Folha de São Paulo quintuplica assinaturas após boicote de Bolsonaro

Presidente proíbe órgãos do governo de assinar o Folha de S. Paulo e decide boicotar produtos dos seus anunciantes. Em causa, notícias que lhe desagradaram. O efeito comercial imediato, no entanto, é o aumento exponencial do número de assinantes, garante o diretor da publicação.

"Eu não quero ler a Folha mais. E ponto final. E nenhum ministro meu. Recomendo a todo o Brasil que não compre o jornal Folha de S. Paulo (...) qualquer produto que anuncie lá eu não compro aquele produto. E ponto final", disse Jair Bolsonaro, na sexta-feira sobre o ​​​​​​Folha de Paulo, maior jornal do Brasil, confirmando a ameaça feita há um mês de cancelar a assinatura da publicação em todos os órgãos do governo.

Questionado pelo DN sobre os efeitos desse boicote, o diretor de redação do jornalgarantiu que tanto nesta como noutras ocasiões em que o jornal foi atacado por Bolsonaro as assinaturas cresceram de forma exponencial. "A cada vez que o presidente Jair Bolsonaro ataca a Folha mais diretamente, o jornal experimenta um aumento nas vendas das suas assinaturas digitais", disse Sérgio Dávila. "Na última vez em que isso havia acontecido, quando o presidente anunciou que cancelaria todas as assinaturas que o governo tem do Folha, naquele dia e nos dias imediatamente posteriores, o ritmo de novas assinaturas do jornal cresceu de cinco a dez vezes", prosseguiu.

Em editorial sob o título 'fantasia de imperador", o jornal acusa Bolsonaro de de mostrar "incapaz de compreender a impessoalidade da administração republicana".

Os ataques do Planalto à imprensa não se resumem àquele caso. Naquele mesma semana de outubro, Bolsonaro publicara um vídeo nas redes sociais, a sua forma de interação preferida com o público, em que era representado por um leão, enquanto veículos como a Folha, o jornal O Estado de S. Paulo, a revista Veja e a Rede Globo apareciam ilustrados como hienas. E, dias antes, causara espanto não só no Brasil como no mundo um ataque seu, muito exaltado, a esta última emissora - "patifaria", "canalhice", gritou. Na sequência, em tom de ameaça, disse que em 2022 iria rever a concessão à Globo, a histórica líder de audiências televisivas no Brasil.

Bolsonaro, entretanto, tem concedido entrevistas exclusivas à TV Bandeirantes, à TV Record, propriedade do bispo Edir Macedo, seu apoiante declarado, e ao SBT, cujo dono Sílvio Santos também já expressou simpatia pelo seu governo.

O Folha, por outro lado, já havia sido chamado de "panfleto ordinário" e "jornaleco capaz de descer às profundezas do esgoto" em nome "das causas dos canalhas" pelo chefe de estado numa ocasião em que chamara ainda de "patifaria" uma notícia do Correio Braziliense e acusara o jornal O Globo de propagar notícias falsas.

O jornal Folha de S.Paulo foi também um dos principais visados por apoiantes dos governos do PT

A Folha e a Rede Globo, entretanto, foram ameaçados de cortes publicitários estatais por Bolsonaro, que retirou a obrigatoriedade da publicação de balanços de empresas em jornais impressos na tentativa de os asfixiar.

Depois de Bolsonaro dizer não entender por que as empresas que continuavam a anunciar no jornal paulistano, o chefe da secretaria da comunicação social do Planalto, Fabio Wajngarten, sublinhou nas redes sociais o aviso do presidente: "Que os anunciantes que fazem a media técnica tenham consciência de analisar cada um dos veículos de comunicação para não se associarem a eles preservando suas marcas".

É a Wajngarten que compete a divisão de verbas publicitárias governamentais pelos media, mas não as das empresas privadas.

Ao DN, Sérgio Dávila reitera que "a Folha não faz oposição ao governo Jair Bolsonaro, como não faz oposição a governo algum". "Os princípios editoriais são claros: jornalismo crítico, independente, pluralista e apartidário. O que fazemos, sim, e vimos fazendo já há 98 anos, é cobertura crítica a qualquer governo". Recorda a direção do jornal que é alvo de críticas de presidentes já desde os governos de Getúlio Vargas, nos anos 30, 40 e 50 do século passado.

O jornal Folha de S.Paulo foi um dos principais visados por apoiantes dos governos do PT, que, além de o apelidarem de Falha de S. Paulo, criticavam a posição conivente do jornal com o golpe militar de 1964. Por outro lado, o slogan "o povo não é bobo, abaixo a Globo", foi usado por eleitores de Lula da Silva, sobretudo a partir de um debate entre o então candidato e Collor de Mello, em 1989, ter sido editado pela emissora, e é agora repetido por adeptos de Bolsonaro.

Nunca, no entanto, o ataque aos media tradicionais foi tão violento como no atual governo, eleito após uma campanha em que usou propaganda nas redes sociais e nos aplicativos de telemóvel extremamente eficiente para suprir o tempo de antena reduzido na televisão.

"A cada vez que o presidente Jair Bolsonaro ataca a Folha mais diretamente, o jornal experimenta um aumento nas vendas das suas assinaturas digitais", diz ao DN o diretor da publicação, Sérgio Dávila

Entre as notícias que vêm incomodando Bolsonaro está uma reportagem do Folha sobre um depoimento e um registo na posse da polícia federal que sugerem que um escândalo de corrupção no diretório de Minas Gerais do PSL, seu partido na época, serviu não apenas para desviar dinheiro para as campanhas eleitorais daquele estado, como foi noticiado inicialmente em fevereiro, mas também para abastecer a campanha do presidente no ano passado.

Marcelo Álvaro Antônio, presidente do diretório do PSL de Minas Gerais e atual ministro do Turismo, fora denunciado dias antes pelo Ministério Público por "apropriação indébita eleitoral", "falsidade ideológica" e "associação criminosa". Antônio, que se diz vítima de "difamação", teria desviado dinheiro do fundo eleitoral destinado a três candidatas fantasma para empresas ligadas a membros do seu gabinete.

No início do escândalo, um dos ministros mais próximos de Bolsonaro e presidente do PSL à data dos factos, Gustavo Bebianno, acabaria por se demitir.

Bolsonaro irritou-se com a publicação também a propósito de uma notícia dando conta que um membro do seu gabinete em Brasília, pago pelo erário público, afinal vendia fruta numa praia do Rio de Janeiro.

O jornal O Estado de S. Paulo, por sua vez, está na mira do governo por ter revelado o escândalo de corrupção e organização criminosa em torno do gabinete do senador Flávio Bolsonaro, ainda enquanto vereador do Rio.

E a Rede Globo por ter noticiado que um porteiro do condomínio onde moram Bolsonaro, um dos filhos dele e o autor material, segundo a polícia, dos disparos que executaram Marielle Franco, havia afirmado em depoimento que o outro autor material entrou no local no dia do crime por ordem "do seu Jair".

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