Europa prepara regras mais duras para combater aumento de casos de covid-19

Os governos da Alemanha e Holanda lançaram avisos para que os contágios sejam controlados. França e Espanha têm cidades sob medidas rígidas. O panorama é cada vez mais complicado na Escócia e norte de Inglaterra, enquanto os italianos têm de usar máscara a partir do momento que saem de casa.

Os níveis de alerta estão a subir na Europa por causa do aumento de novos casos de covid-19 que se têm registado nos últimos dias. É certo que ainda não são conhecidos casos de hospitais em ponto de rotura nas unidades de cuidados intensivos, à semelhança do que aconteceu em Itália e Espanha no início da pandemia, mas é para evitar o caos nas unidades de saúde e evitar o aumento do número de mortes, que os estados estão a aplicar novas restrições sanitárias.

Portugal é, neste momento, um dos países onde a preocupação tem aumentado nos últimos dias, com o aumento do número de casos, que nos últimos dois dias ultrapassou a barreira dos milhares. Aliás, esta sexta-feira registou-se o segundo maior número de contágios (1394) desde o início da pandemia.

Marcelo Rebelo de Sousa já avisou para a possibilidade de Portugal ter de adotar novas medidas para combater a covid-19. O Presidente da República chegou mesmo a dizer que tendo em conta o aumento de casos será até preciso repensar a forma de as famílias celebrarem o Natal.

Em meados de setembro, numa comunicação ao País, o primeiro-ministro António Costa apelou aos portugueses para cumprirem as regras de segurança porque seria incomportável para a economia voltar a adotar medidas de confinamento, à semelhança do que aconteceu em março. Passado mais de um mês, a ministra Mariana Vieira da Silva revelou, após a reunião do Conselho de Ministros desta quinta-feira, que o Governo irá analisar a possibilidade de rever as regras de segurança sanitárias que estão implementadas, o que deverá acontecer na próxima semana.

Em Espanha, após uma reunião de emergência do Conselho de Ministros, foi esta sexta-feira declarado o estado de emergência na região de Madrid, onde o vírus se tem propagado de forma preocupante. Apesar de Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, não concordar com a adoção de novas medidas restritivas para a sua região, o governo de Pedro Sánchez não hesitou e decretou o estado de emergência durante 15 dias.

Uma das consequências imediatas é que os municípios com mais de 100 mil habitantes ficam encerrados, não podendo entrar e sair pessoas das zonas limítrofes. Uma medida que será fiscalizada por sete mil polícias, que podem aplicar multas a quem infringir as regras. Além disso, os ajuntamentos em locais públicos ou privados são limitados a seis pessoas, enquanto a lotação máxima em estabelecimentos comerciais é de 50%, estando obrigados a encerrar até às 22.00 horas.

Estas medidas aplicam-se à capital espanhola e a outros oito municípios da Comunidade de Madrid onde o número de casos diário é bastante preocupante: Alcobendas, Alcorcón, Fuenlabrada, Getafe, Leganés, Móstoles, Parla e Torrejón de Ardoz. Os habitantes destes concelhos estão assim impedidos de aproveitar o fim de semana prolongado, uma vez que segunda-feira é feriado em Espanha.

Itália foi, à semelhança de Espanha, um dos países mais afetados na denominada primeira vaga da pandemia de covid-19. E, como tal, os níveis de preocupação voltaram a subir esta sexta-feira com o registo de mais de 5300 novos casos, um número que apenas havia sido registado na primavera. Na prática, duplicaram o número de contágios na última semana, algo que as autoridades sanitárias justificam com o facto de se estarem a fazer muitos testes nesta altura.

Ainda assim, o número de internamentos continua a crescer e já ultrapassa os quatro mil, pelo que Walter Ricciardi, assessor do Ministério da Saúde italiano, já veio dizer que está a ser planeada a adoção de novas medidas para travar a pandemia.

Para já, o governo de Giuseppe Conte decretou o uso obrigatório de máscara a partir do momento em que as pessoas saem de casa, mas oficialmente ainda não há sinais de outras medidas a aplicar. De qualquer forma, algumas notícias na imprensa italiana dão conta da possibilidade de, nos próximos dias, serem encerrados restaurantes e casas de espetáculos.

