Estado Islâmico ataca no Irão e alimenta conflito no Golfo Pérsico

Grupo sunita radical reivindicou duplo ataque que causou 12 mortos. Em março, ameaçara Teerão com um "banho de sangue". Atentado contribui para acentuar as tensões entre as duas principais potências da região, a Arábia Saudita sunita e o Irão xiita.

Como decorreu o duplo ataque em Teerão?

Os elementos do Estado Islâmico (EI), num total de seis, entre os quais uma mulher, envergando roupas femininas e o véu islâmico, atacaram, com uma diferença de 30 minutos, o Parlamento e o mausoléu do ayatollah Khomeiny, fundador da república islâmica iraniana e local de profundo valor simbólico para o regime. No mausoléu, um atacante fez-se explodir e o segundo foi abatido pela segurança. No Parlamento, quatro indivíduos conseguiram entrar no complexo, mas não chegaram ao hemiciclo, onde os deputados permaneceram reunidos. Um fez-se explodir e os restantes foram abatidos. Nos dois ataques morreram 12 pessoas, além dos terroristas. As autoridades anunciaram a neutralização de um terceiro ataque.

O Estado Islâmico já tinha atacado no Irão?

É a primeira operação reivindicada pelo EI em solo iraniano. Em março, numa mensagem em persa, o grupo sunita extremista ameaçara o Irão com "um banho de sangue" entre os xiitas (denominação do islão largamente maioritária, 85% a 90%, segundo as agências) e a devolução do país "à nação muçulmana sunita". Ontem, num texto divulgado pela agência Amaq, ligada ao EI, este anuncia novos ataques para breve.

Verificaram-se recentemente atentados no Irão?

Os mais recentes sucederam entre 2010 e 2012, período em que foram assassinados quatro cientistas nucleares, ações que Teerão atribuiu a Israel, e que este país nega. Ainda em 2010, um atentado suicida numa mesquita xiita na cidade de Chabahar provocou quase 40 mortos. Anos antes, ocorreu um surto de violência nas províncias de Fars e Khuzestan (de maioria árabe) e desde a fundação do regime, em 1979, os Mujaedines do Povo (oposição à república islâmica) têm realizado atentados e ataques contra dirigentes políticos e forças militares. Em agosto de 1981 realizaram a ação mais espetacular: um atentado à bomba mata o presidente Mohammad-Ali Rajai e o primeiro-ministro Mohammad-Javad Bahonar. O último atentado em Teerão sucedeu em julho de 2008, quando explodiu um comboio de veículos que transportaria armas para o Hezbollah libanês.

Que influência terão os ataques na conjuntura regional?

Teerão reagiu de forma dura, acusando a Arábia Saudita de envolvimento, citando recentes declarações do ministro da Defesa e número dois do governo de Riade, o príncipe Mohammed bin Salman, e do ministro dos Negócios Estrangeiros, Adel al-Jubeir, que classifica como "ameaças". Ambos os governantes sauditas definiram o Irão como "principal apoio do terrorismo" no mundo, com o primeiro a afirmar que "não vamos esperar que a guerra seja na Arábia Saudita, vamos fazer com que a guerra seja no território do Irão". Os ataques, que sucederam 48 horas após a Arábia Saudita e mais quatro Estados do Golfo terem declarado um bloqueio total ao Qatar (acusado de patrocinador do terrorismo), não deixarão de acentuar as tensões entre sunitas e xiitas e o contencioso regional. Na dupla perspetiva religiosa-geoestratégica, surge assim, mais uma vez como central, o conflito entre as duas principais potências na região, a Arábia Saudita sunita e o Irão xiita. Um conflito que, tudo indica, vai intensificar-se. Veja-se a reação do presidente Hassan Rouhani: "os inimigos do Irão islâmico (...) contrataram e apoiaram apóstatas [takfiri] para esconder as suas derrotas na região, o colapso dos valores islâmicos e a oposição das suas populações". Riade, que negou qualquer responsabilidade nos ataques, e Teerão estão em lados opostos dos conflitos na Síria e no Iémen. Numa outra reação ao ataque, o Líder Supremo ayatollah Khamenei declarou que estas ações "não terão qualquer efeito no Irão". Por seu lado, a direção dos Guardas da Revolução divulgou um comunicado em que responsabiliza os sauditas e Donald Trump, "apoiantes dos terroristas", do sucedido em Teerão.

Que papel terá tido a visita de Trump à Arábia Saudita?

Se há aspeto que ficou claro das palavras do presidente americano na Arábia Saudita, e também em Israel, é que vê o Irão como o maior problema na região, o que deixa caminho aberto para o reforço de Riade, como se viu pela sua reação ao bloqueio ao Qatar. Trump escreveu no Twitter: "tudo aponta para o Qatar na questão do extremismo. Talvez isto seja o princípio do fim (...) do terrorismo". Até hoje, na região do Golfo, o Qatar tem sido o único Estado a seguir uma linha independente e flexível face ao Irão.

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