Facada em Bolsonaro. Dois anos de teorias da conspiração

A 6 de setembro de 2018 o presidente foi esfaqueado por um lobo solitário com problemas psíquicos. Esta é a versão, com provas, da polícia. Mas não chega num Brasil em estado de permanente ebulição política. Foi mesmo esfaqueado? Então, porque não sangrou? Quem diz que o criminoso agiu sozinho? São verdadeiros esses "problemas psíquicos"?

"Calma, Adélio!", grita alguém no meio da confusão gerada em Juiz de Fora no instante após o atentado à facada, faz este domingo dois anos, contra o então candidato às presidenciais brasileiras Jair Bolsonaro. Eis a prova de que Adélio Bispo de Oliveira, o autor do crime, não agiu sozinho.

Pelo menos, é o que garante o próprio Jair Bolsonaro, que no dia 2 de maio publicou um vídeo com essa teoria no Twitter, sob a legenda em forma de questão "os mandantes estão em Brasília?".

A teoria "Calma Adélio" foi difundida um ano antes do presidente da República do Brasil a partilhar - e com isso alcançar quase um milhão de pessoas - por um anónimo que se denomina "técnico de informática".

A voz do vídeo reproduzido é de um apoiante de Bolsonaro que depôs à polícia, negou conhecer Adélio e rejeita a tese de que o agressor agiu com o conhecimento de mais alguém. Mais: a perícia policial às imagens revelou que em vez de "calma Adélio", o homem diz "calma velho", por causa de todo o tumulto.

O motivo pelo qual o presidente resolveu partilhar o vídeo era político: visava atingir o ex-ministro da justiça Sérgio Moro que se demitira dias antes e se preparava para depor à polícia contra si. Tanto que, depois de perguntar "os mandantes estão em Brasília?", Bolsonaro interroga "o Judas que hoje deporá agiu para que não se interferisse?".

"Calma Adélio", entretanto, é apenas uma de dezenas de teorias da conspiração surgidas desde aquela facada, considerada decisiva para o rumo das eleições de 2018.

Lula e o sangue

E por ser considerada decisiva para o sucesso do hoje presidente, a oposição também é pródiga em teorias: "Aquela facada tem coisas muito estranhas, uma facada que não aparece sangue em nenhum momento, o cara que dá a facada é protegido pelos seguranças do Bolsonaro...", disse à emissora TVT o antigo presidente Lula da Silva, que não pôde concorrer ao sufrágio por ter sido detido por Moro mas apoiava Fernando Haddad, que terminaria em segundo lugar.

A tese da "facada forjada" foi considerada pela polícia, como todas, mas não aprofundada porque a cena do ataque foi registada por câmaras, havia vestígios do DNA de Bolsonaro na lâmina e os médicos que o atenderam confirmaram o ferimento. Segundo eles, a hemorragia, de aproximadamente dois litros de sangue, foi interna, já que a musculatura abdominal se contraiu, bloqueando vazamentos, e o corte na pele de apenas três centímetros.

Uma "sub-teoria conspiratória" de que Bolsonaro sofria cancro e forjara o ataque para ser tratado sem que se soubesse da doença em plena campanha também foi classificada como absurda.

Lula repercutiu, afinal, um dos lados da teoria da conspiração, nascida do documentário anónimo de uma hora disseminado na internet "A Facada No Mito", onde se sugere, após análise aos vídeos, que seguranças à paisana do então candidato podiam ter ajudado Adélio a arquitetar um ataque falso.

Noutra versão, esses seguranças à paisana são, pelo contrário, acusados de terem auxiliado o agressor a conceber um crime verdadeiro - alguns deles, identificados no vídeo, chegaram a ser agredidos verbalmente por bolsonaristas.

O vocalista da banda gospel "Tempero do Mundo" e ex-senador Magno Malta, que foi até convidado para vice-presidente de Bolsonaro, propagou essas acusações: "Um cidadão de camisa castanha dá um soco nele por baixo e põe a outra mão em cima do lugar furado, na hora de colocá-lo no carro, vocês podem ver as imagens, ele fecha a mão e soca na última costela", disse Malta.

Os seguranças que alimentam as teorias a favor do ataque falso ou da cumplicidade, entretanto, foram interrogados e ilibados pela polícia - eles próprios são agentes policiais.

Mortes na pensão

Outro dado intrigante não passou despercebido aos autores compulsivos de teorias: desde o ataque, duas pessoas morreram na pensão onde Adélio se hospedou em Juiz de Fora. Mas a polícia concluiu que fora a dona de pensão, vítima de cancro, e um hóspede toxicodependente, que não chegou a interagir com o agressor de Bolsonaro.

Esse não foi o único episódio a causar estranheza: no dia do crime, foi registada a presença de Adélio na Câmara dos Deputados, em Brasília, a milhares de quilómetros do local do crime. Segundo a investigação, um funcionário, por curiosidade, pesquisou o nome do agressor de Bolsonaro no sistema, e, por engano, acabou por anotar e entrada dele no edifício.