Conte já admitiu, entretanto, a adoção de medidas mais severas para que seja evitado o confinamento generalizado dos italianos que seria devastador para a economia. No entanto, Vincenzo De Luca, governador da região de Campânia, cuja capital é Nápoles, já veio avisar que "se aumentar a diferença entre infetados e curados", a sua região "irá entrar em confinamento". "Se chegarmos a 1000 doentes e 300 curados por dia, fechamos a região", avisou.

Aliás, De Luca tem sido bastante criticado nos últimos dias por não ter autorizado a viagem da equipa de futebol do Nápoles para Turim para jogar com a Juventus, precisamente por causa dos casos positivos registados na equipa napolitana. "Vamos imaginar que o Nápoles tinha viajado para Turim com alegria, ânimo positivo e coronavirus. Uma semana depois: Cristiano Ronaldo positivo. E teríamos conquistado o título do New York Times", disse, em resposta aos críticos.

As​​​​​ autoridades sanitárias da Alemanha também fizeram tocar os alarmes depois de esta sexta-feira se ter registado o maior número de casos diários desde meados de abril. Foram mais de 4500 novos contágios, que confirmam a tendência de subida dos últimos dias e levou a chanceler Angela Merkel a reunir-se com os autarcas das onze maiores cidades do país, num encontro em que foi decidido endurecer as restrições se nos próximos dez dias forem excedidos os 50 casos por 100 mil habitantes.

Merkel foi inequívoca naquela que é a posição do seu governo em avançar para novas medidas. "Serão os próximos dias e semanas que vão decidir a posição da Alemanha face a esta pandemia durante este inverno", avisou, ao mesmo tempo que alertou para a importância do uso de máscara, da manutenção da distância social e do arejamento dos locais.

A Alemanha estará à prova nos próximos dias e se chumbar na avaliação que for feita, então passará a ser obrigatório o uso de máscara em locais públicos, mas também podem ser aplicadas restrições nos contactos entre pessoas, entre os quais a possibilidade de ser implementado o recolher obrigatório, limitações relativas ao consumo de álcool na restauração, além de outro tipo de restrições em eventos ou reuniões privadas.

"Não é que tenhamos feito alguma coisa de errado, simplesmente o clima mais frio proporciona condições mais difíceis", justificou Peter Tschentscher, presidente da Câmara de Hamburgo, ao jornal Bild, após o encontro com Merkel, que deixou bem claro o cenário atual é "preocupante". "O nosso objetivo tem de ser manter as infeções numa única zona, onde cada infeção pode ser controlada e é possível voltar a quebrar as cadeias de contágio", disse a chanceler.

À semelhança do que fez António Costa em Portugal, Angela Merkel afirmou que uma nova paragem da economia, à semelhança do que aconteceu no início da pandemia, é algo tem de ser evitado. "Não queremos fechar a vida económica e pública como foi necessário na primavera", disse, acrescentando ser contra o fecho das escolas: "A educação das crianças e dos jovens são prioritárias."

O governo francês também está a contas com um aumento de casos significativo, acima dos 3000 contágios diários, apenas comparável aos registos de abril. No final do mês de setembro, após uma reunião no Palácio do Eliseu, o ministro da Saúde, Olivier Véran, anunciou que um conjunto de cidades que estavam sob tensão tendo em conta o aumento de casos.

Paris, Bordéus, Lyon, Nice, Lille, Toulouse, Saint-Étienne, Rennes, Marselha e Guadalupe passaram a estar debaixo de medidas rigorosas, com os bares a terem de fechar às 22.00 horas, a proibição da realização de festivais locais e festas estudantis e ainda a interdição de ajuntamentos de mais de dez pessoas nos espaços públicos.

Estas medidas vigoraram até esta sexta-feira, mas face ao aumento de casos em Lille, Lyon e Saint-Étienne, mas também em Grenoble, o presidente francês Emmanuel Macron decidiu que a partir deste sábado passa a vigorar o estado de alerta máximo nestas cidades, que se juntam a Marselha, Paris e Guadalupe, que já tinham visto o nível de alerta alterado. No entanto, o ministro da Saúde admitiu que Toulouse e Montpellier também "apresentam características epidémicas preocupantes", pelo que "podem passar para alerta máximo na segunda-feira".

