Escoceses apreensivos face a cenário de segundo referendo

Um dia antes de o governo britânico acionar o pedido formal para sair da UE, Parlamento escocês deverá aprovar hoje uma nova consulta sobre a independência.

O Parlamento de Edimburgo deverá aprovar hoje a realização de um segundo referendo à independência da Escócia. A nova consulta deverá ter o aval garantido dos deputados do Partido Nacionalista Escocês (SNP) - que apoia o governo de Nicola Sturgeon - e do Partido dos Verdes.

A confirmação parlamentar de um novo plebiscito surgirá assim menos de três anos depois do referendo de setembro de 2014, no qual 55% dos eleitores votaram pela permanência da Escócia no Reino Unido.

Mas para o governo escocês, o referendo britânico de junho de 2016 mudou tudo. A decisão do Reino Unido de sair da União Europeia é contestada na Escócia, onde 62% dos eleitores votou pela permanência na UE. Sturgeon acusa o governo da primeira-ministra Theresa May de não ouvir as reivindicações escocesas e de querer arrastar o povo escocês para fora da UE contra a sua vontade.

Mas para muitos escoceses ainda é cedo para voltar a referendar a independência. Em conversa com o DN num café a poucos metros do Parlamento escocês, Collin Ramsey diz que o último referendo - conhecido como IndyRef2 - "foi ainda há pouco e prometeram-nos que esse seria o único no espaço de uma geração e que, uma vez conhecido o resultado, o assunto ficaria arrumado. No entanto, três anos depois, cá estamos todos a falar de mais um referendo."

Este funcionário do município de Edimburgo considera ainda que a questão do brexit está a ser usada como "uma desculpa para fazer outro referendo" mas salienta que mesmo sem a decisão de sair da União Europeia "provavelmente teríamos na mesma outro referendo, isto apenas veio acrescentar combustível ao debate da independência."

Já Maureen Paterson diz que "os que defendiam a independência da Escócia estarão muito contentes com a possibilidade de um novo referendo" mas considera que "não é uma boa ideia" avançar para nova consulta popular porque o brexit "já nos atirou para um clima de grande incerteza e eu acho que um novo referendo só vem aumentar essa incerteza."

Ainda assim, esta escocesa diz-se descansada quanto ao futuro porque acredita que, quer a Escócia quer o Reino Unido serão "sempre parte da Europa" e, "aconteça o que acontecer, continuaremos a negociar uns com outros e a viajar para vários países porque a Europa e os outros países europeus querem continuar a relacionar-se connosco."

Quem não parece tão otimista é a primeira-ministra escocesa que, desde o referendo de junho, vinha ameaçando com novo plebiscito à independência. Sturgeon, também líder do SNP, quer que os escoceses voltem pronunciar-se sobre o futuro que querem para o seu país, num contexto em que o brexit obriga a reconsiderações.

Colin Ramsey compreende. "Eu consigo entender o ponto de vista dela porque vivemos numa democracia do século XXI e apesar, de não concordar com ela, consigo perceber porque é que ela está a fazer isto."

Já Maureen confessa admirar a "capacidade de liderança e a tenacidade de Nicola Sturgeon" mas acha também que ela "deveria acalmar-se um pouco" e que talvez a primeira-ministra escocesa tenha "ido demasiado longe" nesta altura em que a prioridade é o brexit.

Para muitos escoceses, a discussão de agora e dos próximos tempos parece ser sobre pertencer à União Europeia ou pertencer ao Reino Unido, uma vez que fazer parte de ambos é já praticamente impossível. Mas Colin Ramsey diz que há riscos que parecem inevitáveis em ambos os casos. "Se a Escócia se tornar independente e conseguir ficar na União Europeia, parece que vai haver um outro tipo de ditadura. Ao fim e ao cabo, nós seremos governados por uma instituição acima de nós. Por isso, o que quer que aconteça significará sempre que seremos controlados por outros, se não for Westminster, será Bruxelas."

Stewart Lloyd-Jones é consultor editorial do Jornal Português de Ciências Sociais, uma revista académica publicada no Reino Unido. Num português fluente, confessa ao DN que "os escoceses preferiam não ter que escolher entre pertencer ao Reino Unido ou à União Europeia". Baseado nos resultados dos últimos referendos, Lloyd-Jones esclarece que "a maioria dos escoceses queria ser membro do Reino Unido e membro da União Europeia."

Mas para este escocês a decisão foi "contrariada pelo governo de Londres", chefiado por Theresa May, do Partido Conservador, porque "ela não quer respeitar a decisão do povo escocês no referendo de junho de 2016, quando 62% dos votantes escoceses se decidiram pela permanência do Reino Unido na União Europeia."

O consultor e tradutor reconhece que a decisão do referendo foi de âmbito nacional mas recorda que quando Theresa May fez o seu primeiro discurso como primeira-ministra do Reino Unido, afirmou que "queria falar com os governos nacionais para tomar uma decisão que acolhesse todos os britânicos mas na verdade isso não aconteceu. O governo de Londres não está a escutar o governo escocês e por isso, o povo escocês tem de ser chamado a decidir outra vez."

May, que ontem se reuniu com Sturgeon, está contra um segundo referendo sobre a independência da Escócia. E falou até em aproveitamento político-partidário. "É agora evidente que utilizar o brexit como pretexto para organizar um segundo referendo sobre a independência era o único objetivo do SNP desde junho", disse May, na passada sexta-feira.

Em Edimburgo

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