Extrema-direita reúne-se para lutar contra a Europa

Partidos populistas alinhados com Marine Le Pen estão hoje reunidos na Alemanha. Estações públicas e imprensa de referência foram impedidas de cobrir o evento.

Há pelo menos três coisas a uni-los: são de extrema-ou-de-quase-extrema-direita, detestam a União Europeia e fazem parte do mesmo grupo parlamentar em Estrasburgo - o Europa das Nações e das Liberdades (ENF na sigla em inglês), fundado e liderado por Marine Le Pen. Os partidos europeus de direita alinhados com a Frente Nacional francesa reúnem-se hoje, em Koblenz, na Alemanha, naquela que tem sido apelidada de "contracimeira europeia".

Apesar de não ter sido divulgada a lista oficial de participantes, vários nomes fortes do populismo de direita na Europa - além de Marine Le Pen - deverão marcar presença no encontro. Os mais aguardados são Frauke Petry, da Alternativa para a Alemanha (AfD); o holandês Geert Wilders, do Partido para a Liberdade; Matteo Salvini, italiano da Liga do Norte; e o austríaco Norbert Hofer. À frente da organização do evento do grupo de Marine Le Pen está Marcus Pretzell, membro da AfD e casado com Petry.

O ENF foi criado em junho de 2015 e neste momento é composto por 39 deputados de nove países diferentes. "O objetivo é mostrar ao povo germânico o que é o grupo, quais são as nossas esperanças e aspirações, e também homenagear os grandes feitos que a AfD tem conseguido em tão pouco tempo", explica ao DN a britânica Janice Atkinson, uma das vice-presidentes do ENF que em 2015 foi expulsa dos independentistas do UKIP por alegadas fraudes nas despesas.

A reunião de hoje tem sido apelidada de "contracimeira europeia". Atkinson prefere não comentar e limita-se a destacar o nome oficial do encontro: Liberdade para a Europa. "Libertar as nossas nações da esclerótica UE, do défice democrático e da imigração descontrolada, que põe a nossa segurança em risco", acrescenta a eurodeputada.

Para Thorsten Benner, politólogo alemão do think tank Global Public Policy Institute, este é um encontro com um "valor simbólico importante", principalmente num ano de eleições cruciais na Alemanha, em França, na Holanda e talvez em Itália. "Querem fazer uma demonstração de força deste novo movimento autoritário apoiado pelo Kremlin. Organizar o encontro na Alemanha é mais uma provocação calculada. A AfD quer libertar-se daquilo que vê como correntes políticas do passado", sublinha Benner.

Nesta semana, Björn Höcke, um líder regional do partido germânico, fez declarações polémicas dizendo que era chegado o tempo de a Alemanha parar de expiar o que ficou para trás. "Somos o único povo que plantou um monumento de vergonha [Memorial do Holocausto] no meio da capital", sublinhou Höcke, prometendo que a AfD, se chegar ao poder, irá reescrever os livros de História. As críticas chegaram em peso e vindas até da própria Frauke Petry e do marido, Pretzell. Ele acusou-o de "ignorância extrema sobre a era nazi". Ela apelidou-o de "um fardo para o partido".

O rótulo de "contracimeira europeia" foi colado ao evento por Ludovic de Danne, conselheira de Le Pen para os Assuntos Internacionais, em declarações ao Le Figaro. "Era importante esta rentrée política ser na Alemanha, no país de Angela Merkel, que nós consideramos em larga medida a responsável pelos problemas da UE. Queríamos mostrar que duas mulheres de coragem, apesar de algumas divergências, partilham a mesma análise da Europa", explicou Danne. De acordo com o diário francês, os trabalhos de hoje em Koblenz irão começar com uma intervenção de Marine Le Pen e fecham com um discurso de Frauke Petry - uma espécie de versão alternativa e populista do eixo franco-alemão.

"Da parte da extrema-direita na Europa existe um sentimento de grande entusiasmo porque acreditam que estão a ganhar a batalha étnico-cultural da defesa dos brancos, que é aquela que lhes interessa", explica ao DN o historiador e ex-deputado europeu Rui Tavares. "Estão a aproveitar-se de um vazio de ideias da esquerda, do centro e da própria direita tradicional e estão crentes de que têm o terreno livre para mobilizar secções bastante vastas das sociedades europeias", acrescenta o político português.

Neste momento, com valores na ordem dos 10%-15%, a AfD surge em terceiro lugar nas sondagens na Alemanha. Em França, Marine Le Pen lidera as intenções de voto para a primeira volta das presidenciais.

Ainda sobre a cimeira de hoje, também tem sido polémica a decisão de impedir vários órgãos de comunicação social - como a Der Spiegel e o Frankfurter Allgemeine - de fazer a cobertura do evento. Questionada pelo DN sobre se esta medida representa um assalto à liberdade de informação, Atkinson respondeu ao ataque. "Têm sido publicadas muitas mentiras e repugnantes notícias falsas sobre a AfD e os seus membros. Temos de enfrentar o alegado jornalismo da velha elite liberal dominante."

A este propósito, Rui Tavares fala no regresso de um "lugar-comum" do léxico "fascista e nazi", que é a "lügenpresse" (imprensa mentirosa). Até que ponto a AfD terá ido buscar inspiração a Donald Trump? Benner sublinha ao DN que há já muito tempo que a expressão lügenpresse é usada pelo partido de Petry e que o combate aos media de referência não é novo. Ainda assim, "Trump está a ser uma fonte de inspiração na forma de lidar com a imprensa. Também significativo é o aparecimento na Alemanha do Breitbart News, o site noticioso fundado por Steve Bannon, chefe de estratégia da Casa Branca".

O DN enviou perguntas a todos os 39 eurodeputados do ENF, mas, além das de Janice Atkinson, não conseguiu mais respostas.

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