, designadamente no Médio Oriente; deixou passar a anexação da Crimeia; concentrou os seus esforços do lado asiático; não teve uma intervenção relevante nas crises do Médio Oriente e à volta da Europa - deixou a Alemanha e a França negociarem com o presidente Putin e o presidente ucraniano a resolução da guerra híbrida na Ucrânia. Essa política de retraimento, para muitos decisores europeus, não é radicalmente diferente da política de Donald Trump. E se Hillary Clinton é a continuidade, também não seria radicalmente diferente da política de Hillary Clinton. Julgo que essa perceção é profundamente errada e que a continuidade é impossível, quer num caso quer noutro. Por um lado, a eleição de Donald Trump iria pôr em causa a continuidade do próprio modelo de ordenamento internacional, o modelo de hegemonia liberal, como gostam de dizer os analistas norte-americanos. E ele é o primeiro a dizer que é isso mesmo: para Trump a globalização é um mau negócio para os Estados Unidos e, portanto, é preciso pôr em causa a globalização e os tratados multilaterais - o TPP, o TTIP - que sustentam a globalização. A estratégia dele é uma estratégia protecionista. E nós sentimos que existem condições, do lado da Ásia Oriental, do lado da Ásia do Sul, do lado da Europa, para que, perante uns Estados Unidos protecionistas, desencadeiem modelos comparáveis nas grandes regiões económicas, que criem um sistema radicalmente diferente. Ele também admite pôr em causa o conjunto das alianças dos Estados Unidos com as democracias europeias - a NATO é demasiado cara -, com o Japão e com a Coreia do Sul. O que seria, para a China e para a Rússia a realização, sem custos, dos seus principais desígnios.

Ou seja, Trump é protecionista e isolacionista.

Exatamente. Isso é outra ordem internacional. Hillary Clinton é a última oportunidade para travar a erosão da ordem internacional que sai destes oito anos do presidente Obama em mau estado. Em mau estado: a multiplicação dos conflitos. E a guerra civil na Síria não é o menor dos conflitos. Estamos a falar de uma guerra que dura desde 2011, estamos a falar de 400 mil mortos, de milhões de refugiados.

O que está a dizer é que, mesmo que Hillary ganhe, ela nunca será a continuidade de Obama?

Será uma versão mais clássica do internacionalismo liberal norte-americano, que implica uma maior intervenção.

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