Figura de Franco dilui-se nos 40 anos da sua morte

Para os jovens, daquele tempo só restam relatos da família.

Cumprem-se hoje 40 anos da morte do general Franco. O seu desaparecimento pôs fim a uma ditadura de 36 anos em Espanha depois de outros três de guerra civil. Para os jovens de hoje, filhos da democracia, a figura de Franco esfuma-se, perde peso na história. Todos sabem quem foi mas é parte do passado e não encontram rasto dele no seu presente, só nas lembranças dos seus familiares.

Quatro décadas depois há mais espanhóis que não conviveram com o ditador do que aqueles que o fizeram. Atualmente mais de 22 milhões de espanhóis têm menos de 40 anos e outros 7,5 milhões tinham menos de 9 anos quando Franco morreu. Os 17 milhões restantes, com certeza se recordam dele.

Laura López nasceu em junho de 1975, cinco meses antes da morte de Franco. Sabe que essa data representa "um antes e um depois na história de Espanha, acabou uma etapa escura do país e foi o início do caminho para a democracia". Na sua cabeça conserva a imagem do ditador como "um velhote" e sabe que com ele "muitas pessoas não tinham liberdade e para outros as coisas correram muito bem". O balanço que faz Laura da ditadura é "negativo" mas sublinha que para ela é algo que está longe. Mas há uma coisa em pensa que o ditador atuou bem, "Franco permitiu que voltasse a monarquia". A sua irmã Elena, dois anos mais nova, sempre ouviu dizer que "temos boas barragens por causa de Franco", diz entre risos. "Ainda encontramos pessoas a dizer que vivíamos melhor nos tempos de Franco, tento pensar que dizem isso porque não sofreram a repressão", sublinha. Elena pensa que, como todas as personagens da história, o Caudilho "fez coisas boas e más" mas a falta de liberdade em muitas áreas "só pode ser censurada".

Alba Sánchez tem 24 anos e ouve falar muito de Franco aos avós. "Eles são de outra geração, mais de direita, mais radicais nos temas políticos e sociais", afirma a jovem. Acredita que a sociedade espanhola passou de um extremo ao outro, "perdemos muitos valores importantes". Reconhece que o nome de Franco tem "mais conotações negativas do que positivas porque as coisas más fazem mais barulho". Critica a forma que tinha de "implantar o medo" mas pensa que também protegeu o país em alguns aspetos.

Famílias separadas

Júlia Bravo fez na sua cabeça uma ideia de Franco a partir dos relatos da família. Sabe que o avô Pedro foi separado de dois irmãos. Eles foram lutar com os rojos (esquerda) e ele ficou, obrigado, do lado dos azules (direita). No fim da guerra Pedro tinha perdido um irmão e o outro levou anos a voltar a falar com ele. A ditadura criou feridas que demoraram muito a cicatrizar. Júlia tem 17 anos e no liceu já estudou o franquismo. "O meu professor de História diz que durante a guerra, nos dois lados se fizeram coisas muito feias e que Espanha ficou muito dividida durante o franquismo. É uma herança que ainda prejudica o país", afirma. "Sinto que para a geração do meu avô alguns dos seus amigos, os poucos que ainda vivem, falar de Franco é ainda um tema tabu. O meu avô não costuma falar disso, mas sei que na ditadura passou muita fome."

Todos os entrevistados pelo DN coincidem numa coisa: as suas famílias dizem sempre que "os jovens não sabem dar valor ao que têm", afirma Alba. Os pais e avós trabalharam e lutaram muito "e é verdade que para nós as coisas têm sido mais fáceis". Elena reflete sobre a situação atual da sociedade espanhola. "Seria isto que queriam para nós as anteriores gerações?", pergunta-se. Após anos de bipartidarismo, "agora surgem novos partidos com pessoas que não viveram o franquismo e tem uma visão da realidade e da política muito diferente, como Podemos e Ciudadanos". "Isso só pode ser bom mas é pena ver que entre antigos e novos não há diálogo", diz.

Quarenta anos após o fim da ditadura, Espanha está a sair de uma grave crise, "a pior", segundo muitos economistas. O país desenvolveu-se mas jovens e velhos admitem que a sociedade ganhou em liberdade e "perdeu muitos valores". Dentro de um mês, nas legislativas, os espanhóis devem confirmar "se os protagonistas da transição e do início da democracia devem continuar ou se é hora de deixar espaço às gerações novas", lembra Júlia.

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