Espiões identificados. Navalny foi seguido em 30 viagens desde 2017 antes de ser envenenado

A CNN em colaboração com a agência de investigação Bellingcat revelam todos os passos do Serviço de Segurança russo até à tentativa de assassinato do principal opositor de Vladimir Putin.

Uma investigação da CNN e da agência de investigadores independentes Bellingcat revela que os passos Alexei Navalny, principal opositor do governo de Vladimir Putin, foram seguidos desde 2017 e durante 30 viagens de e para Moscovo, antes de ser envenenado, em agosto deste ano, por agentes do Serviço Federal de Segurança da Federação Russa (FSB).

Aliás, todos os movimentos dos membros da equipa de Navalny estiveram sob observação constante por parte do FSB, o organismo que sucedeu ao KGB, a polícia secreta da antiga União Soviética.

A investigação CNN-Bellingcat revela que um dos operacionais na perseguição aos opositores de Putin era Oleg Tayakin, agente que pertence a uma pequena equipa especializada em toxinas e agentes nervosos. Na manhã de 13 de agosto, vários elementos desse departamento viajaram de Moscovo para a cidade siberiana de Novosibirsk, onde no dia seguinte iria chegar Navalny.

Não demorou uma semana até que o principal opositor de Putin estivesse a lutar pela vida porque o seu corpo entrara em falência por ter sido envenenado com o composto tóxico Novichok.

Após analisar milhares de registos telefónicos, manifestos de voo e outros documentos, a Bellingcat identificou os agentes envolvidos neste envenenamento, bem como os seus antecedentes, comunicações e viagens.

A CNN revela que mostrou a Navalny, que se encontra a recuperar num local secreto na Alemanha, as fotos de vários agentes dessa equipa especializada da FSB, contudo, o opositor de Putin não reconheceu nenhum deles. "Tenho uma sensação muito estranha quando vejo estes rostos", disse, admitindo que é "assustador" descobrir que foi seguido durante tanto tempo.

Essa equipa especializada em toxinas era composta por seis a dez agentes, com idades entre os 30 e os 40 anos, dos quais se incluíam médicos, toxicologistas e paramédicos. Geralmente viajavam em grupos de três, faziam voos paralelos enquanto seguiam Navalny e utilizavam telefones descartáveis, escreve a CNN.

Esta equipa de elite é chefiada por Stanislav Makshakov, que liderou ao Instituto Shikhany, perto da cidade de Saratov, no sudoeste da Rússia, onde na década de 1970 foi desenvolvido e produzido o Novichok, o composto que utilizado para envenenar Navalny.

De acordo com os dados fornecidos pelos telemóveis, nas semanas anteriores ao envenenamento, Makshakov e o major-general Vladimir Bogdanov, líder do Centro de de Equipamentos Especiais do FSB, comunicaram regularmente com especialistas de agentes nervosos. Aliás, a investigação garante ainda que, de acordo com os registos telefónicos, Bogdanov manteve contacto com um alto funcionário do Kremlin, bastante próximo de Putin, no dia 2 de julho.

No dia seguinte, Alexei Navalny e a sua mulher, Yulia, iniciaram um período de férias num hotel de Kaliningrado, no mar Báltico, sendo que os relatórios de voo mostram que pelo menos três elementos do FSB viajaram para aquela cidade na mesma altura, sendo que as câmaras de vigilância do hotel foram desligadas durante a estada do opositor de Putin, segundo uma fonte do Bellingcat.

De acordo com a investigação, a 6 de julho, um dia depois de a equipa do FSB ter regressado a Moscovo, Yulia sentiu-se doente, naquilo que Navalny explicou, à CNN, como tendo sido "uma sensação de súbita exaustão e desorientação".

A mulher de Alexei acabou por recuperar e a causa da doença nunca foi determinada, mas especialistas consultados pela cadeia de televisão americana explicaram que os sintomas são compatíveis com uma baixa dosagem de envenenamento. Aliás, o próprio Navalny admite que foram "os mesmos" sintomas que teve algumas semanas depois. "Não consegui ligar esses pontos. Agora percebo como ela estava mal, o tipo de sensação terrível que experimentou", conta o próprio à CNN.