Gerou especulação também a quantidade de computadores e cartões de crédito na posse de um homem, como Adélio, inativo, depois de ter passado por 39 empregos em 20 anos. Mas dois dos aparelhos não tinham condições de uso e no terceiro não foram encontradas informações relevantes; quanto aos cartões, foram enviados automaticamente após a abertura de contas bancárias, sem movimentações estranhas, após a averiguação da polícia.

O passado de Adélio como militante do PSOL, partido mais à esquerda do Congresso Nacional brasileiro, levantou mais suspeitas. No entanto, o agressor jamais participou em reuniões partidárias na secção de Uberaba, cidade onde se inscreveu, e saiu por conta própria do partido.

Em contrapartida, era membro ativo da Igreja Missionária Resplendor da Glória de Deus, na cidade de Montes Claros, o que, dada a preferência do segmento evangélico pelo candidato Bolsonaro, também serviu para criar desconfianças.

Desconfianças ampliadas pelo facto de Adélio ter frequentado o mesmo clube de tiro, em Florianópolis, que Carlos Bolsonaro, segundo filho do presidente. Os investigadores atribuem o facto a uma coincidência e não confirmam que ambos tenham estado no local em simultâneo.

Quem paga à defesa?

Uma suposta ligação ao Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, foi suscitada e também descartada: um dos advogados de defesa de Adélio tem clientes no PCC mas sem ligação com o agressor.

Os advogados de defesa, entretanto, são mais uma peça do quebra cabeças a levantar dúvidas: quem lhes paga? "Essa é a única linha investigativa atualmente possível e faltante", dizia ainda em 2019 o chefe das investigações Rodrigo Morais, da polícia de Belo Horizonte.

A intenção da polícia de quebrar os sigilos telefónico e bancário de Zanone Oliveira, o defensor de Adélio, foi, no entanto, bloqueada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por considerar a medida inconstitucional.

O episódio motivou um ataque de Bolsonaro ao presidente da Ordem Felipe Santa Cruz, cujo pai foi dado como desaparecido durante a ditadura militar. O chefe de estado disse, enquanto cortava o cabelo em público, que foi o próprio grupo de militantes antiditadura militar, do qual Fernando Santa Cruz fazia parte no Recife, que teria executado o pai do hoje presidente da OAB.

Neste momento, o processo está nas mãos dos juízes do Tribunal Federal Regional da primeira região, por determinação do Supremo Tribunal Federal.

O que Zanone tem argumentado é que foi pago por uma pessoa da igreja evangélica que Adélio frequentava que nunca mais voltou a contactá-lo. No entanto, fontes policiais têm dito à imprensa brasileira que o mais provável é o advogado ter decidido defender o agressor de Bolsonaro em troca do apelo mediático do caso.

Posição oficial

Teorias da conspiração à parte, a polícia concluiu, depois de quebrados os sigilos bancário e telefónico do criminoso e de consultados dois mil gigabites de arquivos de fotos e vídeos, que Adélio Bispo de Oliveira, 42 anos, natural de Montes Claros, estado de Minas Gerais, terá agredido Jair Bolsonaro, no centro de Juiz de Fora, sem ajuda de ninguém, nem orientação de qualquer mandante.

Ele declara ter agido a mando de Deus e vem mantendo, mesmo detido, a intenção de voltar a atacar Bolsonaro, assim como o seu antecessor Michel Temer, por sua "ligação com a maçonaria".

O juiz Bruno Savino considerou-o inimputável, por apresentar, segundo diagnósticos de psicólogos e psiquiatras, "transtorno delirante persistente, alucinações, sensação de perseguição e desconexão com a realidade", decidindo nesse caso aplicar a chamada absolvição imprópria, figura jurídica usada quando o réu é comprovadamente autor do crime mas não pode ser responsabilizado por ele.

Adélio não admite a doença e por isso vem recusando os tratamentos na prisão de segurança máxima de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde ficará detido, pelo menos, até junho de 2022, quando terá de efetuar novos exames. Uma transferência para um hospital psiquiátrico em Juiz de Fora foi recusada por falta de vagas.

Em Campo Grande, estão presos, além de Adélio, o latifundiário Jamil Name, acusado de liderar a maior organização criminosa sul-matogrossense, e o ex-polícia Ricardo "Batman" Teixeira, líder da Liga da Justiça, uma das maiores milícias do Rio de Janeiro.

A cadeia já abrigou Juan Carlos "Chupeta" Ramírez, traficante de drogas colombiano que chegou a ser considerado o segundo homem mais perigoso do mundo pelo FBI depois de Osama Bin Laden, e Fernandinho Beira-Mar, líder histórico da organização criminosa Comando Vermelho.

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