Governo minoritário na Alemanha seria “um mal menor”

Economistas ouvidos pelo DN afirmam ser preciso uma solução rapidamente, mas afastam consequências negativas para o país.

Um governo minoritário, uma “grande coligação” com o SPD de Martin Schulz ou eleições antecipadas. A Alemanha terá de optar por um destes caminhos mas a viagem na busca de uma solução não deverá terminar antes do fim do ano. A Jamaica ficou longe, depois dos liberais do FDP terem abandonado o barco. Um cenário previsível, na opinião de Ansgar Belke, já que as “posições dos partidos envolvidos (CDU, Verdes e Liberais) sempre foram muito diferentes”. Para o professor catedrático em macroeconomia, não há uma solução ideal, mas uma boa alternativa seria se “o SPD tolerasse um governo minoritário formado pelo partido de Angela Merkel e os Verdes. Nesse cenário, os sociais-democratas poderiam manter o compromisso assumido por Martin Schulz depois das eleições e cumprir o papel de oposição”.

O diretor do Instituto de Estudos Económicos e de Gestão da Universidade de Duisburg-Essen recorda a tradição escandinava de governos minoritários lembrando que “funcionaram bastante bem em termos de impacto económico, apesar de ser mais difícil levar a cabo medidas a longo prazo”. Em comparação com as alternativas, sublinha, “este seria um mal menor”. É claro que uma avaliação só poderia ser feita depois de tomadas as primeiras ações mas, para Clemens Fuest, a Alemanha “devia tentar um governo minoritário, a maior dificuldade de uma grande coligação (CDU e SPD) é que os partidos de extrema-esquerda e extrema-direita ganhariam mais poder, o partido populista AfD (Alternativa para a Alemanha) seria a principal oposição e não é disso que precisamos”. O presidente do Instituto Ifo de investigação económica e diretor do Centro de Estudos Económicos da Universidade de Munique confia que esta solução pode trazer “mais debate no Parlamento”. Com uma coligação, isso não acontece porque “a maioria das decisões são tomadas dentro dos partidos que a formam”. Menos medidas avançariam porque “é mais difícil conseguir consensos para tomar decisões mas não é necessariamente mau, com uma coligação possivelmente seria gasto muito mais dinheiro em coisas desnecessárias, e seriam as futuras gerações a pagar o preço”. Seja qual for a saída encontrada, Fuest acredita que não terá impacto na economia portuguesa ou de outros países europeus: “Com um governo minoritário, acho que a Alemanha poderá estar um pouco limitada nas cimeiras europeias, porque deve consultar os outros partidos antes de se comprometer, fora isso, não vejo que afete os restantes países.”

Para Ansgar Belke, o impacto pode sentir-se agora, durante o impasse político, “a Alemanha está a perder a voz e o poder de muitas decisões está a passar para França”. O economista explica que este vazio governamental “é uma clara desvantagem estratégica, nomeadamente na perda de influência nas decisões pós-brexit e dá ao presidente Emmanuel Macron um primeiro impulso e uma vantagem decisória da agenda”. O investigador associado no Centro de Estudos de Políticas Europeias em Bruxelas realça que há questões de resolução urgente como a etapa final da União Bancária ou as políticas de asilo na UE. Belke remata dizendo que “a UE precisa de uma França e Alemanha fortes e ambas estão dependentes de uma UE forte”. Para Fuest, “havia expectativas de levar a cabo grandes reformas na zona euro na primeira metade de 2018 e agora, com as negociações, vai ser mais difícil, tudo vai atrasar”. Para o presidente do Instituto de Investigação Económica alemão (Ifo), “talvez as expectativas fossem demasiado elevadas”.

Os dois economistas acreditam que a situação de impasse não vai travar o crescimento económico da Alemanha, dando o exemplo da Holanda ou mesmo de Espanha. Ansgar Belke vai mais longe, recordando a transição governamental entre Gerhard Schröder e Angela Merkel, que demorou cinco meses, ou o caso Belga “em que em 2010 foram precisos 589 dias para a formação de um governo, durante esse período a economia do país cresceu mais do que a média europeia”. Apesar da incerteza, são “países que demonstram capacidade de crescimento” independentemente do ciclo político. Ainda assim, para o professor catedrático em economia, tudo depende do tempo de vazio governativo, “o período de incerteza política pode gerar um impacto negativo no investimento, proporcional ao tempo que durar essa incerteza (…) apesar de a economia alemã ter uma margem de resistência de curto e até médio prazo a choques de incerteza política”.

Berlim

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