Guru de Bolsonaro ameaça derrubar governo se não for ajudado a pagar dívida a Caetano Veloso

Tribunal decidiu que Olavo de Carvalho tem de pagar cerca de 500 mil euros ao cantor. Sem dinheiro, o filósofo exige ação do presidente, a quem chama de "cobarde", e dinheiro dos empresários próximos do Palácio do Planalto. Estes, à exceção de um, ignoraram-no

Olavo de Carvalho, o guru de Jair Bolsonaro e dos seus filhos, chamou o presidente do Brasil de "cobarde" e ameaçou "derrubar essa m**** de governo". Por trás do ataque do filósofo e astrólogo radicado em Richmond, nos Estados Unidos, está a exigência de uma ajuda financeira para fazer face aos processos de que é alvo, nomeadamente um movido pelo músico Caetano Veloso que lhe pode custar 2,8 milhões de reais [cerca de 500 mil euros].

"O que ele [Bolsonaro] fez para me defender? Bosta nenhuma", disse Olavo, 73 anos, em vídeo na internet.

"Chega lá e me dá uma condecoraçãozinha. Enfia a condecoração no c*. Se você não é capaz de me defender contra essa gente toda eu não quero a sua amizade. Porque eu fui seu amigo, mas você nunca foi meu amigo. Você foi tão meu amigo quanto a Peppa [presume-se que seja uma alusão à alcunha da ex-bolsonarista Joice Hasselmann]. Você só tira proveito e devolve o quê?".

"Outra coisa, você não está agindo contra os bandidos[sem especificar de quem se trata], você vê o crime, eles cometem os crimes, você presencia em flagrante e não faz nada contra eles. Isso chama-se prevaricação. Quer levar um processo de prevaricação da minha parte? Esse pessoal não consegue derrubar o seu governo? Eu derrubo. Continue inativo, continue covarde, eu derrubo essa m**** desse seu governo".

Além dos três filhos de Bolsonaro, ministros do governo, como Ernesto Araújo, das relações exteriores, ou Abraham Weintraub, da educação, foram indicados por Olavo de Carvalho, assim como assessores especiais do Planalto e, estima-se, cerca de mais três dezenas de membros do executivo.

"Nunca houve contra um cidadão particular um massacre jornalístico e judicial deste tamanho! Nunca aconteceu, meu Deus do Céu! Nem contra líderes revolucionários. Nem contra narcotraficantes. E os meus pretensos amigos? Nem para anotar! Nem para contar a história. Aí me mandam: "Mas nós o amamos..." Vai amar a p*** que o pariu, rapaz!" Que é que é isto? Pega os seus bons votos e enfia no c*. Vocês não têm vergonha? Eu não tenho amigos, não! Eu tenho dois ou três, que, por enquanto, estão me ajudando", continua o autor de livros e de cursos de filosofia online.

"Então você [Bolsonaro] quer me ajudar? O que é que tem de fazer? Você [Bolsonaro] quer me ajudar? Poderia ter processado esses filhos da p*** dez anos atrás. Esperou que eles me processassem. Agora decidiram agir. Tardiamente, tarde. Para fazer o serviço tarde e porcamente. Mas querem fazer alguma coisa? Vocês têm de se juntar entre si. Vocês têm de começar a pesquisar os crimes que foram cometidos contra mim. Eu não tenho condição de fazer isso. Eu estou dizendo para você. Eu não tenho nem visão para ficar catando essas coisas na internet. (...) Não tenho sequer uma secretária, gente! Agora o presidente não tem assessores para fazer isso? Quantos crimes..."

Entre outros processos, Olavo foi condenado por não cumprir a decisão judicial de retirar das redes sociais alusões a alegada pedofilia de Caetano - em causa o início do namoro do cantor, então com 40 anos, com a atriz e produtora musical Paula Lavigne, na época com 13. A multa diária atingiu agora os 2,8 milhões.

Noutro ponto do vídeo, o guru da nova extrema-direita brasileira queixa-se de não ser apoiado por Luciano Hang, dono da rede de lojas de departamento Havan, um dos empresários mais próximos de Bolsonaro e um dos alvos de operação de busca da polícia federal há duas semanas no âmbito do inquérito das fake news.

"Você pensa, assim, que o pessoal olavista, os meus admiradores e seguidores, valem um pouco mais [do que os militares]? Não, não valem. Porque só o que têm feito é financiar a sua [de Bolsonaro] campanha. Chega aí o seu Luciano da Havan, vem aqui me visitar: 'Não, eu vou ajudar você, não sei o quê...' O quê? Esse homem acabou de gastar 258 milhões de reais [perto de 45 milhões de euros] para comprar um aviãozinho. Quantos advogados esse cara pagou para mim? Nenhum! Nunca fez nada! Uma vez, a única coisa que sugeri que ele poderia fazer, eu disse: 'Olha, se eu tiver um programa de televisão, eu vou ajudar muito. Eu posso fazer alguma coisa que os outros não podem'. Daí ele: 'Ah, nós estamos fazendo um programa, talvez nós demos uns 10 minutos para você lá no programa.' 'Tá brincando? Esse cara não tem ideia do que eu sou. Não tem por quê? Porque não tem cultura. Não leu livros. São todos assim, meu Deus do Céu"!"

E reforça noutro vídeo: "Esse senhor da Havan. Vem aqui: 'Ah, vou ajudar você!' Vai ajudar o c******! Você vai comprar aviãozinho e se vestir de Zé Carioca [Luciano Hang costuma vestir-se de verde] porque você é um palhaço. É isso o que você é. Eles têm roda razão. É por causa de empresários como você que o Brasil está nessa m****. Gente que não tem cultura e não gosta de quem tem. Bando de invejosos, filhos da ****!".

Apesar de insultado, o dono da Havan decidiu pedir ajuda a um grupo de empresários, através de Whatsapp, sob o argumento de que o filósofo deve continuar "lutando pelo Brasil". "Temos que ajudá-lo financeiramente. Está chateado, precisa de mais ajuda para continuar lutando pelo Brasil", escreveu Luciano Hang, em mensagem enviada aos empresários, citado pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Ainda de acordo com o jornal, no entanto, o apelo não surtiu efeito. "Pede para ele vir para o Brasil, então. De longe, é fácil", disse um empresário. "Deve estar ficando louco", acrescentou outro. "Ele vive de criar polémica. Em cada uma criada, ele consegue vender cursos online para incautos. Vejo como má fé", afirmou um terceiro.

Ao jornal Folha de S. Paulo, Hang negou que tivesse pedido dinheiro aos outros empresários bolsonaristas, apenas sugerido que se inscrevessem nos cursos online de filosofia de Olavo e que advogados defendessem o filósofo gratuitamente.

"Não conheço o Olavo de Carvalho. Nunca vi nem tive contato", disse Washington Cinel, um desses empresários. "Não participo do dia a dia da política", respondeu Sebastião Bomfim, outro industrial próximo do presidente.

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