Guatemala elege humorista sem experiência política

Evangélico Jimmy Morales, de 46 anos, venceu a ex-primeira dama Sandra Torres

"Não sou corrupto, não sou ladrão." Foi com este slogan que o humorista Jimmy Morales, de 46 anos e sem qualquer experiência política, conseguiu convencer os eleitores da Guatemala a elegerem-no como próximo presidente, no meio de uma série de escândalos de corrupção que afetam os políticos tradicionais. O candidato da Frente de Convergência Nacional, conservador e evangélico, conseguiu nas eleições de domingo a melhor votação de sempre numa segunda volta (68,5%), derrotando a ex-primeira dama Sandra Torres (31,5%).

A falta de experiência política de Morales foi o trunfo para a vitória, num país onde o ex-presidente Otto Pérez Molina está preso, acusado de fraude aduaneira, num golpe que envolvia também a vice-presidente e outros altos cargos do governo. Os escândalos de corrupção, que atingem também políticos da oposição, foram investigados pela Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala, criada com o apoio das Nações Unidas.

"Foi um voto corajoso, um voto de esperança, um voto que tem claro que é preciso acabar com a corrupção e lanço um apelo a todos para que construir essa realidade", indicou Morales. O futuro presidente comprometeu-se a apoiar os trabalhos da Comissão durante o seu mandato de quatro anos, tendo defendido mesmo que esta deve continuar a atuar na Guatemala para lá dessa data, até 2022. "Estou consciente que o desafio é enorme, mas não poderá ser maior do que a vontade de um povo que está disposto a mudar", escreveu Morales na sua página de Facebook antes de serem conhecidos os resultados oficiais. "O caminho está só a começar", acrescentou.

Estou consciente que o desafio é enorme, mas não poderá ser maior do que a vontade de um povo que está disposto a mudar

"Reconhecemos o triunfo de Morales e desejamos-lho sucesso pelo bem da Guatemala", indicou Torres, que se separou em 2011 do ex-presidente Álvaro Colom para poder ser candidata à sua sucessão - a constituição do país proíbe que familiares do chefe de estado possam concorrer a cargos públicos.

Candidato antissistema, Morales foi eleito com um programa de governo de apenas seis páginas. Entre as suas propostas excêntricas está a de usar o GPS para garantir que os professores estão nas aulas e cumprem o calendário escolar. E também retomar uma antiga disputa territorial com o Belize, com a Guatemala a reclamar como seu quase metade do território desta antiga colónia britânica.

Quanto à promessa de revitalizar a maior economia da América Central, cujas décadas de crescimento económico não foram suficientes para acabar com as desigualdades sociais e pobreza, Morales não revelou como a pretende cumprir. Certo é que terá dificuldades no Parlamento, porque apesar de o candidato presidencial ter ganho a primeira volta de 6 de setembro, o seu partido só conseguiu nas legislativas eleger 11 dos 158 deputados.

Da televisão para o poder

Nascido num meio pobre na Cidade da Guatemala, o evangélico Morales vendia bananas no mercado quando era jovem, tendo conseguido entrar para a universidade, onde se formou em Administração de Empresas e Teologia. Mais tarde, deu aulas na Universidade de San Carlos de Guatemala.

Mas foi graças à sua faceta de ator e comediante que se tornou famoso junto dos guatemaltecos. Na televisão, manteve por mais de 15 anos, com o irmão Sammy, o programa Moralejas, que também é o nome da sua produtora. No cinema, produziu e participou em sete filmes, como a comédia Un presidente de a sombrero, no qual deu vida a Neto, um cowboy que chegava a presidente.

Durante 20 anos fiz rir os guatemaltecos, agora promete que se chegar a presidente não os farei chorar

"Durante 20 anos fiz rir os guatemaltecos, agora prometo que se chegar a presidente não os farei chorar", declarou durante a campanha. Casado e pai de quatro filhos, Morales assume-se como um homem de fé, que tem na mãe a sua maior inspiração e sonha "ser o melhor presidente da história". É contra o aborto e o casamento homossexual, apesar de "respeitar as liberdades individuais", e garante que "a Guatemala ainda não está no momento de discutir" a liberalização das drogas. Sobre a pena de morte, legal no país, disse: "Está a ser aplicada e os linchamentos são prova disso. Mas se se vai aplicá-la que seja no âmbito de um processo judicial."

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