Escócia aprova referendo para ser independente

Consulta popular deverá realizar-se entre o outono de 2018 e a primavera de 2019. Londres é contra o plano de Nicola Sturgeon, que ontem recebeu o aval do Parlamento escocês

Poderá ser entre o outono de 2018 e a primavera de 2019 o novo referendo sobre a independência da Escócia que o Parlamento escocês aprovou ontem com 69 votos a favor e 59 contra, dando seguimento à proposta apresentada pela primeira-ministra Nicola Sturgeon. Mas o governo de Londres rejeitou imediatamente esta intenção.

Esta decisão de ontem complica ainda mais a situação política do Reino Unido, que aciona hoje o artigo 50.º para dar início ao demorado e espinhoso processo de saída da União Europeia. O brexit criou um clima de tensão entre os quatro países que formam o Reino Unido, pois Inglaterra e País de Gales votaram pela saída, enquanto que Escócia e Irlanda do Norte se mostraram a favor da permanência.

"O povo da Escócia deve ter o direito de escolher entre o brexit, possivelmente um brexit muito duro, ou tornar-se um país independente capaz de traçar o seu próprio curso", afirmou ontem a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, no Parlamento.

Mas Londres garantiu ontem que não vai encetar negociações sobre a realização um novo referendo sobre a independência escocesa. "Seria injusto para o povo da Escócia pedir-lhes para tomarem uma decisão crucial sem a informação necessária sobre a nossa futura relação com a Europa, ou sobre como iria ser uma Escócia independente", afirmou o governo de Theresa May.

Sturgeon declarou ontem que a forma do acordo do brexit deverá ser já clara entre o outono de 2018 e a primavera de 2019 e que o governo da Escócia também apresentará até essa altura um plano sobre o que implicaria a independência.

Em 2014, 55,3% dos escoceses votaram contra a independência do país do Reino Unido, mas agora Nicola Sturgeon garante que o voto a favor do brexit alterou as circunstâncias e que a Escócia não deveria ser obrigada a sair da União Europeia contra a sua vontade. "Quando a natureza da mudança que é tornada inevitável pelo brexit se torna clara, essa mudança não deve ser imposta sobre nós", reforçou a primeira-ministra da Escócia perante os deputados.

Nicola Sturgeon garantiu ainda que se o governo de Londres tentar bloquear o seu plano de referendo, voltará ao Parlamento escocês depois da Páscoa para informar os deputados de como irá lidar com a situação, sem adiantar mais detalhes.

Esta votação do Parlamento escocês teve lugar um dia depois de um encontro, em Glasgow, entre Theresa May e Nicola Sturgeon e que deu origem a uma polémica capa do Daily Mail. Este jornal britânico foi alvo de muitas críticas após focar a sua primeira página de ontem nas pernas das duas governantes, fazendo um trocadilho com a palavra brexit, referindo que seria mais interessante uma competição de pernas (Legs-it).

"Os anos 50 ligaram e pediram o seu título de volta", comentou o ex-líder do partido Trabalhista Ed Miliband, enquanto Harriet Harman, do mesmo partido, escreveu no Twitter: "Idiota! Estamos em 2017!"

Irlanda do Norte ameaçada

O governo do Reino Unido formalizou ontem o alargamento do prazo, até à Páscoa, para os partidos da Irlanda do Norte negociarem um governo de coligação, mas advertiu que, se não chegarem a acordo até lá, suspende a autonomia. O Partido Unionista Democrático e o Sinn Fein tinham até às 16.00 (hora de Lisboa) de segunda-feira para chegar a acordo para um governo de coligação, na sequência das eleições de dia 2, mas anunciaram o fracasso das negociações.

Falando ontem no Parlamento britânico, o ministro para a Irlanda do Norte, James Brokenshire, afirmou que Theresa May vai continuar "ativamente envolvida" nas negociações, recusando as críticas segundo as quais está demasiado ocupada com o brexit para se preocupar com a Irlanda do Norte. Brokenshire afirmou que, se não houver acordo até à Páscoa, uma das opções para pôr fim ao impasse é o direct rule (administração direta) pelo governo de Londres, embora seja algo que "ninguém quer".

O Sinn Fein, antigo braço político do inativo IRA, quer que o DUP afaste a sua líder e primeira-ministra cessante, Arlene Foster, enquanto é investigado um caso de alegada corrupção envolvendo um programa de subsídios às energias renováveis.

A concretizar-se a ativação da administração direta esta será a quinta vez que tal acontece na Irlanda do Norte neste século, tendo a última sido a mais longa, entre 15 de outubro de 2002 e 8 de maio de 2007, que se se deveu à recusa do Partido Unionista do Ulster em partilhar o poder com o Sinn Féin após uma investigação policial a uma alegada rede de espionagem do IRA.

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