Estado de graça de Temer não chegou nem a dez dias

Governo, que começou no dia 13, vem acumulando críticas e recuos. Mulheres, cultura, exonerações industriais e peso de Cunha entre os pecados. Mas equipa económica é credível

Desde que Franklin D. Roosevelt tomou posse como presidente dos EUA nos anos 1930 que se convencionou oferecer cem dias de estado de graça a um novo governo para mostrar o que vale. Ao de Michel Temer, do PMDB, talvez porque tenha subido ao poder pelo voto de 422 congressistas num universo de 200 milhões de brasileiros, no dia 13, nem dez dias foram dados.

O loteamento do executivo pelos partidos a quem devia o favor de terem trocado de lado durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, do PT, a atribuição de cargos-chave a investigados na Lava-Jato, as exonerações em número industrial e o esquecimento de ministérios, como o da Cultura, não pouparam um executivo que ainda está, para usar uma expressão de outros tempos e de outras latitudes, na incubadora.

Temer começou por transformar o Ministério da Cultura, nascido em 1985 com a redemocratização do país, num apêndice do da Educação para depois, dadas as primeiras pressões, o tornar "secretaria especial", e, finalmente, à medida que artistas se revezavam em concertos e outras iniciativas contra a medida, optar pela pirueta definitiva e recriá-lo neste sábado. Para Jorge Bastos Moreno, do jornal O Globo, "claro que Temer errou na resposta e na ação que se seguiu com a extinção do Ministério da Cultura, ninguém esperava uma decisão tão radical de um amante de poesia".

Como cinco mulheres recusaram a Cultura, foi mais um homem - o 25.º em 25 possíveis no executivo - a assumir o ministério ressuscitado. Na questão do "mundo feminino", para usar a expressão do próprio Temer, o presidente em exercício começou por dizer que a sua chefe de gabinete é mulher e participa dos Conselhos de Ministros, mais tarde revelou que a primeira-dama terá responsabilidades sociais no governo, a seguir mendigou uma mulher para a Cultura e acabou por nomear outra para liderar um banco público. "Fora Temer, nós mulheres não somos do lar, somos da vida!", reagiu a atriz Andréa Beltrão.

Se as mulheres, que são maioria no Brasil, não estão representadas no governo, a diversidade das minorias étnicas muito menos. Acresce que ministérios como o da Igualdade Racial, Desenvolvimento Social e Combate à Fome e o das Mulheres, Juventude e Direitos Humanos desapareceram do mapa. Pelo contrário, investigados na Lava-Jato no governo são três e com processos na justiça por improbidade e contas irregulares 13, a maioria vinda dos partidos que sustentaram Lula e Dilma e agora pularam para o barco de Temer. Pior: nos últimos dias, André Moura, do PSC, foi nomeado representante do governo na Câmara dos Deputados.

"André Moura não pode ser o representante na Câmara de um governo que só se instalou porque a titular do que caiu cometeu crime de responsabilidade, é uma questão de... responsabilidade", escreveu no Folha de S. Paulo Reinaldo Azevedo, colunista mais à direita do jornal. Moura, além de braço direito de Eduardo Cunha (PMDB), o político mais odiado do país, é réu em três ações no Supremo e investigado em três inquéritos, um por homicídio.

O governo permitiu ainda que o PT, através do ex-presidente Lula da Silva, capitalizasse a seu favor as centenas de exonerações efetuadas logo na primeira semana, ao demitir, pelo meio, funcionários queridos em Brasília, como o mordomo (negro) José Catalão. "É uma pena que um governo provisório aja como um definitivo para despedir funcionários como você", disse Lula, em público, a Catalão.

Se na política e na área social Temer perdeu a graça em dez dias, na economia, ao dar carta branca ao ministro das Finanças Henrique Meirelles, do PSD, para escolher a sua equipa e pautar o discurso do governo na área, o executivo tem recolhido elogios - à exceção dos sindicalistas e dos petistas.

O problema para Temer é que Meirelles, segundo os seus mais próximos, tem uma agenda política própria a médio prazo, podendo usar o seu poder para se tornar o que o titular das Finanças Fernando Henrique Cardoso se tornou para o presidente Itamar Franco nos anos 1990: um secador de popularidade. Franco ficou quase esquecido na história e Henrique Cardoso elegeu-se e governou o Brasil durante oito anos.

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