"Escócia votou para ficar na UE e agora está a ser forçada a sair"

Em Dundee, a 23 de junho, 60% disseram "sim" à permanência na UE. Se ingleses saírem, escoceses querem ficar

Em Dundee, a meio da tarde, já se nota o aproximar da hora de saída do trabalho. A cidade tem dois centros comerciais em plena Baixa. Ambos são de pequena dimensão mas grandes o suficiente para serem o ponto de encontro de muitos por esta hora.

Dundee votou "sim" à independência da Escócia no referendo de 18 de setembro de 2014. E votou novamente "sim" à permanência na União Europeia no referendo de 23 de junho. Mais de 60% do eleitorado da Escócia disse que queria permanecer parte da União Europeia.

O resultado fez que na Escócia se voltasse a falar num novo referendo à independência do Reino Unido e nas ruas da fria cidade de Dundee são muitos os que concordam com a ideia defendida pela primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon.

À conversa com o DN enquanto desfruta de um cigarro à porta do centro comercial, Pharel Frame diz que a "Escócia votou para ficar na UE mas está a ser forçada a sair", e por isso a independência da Escócia deve ser novamente levada a referendo. A jovem escocesa adianta que o seu namorado é holandês e, como tal, receia que a saída do espaço europeu tenha implicações na sua relação devido à "eventual necessidade de vistos", por isso realça que a "incerteza acerca do futuro" é a sua principal preocupação. "Acho que ninguém sabe muito bem o que vai acontecer", diz.

Já Graham Torbitt sente-se sobretudo enganado pelas promessas feitas em 2014 pelo governo britânico. Este era na altura liderado por David Cameron, que se demitiu do cargo após perder o referendo do brexit e cedeu o lugar a Theresa May. "Quando tivemos o referendo sobre a independência, eles disseram que se nós votássemos para sair do Reino Unido estaríamos também a sair da União Europeia. Mas agora estamos todos a sair da UE e nós não somos independentes. Por isso, acredito que devia haver um segundo referendo porque não acredito que nos disserem tudo", explica.

Roger Graham tem opinião semelhante. Ao DN, este "dundonian" diz que durante a campanha para o referendo escocês houve "muitas promessas e muitos dos argumentos foram usados para meter medo, e se essas mentiras não tivessem sido ditas o resultado poderia ter sido diferente e por isso devia haver outro referendo", defende. Mas na cidade também há eleitores mais cautelosos que preferem esperar para ver. Ao DN, Daniel Macdonald diz que "primeiro há que ver quais são os resultados do brexit e depois, se não correr bem, então faríamos um novo referendo. Para ser honesto, eu duvido que o brexit aconteça", realça. Para que o Reino Unido saia da UE, o governo de May tem de ativar o artigo 50.º do Tratado de Lisboa, coisa que até agora não aconteceu. A chefe do governo britânico entende poder fazê-lo sem passar pelo aval do Parlamento britânico. Este discorda, foi para tribunal e ganhou. Segue-se agora o recurso do executivo.

Mas se uns querem ir outra vez a votos, também há quem ache que o assunto da independência está fechado e arrumado, como é o caso de Maureen Forbes. "Nós já tivemos um referendo e disseram-nos que a questão só se colocaria uma vez na vida, por isso temos que respeitar a vontade da maioria," lembra a escocesa ao DN.

Dundee é a quarta maior cidade da Escócia. Aqui, vivem cerca de 148 mil pessoas. 118 mil são eleitores recenseados. No referendo de setembro de 2014, Dundee foi uma das quatro cidades onde ganhou o "sim" à independência e foi também aqui que o "sim" conquistou o maior número de votos: 57,35% contra 42,65%.

Já no referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia o resultado foi ainda mais esmagador: 60% dos eleitores de Dundee disseram "sim" à continuação no bloco europeu a 28, 40% disseram "não". Mas desta vez a cidade não destoou do resto da Escócia. 62% do eleitorado escocês votou pela permanência na UE.

O resultado veio dar novo fôlego às pretensões independentistas de Sturgeon, líder do Partido Nacionalista Escocês (SNP). No congresso do seu partido, em outubro, a primeira-ministra escocesa disse que caso o governo britânico opte por um "hard brexit" - sem acesso ao mercado único - a Escócia concluirá que as promessas feitas em 2014 por Londres foram quebradas e, como tal, estarão criadas condições para novo referendo sobre a independência da Escócia. Pelo seguro, o governo escocês está já a trabalhar na preparação de legislação com vista à eventual realização de novo plebiscito.

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