"EUA deviam liderar resposta multilateral do mundo livre à pandemia"

Entrevista a Patrícia Daehnhardt, investigadora do IDN e do IPRI-Nova. Participa esta quinta-feira às 18 horas no webinar Espaço Transatlântico em Tempos de Covid-19. Luís Nuno Rodrigues, do CEI-ISCTE, e Diana Soller, do IPRI-Nova, são os outros participantes. A moderação é de Inês Marques Ribeiro, do CEI-ISCTE. O evento faz parte de um ciclo sobre os impactos internacionais da pandemia organizado pelo ISCTE e IDN com o apoio do DN. Aberto ao público (inscrições em cei@iscte-iul.pt).

Donald Trump perdeu com a pandemia uma oportunidade para se mostrar o líder do mundo, tanto mais que o vírus começou por fragilizar a China?
Os EUA estão ausentes na liderança desta tragédia global, que não revelou nenhum líder internacional. Mas pela primeira vez desde a Primeira Guerra Mundial, também deixou de haver a expectativa de que os EUA assumam a liderança porque de acordo com a política do America First, Trump nem teria intenções de liderar uma hipotética resposta global. Ao mesmo tempo, a pandemia fragilizou a China ao provocar um sentimento de desconfiança face ao comportamento do país em relação ao resto do mundo, como a supressão de informação quanto ao surgimento e evolução da doença. Mas acusar a China de ter criado artificialmente o vírus e puni-la com medidas retaliatórias, como Trump sugere, não seria um sinal de liderança da principal potência mundial. Mais eficaz seria se Estados Unidos aproveitassem esta oportunidade para liderar uma resposta multilateral do mundo livre e democrático, a curto prazo, para a criação de uma vacina, acessível a todos, e, a médio prazo, para reformar o sistema de comércio global que criou excessivas desigualdades e um desequilíbrio económico global.

De repente, olha-se para o mapa do impacto da covid-19 e vê-se que, depois de controlada na Ásia, é sobretudo na Europa Ocidental e na América do Norte que a doença mais se faz sentir. Seria um bom pretexto para se pensar em como para o bem (sobretudo) e para o mal os dois lados do Atlântico estão intimamente relacionados e a NATO devia ser mais do que uma aliança militar?
O reforço da relação transatlântica, desafiada pelas incertezas estratégicas da administração Trump associadas a desentendimentos com os Aliados europeus sobre gastos de defesa, e à transacionalidade com que o presidente norte-americano olha para a Aliança Atlântica, seria uma resposta importante e necessária, mas dificilmente concretizável neste momento: a pandemia veio acelerar o mal-estar pré-existente na relação transatlântica e não facilitou uma resposta conjunta. A NATO é uma aliança política e militar, e deve primordialmente continuar a sê-lo, mas ficou claro que uma pandemia como esta afeta questões de segurança internacional como a própria segurança transatlântica. Assim como a NATO passou a incluir ameaças transnacionais e a cibersegurança na sua agenda institucional, questões de saúde publica e alterações climáticas assumem hoje em dia uma nova dimensão de segurança internacional incontornável. Para isso é fundamental que haja uma revitalização da cooperação transatlântica, o que pressupõe uma mudança na atual política externa dos Estados Unidos.

É possível dizer que os sistemas públicos de saúde europeus mostraram clara vantagem em termos de resultados quando comparados com a tradição liberal dos Estados Unidos?
Os sistemas públicos de saúde europeus são, de uma forma geral e apesar de diferenciados entre si, sistemas consolidados há décadas que co-existem com sistemas privados de saúde, que não os substituem. Comparativamente aos Estados Unidos, os países europeus conseguiram apresentar respostas melhores, através de medidas de confinamento e distanciamento sociais que se revelaram eficazes e que estão já a permitir a reabertura gradual e faseada em vários Estados membros. Ao mesmo tempo, os sistemas de saúde europeus revelaram os limites e a impreparação face a uma pandemia da dimensão do Covid-19 e todos os países terão de rever as suas estratégias de saúde pública. Nos Estados Unidos, para além de uma administração que inicialmente minimizou os efeitos de contágio e a pandemia, a situação de ausência de um sistema público de saúde eficaz foi agravada pela fraqueza do sistema de segurança social que deixou milhares de americanos empobrecidos ou no desemprego.


As divisões na Europa sobre como reagir à pandemia, o regresso das fronteiras, o recurso de alguns países à ajuda chinesa, mostram que esta Covid-19 fez mais mossa à UE do que o Brexit?
São circunstâncias diferentes, mas mostram como a União Europeia tem estado a saltar de crise em crise. Trata-se de uma crise sem precedentes de saúde pública que tornou as populações de todos os Estados Membros potenciais vitimas de igual forma, e que testou a capacidade de resposta da União a uma situação de calamidade pública. Num primeiro momento, a UE falhou, porque em vez de apresentar uma resposta unificada europeia, produziu respostas nacionais diferenciadas. E porque se levantaram dúvidas quanto à solidariedade intra-europeia face a ajuda material e financeira aos países mais fustigados pelo Covid-19, como a Itália e a Espanha. Num segundo momento, a Comissão Europeia apresentou um pacote de ajuda financeira, mas é questionável se tal será suficiente face à recessão económica que segundo alguns economistas será maior do que a crise económica e financeira de 2008, e nesse sentido, os impactos serão mais abrangentes e mais duradouros do que a saída do Reino Unido da União Europeia.

Vê alguma hipótese de o coronavírus influenciar o resultado das presidenciais americanas?
A meio ano das eleições presidenciais, pelo elevado número de mortes que o covid-19 já provocou nos Estados Unidos, e pela possibilidade de uma segunda vaga de infeções no outono, é inevitável que o coronavírus influencie as campanhas eleitorais de Donald Trump e de Joe Biden. De que forma, dependerá da evolução do número de casos de infetados e da taxa de mortalidade, assim como do teor das propostas de reforma do sistema de saúde norte-americano, se a questão entrar nas campanhas eleitorais. O relacionamento dos EUA com a China será provavelmente outro tema eleitoral, mesmo que já exista um consenso bipartidário sobre a necessidade de reequilibrar a relação económica e comercial entre as duas maiores economias mundiais. O debate será sobre as medidas propostas por ambos os candidatos para reduzir a dependência económica da China e revitalizar a economia norte-americana pós-covid. Da perspetiva dos decisores políticos, a condução da política interna nos próximos seis meses dependerá da análise entre o número de casos de infeção e de mortalidade, e os custos do aumento do desemprego e da recessão económica. Mas decisivo para os candidatos Trump e Biden serão os números económicos a poucas semanas antes da eleição, com uma recuperação económica a beneficiar as chances de Trump, e a queda acentuada do crescimento económico, associado ao desemprego a aumentar as chances de eleição para Joe Biden.

Mais Notícias