Ou seja, as restrições nestas cidades passam a ser bastante mais rígidas, com bares fechados e restaurantes sujeitos a protocolos de saúde mais apertados. São ainda encerradas feiras e circos, mas também ginásios e piscinas para adultos. É ainda limitada a presença de pessoas em centros comerciais, lojas e salas de aula de universidades.

Olivier Véran admitiu ainda que, em face da aproximação do feriado de Todos os Santos, as viagens serão permitidas, mas apelou aos franceses para serem "extremamente cuidadosos", principalmente em reuniões de família.

No Reino Unido as infeções diárias estão acima dos 13 mil novos casos e na última quarta-feira ultrapassaram mesmo os 17 mil. Estes registos estão a preocupar as autoridades de saúde britânicas e o Governo de Boris Johnson deverá anunciar na próxima semana um conjunto de restrições para diminuir a propagação do vírus. E uma delas será a proibição de pernoitas fora de casa, em algumas regiões, devendo o norte de Inglaterra ser o mais abrangido.

Certo é que, tendo em conta o que Robert Jenrick, secretário das Comunidades, disse à BBC, as medidas serão adotadas de acordo com a especificidade de cada região, tendo admitido, no entanto, poder proceder-se ao encerramento de bares, algo que entrou em vigor esta sexta-feira nas cidades escocesas de Glasgow e Edimburgo, onde os restaurantes também vão fechar. No resto da Escócia, onde os locais de socialização têm de encerrar às 18.00 horas e as bebidas alcoólicas só podem ser servidas ao ar livre.

Jeremy Farrar, membro do Grupo de Aconselhamento Científico para Emergências (SAGE), alertou, entretanto, que o Reino Unido enfrenta os mesmos problemas que surgiram antes do confinamento geral no início de março, tendo alertado, em entrevista à Sky News, para a necessidade de serem "adotadas restrições no norte de Inglaterra". Afinal, "é preciso uma ação imediata para evitar uma espiral que coloque a situação fora de controlo".

É que, de acordo com várias autoridades de saúde locais, alguns hospitais no norte da Inglaterra podem atingir a capacidade máxima em apenas uma ou duas semanas. "Quanto mais tempo se demorar a tomar decisões, mais difíceis e draconianas serão as intervenções necessárias para mudar a trajetória da curva epidémica", avisou.

Refira-se que, de acordo com um estudo do Imperial College e da empresa de estudos de mercado Ipsos MORI, uma em 170 pessoas contraíram covid-19 em Inglaterra entre 18 de setembro e 5 de outubro, período em que se verificaram 45 mil novas infeções. No noroeste (North West) do território inglês, a base de incidência de contágios e de um contágio em cada 100 pessoas, sendo que ainda de acordo com este estudo, os casos de coronavírus duplicam duas vezes mais rápido nas regiões do North West, Yorkshire e West Midlands, do que nas restantes regiões de Inglaterra.

Mark Rutte, primeiro-ministro da Holanda, foi bastante vigoroso esta sexta-feira na forma como colocou em cima da mesa as possibilidades do seu Governo para reagir ao aumento significativo de contágios por covid-19 no país, que está a criar uma pressão cada vez maior sobre os hospitais.

"O desempenho da Holanda é pior que a América", disse Rutte, justificando esta sua frase de forma simples: "Os holandeses não mantêm a distância social, como tal é fundamental que os contactos sejam reduzidos."

Os 5983 novos casos registados esta sexta-feira colocaram o governo holandês em alerta máximo, razão pela qual o primeiro-ministro avisou que não terá receio de aplicar medidas rígidas em todo o país se não se registarem mudanças nos próximos dias, no que diz respeito a novas infeções, novos internamentos hospitalares e nos cuidados intensivos.

Mark Rutte vai esperar este fim de semana para ver se as medidas aplicadas há onze dias começam agora a produzir resultados e a estabilizar a curva de infeções. Essas restrições foram o fim do público no futebol, fecho mais cedo dos restaurantes e redução das pessoas em teatros e cinemas. Assim, se o número de novos casos continuar a subir depois deste fim de semana, o governo holandês irá reunir-se para decretar um novo conjunto de restrições para que os holandeses alterem o seu comportamento.

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