Filho favorito do rei quer libertar Arábia da ditadura do petróleo

Mohammad bin Salman tem um plano para revolucionar a economia do país. Ser o vice-príncipe herdeiro ajuda, mas aumentar impostos e cortar subsídios pode gerar contestação.

A Arábia Saudita está assim tão em crise que precise de um plano revolucionário que liberte a sua economia da dependência do petróleo, como prometeu há dias o príncipe Mohammad bin Salman, o segundo na linha de sucessão?

Se pensarmos que a economia do reino cresceu no ano passado 2,8% e o Banco Mundial prevê para o corrente ano 2,4% a resposta é não. Mas a realidade é mais complexa, basta dizer que o défice orçamental em 2015 foi de cem mil milhões de dólares e que pela primeira vez desde 1991 o país fez um empréstimo à banca internacional, na ordem dos dez mil milhões de dólares a serem reembolsados em cinco anos. A explicação para a necessidade do líder da OPEP de repensar a estratégia económica é, claro, a queda abrupta do preço do petróleo, com o barril a passar de cem dólares há dois anos para 40 dólares hoje. Os lucros petrolíferos chegaram a valer em alguns anos 90% do Orçamento.

Quais são as principais medidas do plano intitulado Visão Saudita 2030?

Como o próprio nome do plano indica, 2030 é a data-limite para tornar a Arábia Saudita livre da ditadura do preço do petróleo. Mas Mohammad bin Salman foi tão otimista na sua comunicação televisiva ao país (sob a forma de uma entrevista pré-gravada) que disse esperar já resultados visíveis em 2020. Assim, além da óbvia diversificação da economia, haverá privatização de empresas estatais - incluindo parte da petrolífera Aramco -, aumento dos impostos e cortes nos generosos subsídios dados à população, uns 30 milhões de pessoas.

Sobretudo a privatização parcial da Aramco, mesmo mínima, renderá uma fortuna?

Sim, a ponto de se calcular que esse dinheiro, somado a outros bens do Estado e os atuais 600 mil milhões em ativos, possa permitir criar um fundo de investimento dotado de dois biliões de dólares (os fabulosos trillion anglo-saxónicos), o mais rico do mundo.

Porque foi este príncipe a anunciar as mudanças?

Bem, já se percebeu que o rei Salman, de 80 anos, deposita grandes esperanças no seu filho favorito, a ponto de o ter como segundo na linha de sucessão, ministro da Defesa e chefe do programa de desenvolvimento económico. Com apenas 30 anos, Mohammad bin Salman goza de grande prestígio junto dos sauditas, um povo de jovens talvez cansado de ser governado por uma gerontocracia. É preciso notar que, depois da morte do fundador do reino, a coroa tem passado sempre de um filho de Abdelaziz ibn Saud para outro, cada vez mais velhos, como exemplifica Salman ter herdado o trono em janeiro de 2015, aos 79 anos, depois da morte do irmão Abdullah, que tinha 90. E Abdullah sucedera em 2005 a Fahd, que morreu com 84 anos.

Mas, se Mohammad bin Salman não é o príncipe herdeiro, quem é então?

O príncipe herdeiro é Mohammad bin Nayef, um sobrinho do rei e portanto já da geração de netos do fundador. Tem 57 anos. O filho do monarca é o vice-príncipe herdeiro. Eventuais alterações a esta ordem seriam complicadas, até porque a família Saud, que dá nome ao país, deve a estabilidade do seu poder à capacidade para se mostrar unida.

Como foi que Ibn Saud fundou a Arábia Saudita?

A família Saud dominou nos últimos séculos parcelas variáveis da Península Arábica. E, com o fim da Primeira Guerra Mundial, Ibn Saud aproveitou a derrocada do Império Otomano e a fragilidade do xerife de Meca para somar ao Nedj o Hedjaz, a província onde ficam as cidades santas do islão. Para a sua vitória militar contou com o apoio de uma confraria religiosa, defensora do wahabitismo, uma versão ultrarrigorosa do islão. E, em 1932, unificou as suas possessões sob o nome de Arábia Saudita, um país de 2,2 milhões de km2, o maior do Médio Oriente. Nessa mesma década, a descoberta de jazidas de petróleo leva à criação da Aramco (Arabian American Oil Company) em parceria com os Estados Unidos, dando origem a uma aliança militar que resistiu à nacionalização da empresa.

Tem-se notado alguma fricção entre sauditas e americanos e a recente visita de Barack Obama ao reino não ajudou muito a melhorar as relações, pois não?

Houve mesmo quem notasse que o rei Salman não foi ao aeroporto receber o presidente americano. Por um lado, os Estados Unidos dependem cada vez menos do petróleo da Arábia Saudita (até se tornaram um produtor concorrente graças ao petróleo de xisto) e por isso são mais críticos em relação à situação dos direitos humanos e ao apoio do reino a grupos islamitas que muitas vezes se viram contra até os próprios patronos. Por outro lado, a Arábia Saudita vê com desagrado o acordo nuclear com o Irão, tradicional rival com o qual trava várias guerras por procuração, da Síria ao Iémen.

O futuro presidente dos Estados Unidos, eleito em novembro, poderá ser menos crítico do que Obama?

Se for o republicano Donald Trump, a imprevisibilidade é total, mas o discurso islamofóbico não augura nada de bom. Talvez se a democrata Hillary Clinton conquistar a Casa Branca a relação beneficie do pragmatismo da ex-secretária de Estado. Também complicado é o cenário, em discussão no Senado, de divulgação de informação sobre uma eventual ligação entre os atentados de 11 de setembro de 2001 contra Nova Iorque e o reino. Como Osama bin Laden e grande número de terroristas envolvidos eram sauditas, o país é ameaçado por famílias de vítimas com processos. Bizarramente, uma das razões da radicalização de Bin Laden, que foi destituído da nacionalidade saudita, foi a presença de tropas americanas no reino em 1990 e 1991 para, na sequência da invasão do Koweit pelo Iraque, travarem qualquer nova progressão do exército às ordens de Saddam Hussein.

Pode-se recear reações negativas da população ao plano de modernização?

O fim dos subsídios vai de certeza desagradar a muita gente. E, apesar da mão de ferro policial, não é impossível que focos de revolta aconteçam. Mas também se nota da parte da juventude um desejo de mudança, que o vice-príncipe herdeiro pode materializar. Por exemplo, o objetivo de trazer mais mulheres para o mercado de trabalho talvez resulte na autorização destas para conduzir.

Há áreas óbvias onde a Arábia Saudita tem potencial económico além do petróleo?

Sim. O turismo, sobretudo religioso, pois Meca e Medina são sagradas para mais de mil milhões de muçulmanos; a indústria militar, pois os sauditas são os maiores importadores de armas e têm interesse em fabricar parte delas; e as minas. Mas o fundo de investimento será o maior trunfo para as futuras gerações de sauditas.

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