Faca feita de fezes, beijos na boca e Trump. IgNóbeis para todos os gostos

Dá para rir, mas também dá que pensar. Apesar de autênticas loucuras, como avaliar se alguém é narcisista só de lhe olhar para as sobrancelhas, há questões sérias - como a crítica aos líderes mundiais que teimaram em fechar os olhos à covid-19

Todos os anos antes da Academia sueca atribuir os prestigiados Prémios Nobel, realiza-se a cerimónia de atribuição dos IgNobel num espaço igualmente prestigiado, a Universidade de Harvard, nos EUA. As circunstâncias pandémicas ditaram que a iniciativa satírica lançada em 1991 pela revista humorística Annals of Improbable Research decorresse à distância. Mas as experiências premiadas não deixam de ser, no mínimo, interessantes.

A saber: uma faca feita de fezes que, afinal, não funciona, as sobrancelhas que dizem quem é ou não narcisista... Para o IgNobel da Educação Médica a distinção tem contornos sérios: o prémio foi atribuído, entre outros, a Trump e a Bolsonaro por terem minimizado os riscos da covid-19. É que um dos lemas da cerimónia é precisamente "fazer primeiro as pessoas rirem e depois pensarem".

Educação Médica: líderes que desvalorizaram a pandemia

Os IgNobel atribuíram o galardão a nove líderes que desvalorizaram a covid-19 e resistiram à tomada das medidas para combater a pandemia que já infetou mais de 30 milhões de pessoas e matou mais de 957 mil em todo o mundo. Como era expectável, os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil, respetivamente, Donald Trump e Jair Bolsonaro estão entre os distinguidos.

Mas há outros: Boris Johnson (Reino Unido), Narendra Modi (Índia), Andrés Manuel López Obrador (México), Alexander Lukashenko (Bielorrúsia), Recep Erdogan (Turquia), Vladimir Putin (Rússia) e Gurbanguly Berdimuhamedow, do Turcomenistão.

Psicologia: arranja as sobrancelhas, não sejas narcisista

Não é preciso queimar pestanas a estudar psicologia, nem sequer gastar dinheiro para pagar os serviços de um psicólogo. Se quer saber se uma pessoa é narcisista, basta atentar-lhe nas sobrancelhas.

Pode parecer estranho, mas foi esse o método desenvolvido por Miranda Giacomin e Nicholas Rule. Só precisaram de reunir um conjunto de pessoas, no mínimo perspicazes nesta matéria, e apresentaram-lhes fotos de sobrancelhas. Os participantes na experiência só tinham que dizer sim é narcisista, ou não, não é narcisista.

Ciência e Materiais: a (inútil) faca de fezes

Quem diria que as facas produzidas com fezes humanas congeladas não são eficazes? Os premiados por esta fantástica descoberta são Metin Eren, Michelle Bebber, James Norris, Alyssa Perrone, Ashley Rutkoski, Michael Wilson, e Mary Ann Raghanti.

Não se pense que os investigadores não colocaram todo do seu empenho na experiência: Metin Eren e Michelle Bebber passaram dias a defecar em sacos para obter o material para produzir as facas. Só que os instrumentos não serviram para cortar couro, músculos ou tendões de porco e derreteram antes de se conseguir fazer algum corte.

Os investigadores não se dão por derrotados e estão apostados em repetir a experiência num ambiente mais frio, já que estas foram realizadas a uma temperatura de cerca de 10°C. Está explicado.

Gestão: a subcontratação de assassinos

Alguém contratou o assassino chinês para matar uma pessoa. E ficou a perceber-se que até o negócio das mortes por encomenda é dado a subcontratações. Xi Guang-Na contratou Mo Tian-Xiang, que contratou Yang Kang-Sheng, que contratou Yang Guang-Sheng, que contratou Ling Xian Si, que não matou ninguém. Conforme iam sendo subcontratados, o valor do serviço ia descendo.

O último subcontratado considerou o valor do negócio tão irrisório que decidiu contactar a vítima e fingir que a tinha assassinado. Resultado: foram todos descobertos e desde o mandante aos homicidas por encomenda, todos foram condenados.

Paz: toca à campainha e foge

Quando os países andam de candeias às avessas, o mau relacionamento atinge a própria diplomacia. Até aqui não parece haver novidade, agora quanto aos métodos para se enervarem uns aos outros...

Que a Índia e o Paquistão têm uma relação muito complicada há décadas também já se sabe, agora que os diplomatas vão tocar à campainha dos rivais a meio da noite e depois fogem é que é uma autêntica novidade. Afinal, uma das brincadeiras infantis mais conhecidas do mundo, é um importante instrumento diplomático...

Física: abana a minhoca que ela muda de forma

Os investigadores queriam perceber como o movimento pode afetar organismos vivos, com base no efeito das ondas de Faraday geradas quando um corpo de água é agitado.

Para testar a vibração de alta frequência, Ivan Maksymov e Andriy Pototsky decidiram usar minhocas. Porque são baratas e o seu uso em experiências não depende da aprovação de nenhum comité de ética. A experiência foi bem-sucedida e conseguiram detetar ondas de Faraday no corpo da minhoca.

Economia: diz-me quantos beijos dás...

É outra forma de estudar a economia: diz-me quantos beijos na boca dás, dir-te-ei o nível de desigualdades sociais do teu país. O objetivo dos investigadores era perceber como as questões económicas de um país podem afetar as relações sociais, especialmente as românticas.

Conclusão: "Os indivíduos beijam os seus parceiros com mais frequência nos países onde a competição por recursos é mais intensa, o que pode ter um papel importante na manutenção de laços estáveis de longo prazo em certos tipos de ambientes hostis".

Entomologia: Tenho medo de aranhas...

Quem diria que quem estuda insetos tem medo de aranhas. Richard Vetter deu-se ao trabalho de reunir evidências de que muitos entomologistas são aracnofóbicos. Apesar das aranhas não serem insetos, considerou interessante que quem estuda os insetos achasse os aracnídeos repugnantes. Pois...

Medicina: come de boca fechada!

A misofonia é nome dado à Síndrome de Sensibilidade Seletiva do Som (SSSS ou S4) e é considerado um distúrbio que causa intolerância a pequenos barulhos. Agora a doença passou a outro nível, aplicada a quem se irrita com o barulho de outras pessoas a mastigarem.

Nienke Vulink, Damiaan Denys, e Arnoud van Loon conseguiram chegar a um grupo de pacientes com reações similares a sons naturais do corpo de outras pessoas, como a mastigação e até mesmo a respiração. Até se compreende.

Acústica: o jacaré que arrota a hélio

Os investigadores Stephan Reber, Takeshi Nishimura, Judith Janisch, Mark Robertson, e Tecumseh Fitch queriam perceber como o tamanho do jacaré poderia ter impacto nos sons vocais que emite e, por isso, fecharam-no numa câmara hermética com gás hélio a ouvir o som de outros jacarés.

A experiência científica do arroto do jacaré ganhou a categoria Acústica dos IgNobel .

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