Após a viagem a Kaliningrado, os registos telefónicos de mais de 20 oficiais russos aumentaram significativamente e foram contabilizadas duas viagens de elementos do FSB a um resort da cidade de Sochi, no Mar Negro, onde os líderes russos passam boa parte do verão. A segunda viagem durou apenas algumas horas e ocorreu na véspera do envenenamento de Navalny, o que sugere que a operação foi aprovada pelas mais altas patentes.

A investigação revela que duas equipas de cinco ou seis agentes cada foram destacadas para a viagem de Navalny à Sibéria, onde foi envenenado. Os registos telefónicos mostram que Maria Pevchikh, a assessora do líder da oposição, estava a ser vigiada no seu hotel em Novosibirsk, onde a equipa de Navalny preparava filmagens sobre uma investigação anticorrupção, algo a que se tinha dedicado desde que lhe foi negada a possibilidade de concorrer às eleições presidenciais russas de 2018.

De Novosibirsk, a equipa de Navalny viajou depois para Tomsk para se encontrar com ativistas da oposição a Putin. Na noite de 19 de agosto foi envenenado naquela cidade da Sibéria. Navalny revelou à CNN que esteve no bar do hotel, onde cerca das 23.00 tomou um cocktail que definiu como "muito, muito mau", tendo depois voltado ao seu quarto.

A verdade é que ainda não se sabe qual foi a fonte do envenenamento, pois além da bebida, o Novichok poderia ter sido colocado na roupa, numa toalha, na fronha da almofada ou até num frasco de champô. Certo é que os especialistas dizem que foi utilizada uma nova variante do veneno, que é altamente tóxico e que pode demorar 12 horas até afetar o sistema nervoso central.

Na manhã seguinte, Navalny apanhou o avião de regresso a Moscovo, num voo de cerca de quatro horas. Bebeu chá ainda no aeroporto e, logo após a descolagem, sentiu-se muito mal. Estava a suar muito, foi à casa de banho do avião e dirigiu-se depois ao comissário de bordo. "Disse-lhe: 'Fui envenenado, vou morrer'. Deitei no chão para morrer", revelou.

Alexei Navalny está vivo graças à rápida decisão do comandante do avião, que pediu ajuda médica e fez uma aterragem de emergência em Omsk, em vez de prosseguir a viagem para Moscovo. "Salvaram a minha vida", revelou.

Enquanto estava em coma num hospital de Omsk, a notícia chegou à sua equipa que ainda estava em Tomsk e regressou ao hotel para conseguir objetos suspeitos que pudessem servir de prova para o envenenamento.

Por essa altura já soavam os alarmes em Moscovo. Os registos telefónicos mostram uma sequência de comunicações entre a liderança do FSB e dois oficiais da unidade do FSB que espiavam Navalny.

A investigação CNN-Bellingcat fala na existência de um debate sobre se Navalny deveria ter permissão para deixar a Rússia para se tratar na Alemanha, com os médicos a insistirem para que ele apenas viajasse quando o seu estado fosse estável. De acordo com os especialistas, a demora na autorização teria a ver com a necessidade de dar tempo para que os vestígios de Novichok desaparecessem do organismo de Navalny.

Após várias horas, os médicos acabaram por ceder e Navalny viajou para Berlim na manhã de 22 de agosto, já depois de Yulia Navalnaya ter apelado diretamente a Vladimir Putin para que o seu marido pudesse viajar.

Cerca de uma semana depois, a chanceler alemã Angela Merkel declarou que os resultados do laboratório mostraram "sem sombra de dúvida" que o envenenamento foi "uma tentativa de assassinato com agente nervoso". Perante isto, a União Europeia impôs sanções a vários altos funcionários, incluindo o diretor do FSB, Aleksandr Bortnikov, argumentando que se tratava do "responsável por apoiar as pessoas que executaram ou estiveram envolvidas no envenenamento" de Navalny.

O Kremlin e os serviços de segurança russos negaram sempre o envolvimento no envenenamento. A CNN assume, entretanto, que não pode assumir como certeza absoluta que a responsabilidade é do FSB, mas garante que suas atividades nos meses de julho e agosto sugerem tal envolvimento. Ainda assim, a cadeia de televisão americana não obteve qualquer reação foi Kremlin ou do FSB sobre esta investigação.

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