Guterres: "Só traficantes e contrabandistas têm sabido gerir a crise dos refugiados"

Depois deste inverno pode acontecer o colapso do sistema europeu de asilo, receia o ex-alto-comissário da ONU para os Refugiados.

"Os ricos só se dão conta da existência dos pobres quando estes lhes entram pela casa dentro", afirmou ontem António Guterres, referindo-se ao modo "caótico" como a União Europeia descobriu e lidou com os refugiados, que no ano passado foram mais de um milhão a entrar no continente, mas que, a nível mundial, passaram na última década de 36 milhões para 60 milhões ou mais.

"Muitos são refugiados, outros são imigrantes económicos e há ainda aqueles numa zona cinzenta entre uma condição e outra, mas no total representam 0,2% da população da UE, nada comparável ao que se passa no Líbano, onde para cada três habitantes há um refugiado, o que significa que a situação era gerível", explicou o ex-alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, que ao fim de dez anos passou o testemunho ao italiano Filippo Grandi.

"Como a UE falhou, só os traficantes e os contrabandistas têm sabido gerir a crise dos refugiados", ironizou o antigo primeiro-ministro perante centenas de diplomatas portugueses reunidos no auditório do Museu do Oriente, para um Seminário Diplomático onde também marcaram presença vários embaixadores acreditados em Lisboa, como os da Alemanha e da Polónia.

Guterres advertiu que sim, muitos refugiados vêm da Síria, mas que numa ida à ilha grega de Lesbos percebeu que "só numa semana tinham por lá passado 80 nacionalidades". E alertou que a vaga vai continuar, temendo que depois de passar o inverno "colapse o sistema europeu de asilo". Sem poupar críticas aos países da UE, que sem uma política comum se limitaram a "deixar passar" e agora "querem impor cada um medidas mais duras do que o vizinho", o antigo governante português lembrou que há regras para gerir refugiados: "Acolhimento, registo, controlo de segurança, redistribuição."

Com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, ao lado, e notando que esta palestra era a sua primeira atividade pública "após regressar à vida normal", Guterres, de 66 anos, lembrou que o mundo é hoje muito mais imprevisível do que quando começou a sua carreira política: "Era o tempo da Guerra Fria, perigoso, mas quando um conflito ameaçava ficar fora de controlo as duas superpotências agiam." É também, acrescentou, um mundo muito mais imprevisível do que aquele que encontrou como primeiro-ministro (1995-2002), pois "na época vivia-se a hegemonia americana". E recordou o processo que levou à independência de Timor, com Bill Clinton a ser convencido e depois tudo a acontecer, como devem ter concordado nas primeiras filas o embaixador António Monteiro, então representante na ONU, e a hoje eurodeputada Ana Gomes, que foi nossa embaixadora na Indonésia.

Falando de novos e velhos conflitos, Guterres defendeu "a diplomacia para a paz" e, referindo-se à Síria, sublinhou estar na hora de aqueles que apoiem as várias fações perceberem que têm agora mais a perder do que a ganhar com essa guerra.

O homem que nos últimos anos deu nas vistas a visitar campos de refugiados com Angelina Jolie, atriz e enviada especial do ACNUR, aproveitou para dizer, à margem do seminário, que não tenciona voltar a vida política ativa em Portugal. Sobre a eventual candidatura a secretário-geral da ONU também nada de novo.

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