Estes são os homens do futuro presidente Temer

A semanas de formar governo, o atual vice-presidente rodeia-se de vedetas do mundo económico, de velhos amigos juristas mas, acima de tudo, de políticos com passado (e presente) suspeito

O primeiro é alvo da Lava-Jato e uma triste síntese do político à brasileira. O segundo foi acusado de fraude numa eleição para o governo do Rio de Janeiro. O terceiro era conhecido por uma terrível alcunha. Romero Jucá, Moreira Franco e Eliseu Padilha, todos do PMDB, são o trio mais próximo de Michel Temer, o presidente do Brasil mal seja consumado o afastamento de Dilma Rousseff, do PT, pelo Senado. Jucá terá a seu cargo o planeamento, desenvolvimento, comércio e indústria, Franco será um supersecretário e Padilha, o chefe da Casa Civil, ou seja, o primeiro-ministro que Lula da Silva (PT) não chegou a ser.

Temer está a erguer um ministério com três pilares: no núcleo estratégico, fiéis amigos do mundo jurídico; nas pastas económicas, estrelas com provas dadas; e na política, o velho e bolorento PMDB, partido que é poder desde a redemocratização, ora encostado ao tucano Fernando Henrique Cardoso (F.H.C.) ora de mãos dadas aos petistas Lula e Dilma. É aí que entra o trio mencionado acima.

Jucá, economista de 59 anos, foi ministro dos assuntos parlamentares de F.H.C., mas também de Lula e servia Dilma quando decidiu desembarcar de um governo que comparou ao Titanic. O colunista da revista Veja Roberto Pompeu de Toledo considera-o "um enigma". "Ele não se distingue como orador e carece de magnetismo pessoal. Nunca se ouviu dele uma ideia inovadora ou um discurso coerente sobre os rumos nacionais. Representa um estado pequeno [Roraima] e, fora do mundinho da política, poucos ligarão o nome à pessoa. Uma hipótese é que o seu sucesso repouse exatamente na soma de tais deficiências."

Franco, por seu lado, era o candidato do regime militar ao governo do Rio, em 1982. Quando se preparava para cantar vitória, foi surpreendido pelo Jornal do Brasil que apurou fraude eleitoral e o triunfo do rival Leonel Brizola. Eleito anos mais tarde, deixou o governo carioca com uma dívida de 150 milhões de dólares e uma crise sem precedentes na área da segurança, que ele prometera priorizar, além de ter chocado o país ao receber bicheiros (empresários do jogo ilegal) no palácio governamental.

Já Padilha, enquanto ministro de F.H.C. e deputado, acumulou investigações por corrupção passiva, peculato, lavagem de dinheiro, improbidade e formação de quadrilha. Ficou por isso conhecido como Eliseu Quadrilha, alcunha dada por Antônio Carlos Magalhães, o mesmo que chamou a Temer "mordomo de filme de terror". Mas a alcunha mudou agora para Eliseu Planilha porque é ele quem distribui, um a um, os cargos no governo pelos partidos que traíram Dilma.

Alvos na Lava-Jato

Além daquele trio, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), o político com maior taxa de reprovação do país, foi um aliado decisivo no impeachment. Outros políticos na esfera de influência de Temer, como Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima, também do PMDB, estão, segundo o jornal Extra, na lista de alvos das próximas operações da Lava-Jato porque se forem, como se espera, nomeados ministros ganharão foro privilegiado.

Se na área política a reputação não é essencial para Temer, ele próprio com fama de político mesquinho, de rato de bastidor e citado na Lava-Jato, na economia, pelo contrário, a aposta é em técnicos renomados para recuperar as debilitadíssimas contas do país e tranquilizar o mercado. Armínio Fraga, presidente do Banco Central (BC) de F.H.C., recusou entrar no governo mas Henrique Meirelles, o seu sucessor no cargo, deve aceitar ser o ministro da Fazenda.

José Serra, que foi dado como provável na pasta, acabará por assumir as Relações Exteriores, mas com tarefas sobretudo económicas: fortalecer as exportações com os maiores mercados mundiais e redefinir a relação com os emergentes e com a paralisada Mercosul. Jucá e Franco, com as suas superatribuições, completam "o quarteto do PIB" do governo Temer.

Na justiça

Ainda não há governo e a Justiça já sofreu a primeira baixa: Mariz de Oliveira, amigo íntimo de Temer, era o escolhido para a pasta mas depois de ter comparado a operação Lava-Jato à inquisição e sendo defensor de um dos construtores envolvidos no escândalo e do próprio futuro presidente, acabou "demitido".

Nessa área, porém, Temer move-se há mais de 30 anos e tem por isso ex-juízes do Supremo, como Ayres de Britto, presidente do tribunal durante o julgamento do mensalão, e advogados renomados, como José Yunes, entre os ministeriáveis.

Nas políticas sociais, Paes de Barros, que tem proposta para reformar os programas Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e outros emblemas da gestão PT, é nome certo. As restantes pastas devem servir para satisfazer a gula dos partidos que à última hora trocaram Dilma pelo projeto de Temer. O presidente admitiu ontem que o tal corte no número de ministérios que havia prometido é utópico, tal o apetite dos aliados de circunstância - quase certo porém é que a Cultura deixe de ter estatuto de ministério, como tinha na era PT, e seja integrada no Ministério da Educação.

São Paulo

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