"Fui violada 43 200 vezes"

O testemunho de uma vítima de tráfico humano que tenta impedir que outros passem pelo mesmo

Karla Jacinto foi violada cerca de 43 200 vezes. Para chegar a este número, ela apenas teve de fazer contas. Dos 12 aos 16 anos, a jovem mexicana foi obrigada a prostituir-se e por isso atendia 30 homens por dias, sete dias por semana.

Agora, com 24 anos, Karla tornou-se uma das vozes contra o tráfico humano e conta a sua história para ajudar outras vítimas.

Karla tinha 12 anos quando conheceu o seu "príncipe encantado". "Ele amava-me, comprou-me roupa, dava-me atenção, comprou-me sapatos, flores, chocolates. Tudo era bonito", contou a jovem à CNN. "Ele disse-me: 'tu vais ser a minha princesa'".

"Eu vinha de uma família disfuncional e era abusada sexualmente e maltratada por um parente desde os cinco anos", explicou. A decisão de fugir de casa com ele, apesar de ele ser 10 anos mais velha, não foi difícil de tomar, principalmente quando ele disse que tinha sido abusado tal como ela.

Tinha de fechar os olhos para não ver o que eles me faziam, para não sentir

A partir daí, a sua vida mudou completamente. O jovem de 22 anos levou Karla para a cidade de Guadalajara e obrigou-a a prostituir-se. Na primeira semana, "começava às 10 da manhã e acabava à meia-noite" e atendia "20 homens por dia", contou Karla.

Depois de Guadalajara, Karla foi obrigada a viajar para outras cidades mexicanas e a trabalhar em bordéis, motéis e nas ruas. Em poucos dias, o número de clientes por dia aumentou para 30.

"Alguns homens riam-se quando eu chorava. Tinha de fechar os olhos para não ver o que eles me faziam, para não sentir", contou Karla.

O homem que levou Karla para o mundo da prostituição trabalhava para uma rede de tráfico humano de Tanancingo. Esta cidade é tida como o maior centro de tráfico humano do México e é um dos locais para onde as raparigas de todo o país são levadas antes de serem obrigadas a trabalhar nas ruas.

Alguns dos clientes de Karla eram juízes, padres, pastores e polícias

O negócio é tão lucrativo que conta com o apoio de membros das autoridades. Karla lembra-se do dia em que o bordel onde estava a trabalhar foi invadido por polícias de uniforme. Em vez de soltarem as raparigas, os agentes filmaram-nas em posições pornográficas e ameaçaram mostrar os vídeos às famílias se elas não obedecessem.

"Eles eram nojentos. Eles sabiam que nós éramos menores de idade", contou a jovem. "Havia meninas de 10 anos e meninas que estavam a chorar".

Alguns dos clientes de Karla eram juízes, padres, pastores e polícias, e por isso a jovem não sabia a quem pedir ajuda, contou a ativista mexicana pelos direitos humanos Rosie Orozco.

Aos 15 anos, Karla deu à luz uma menina, filha do traficante. O homem usava a criança para ameaçar a mãe, dizendo que iria matar a filha. Karla foi proibida de ver a filha quando esta tinha apenas um mês.

O pesadelo da jovem apenas acabou em 2008, quando uma operação policial contra o tráfico humano na Cidade do México a libertou da quadrilha. Tinha 16 anos e desde então, tem contado a sua história para chamar a atenção para o problema do tráfico humano, que afeta milhões de pessoas em todo o mundo.

Karla já discursou em várias conferências e no passado partilhou a sua história no Congresso norte-americano e esteve com o Papa Francisco, no Vaticano.

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