"Envolver a Huawei na disputa comercial não é o caminho certo"

Mika Lauhde, vice-presidente da Huawei para a Segurança e Privacidade Cibernética, falou ao DN em Bruxelas e garantiu: "Nenhum governo, do Ocidente ou do Leste, é capaz de nos utilizar" como espiões.

Afirma que a Huawei é "um catalisador" das discussões sobre cibersegurança. E que, por causa da empresa, acredita que aumentou "a perceção geral" sobre segurança.

Em entrevista ao DN, em Bruxelas, o vice-presidente da Huawei para a Segurança e Privacidade Cibernética, Mika Lauhde, considera que o debate que antes "não estava a ocorrer" está criar "regras básicas e de práticas que vão melhorar a privacidade e a segurança geral".

Por essa razão, espera que na cimeira do G20, na próxima semana, se conclua que a via "não é a correta".

Como responde a quem desconfia da Huawei e a acusa de pôr em causa a segurança cibernética?
O que gostaria era que quem expressa preocupações sobre a nossa segurança fosse um pouco mais específico, para que eu pudesse entender quais são as suas verdadeiras preocupações. Isto porque aquilo que temos feito, desde 1999, é melhorar a nossa segurança como um todo. Não dizemos que somos perfeitos, porque ninguém é perfeito neste planeta. Mas temos dificuldade em descobrir qual é a verdadeira preocupação, quando ninguém especifica melhor.

Os Estados Unidos argumentam que o vosso sistema 5G possibilitará a espionagem. Como afastaria este tipo de inquietação?
Na verdade, isso [a espionagem] já é impossível. O que os EUA estão a dizer não é verdade, nem sequer de forma aproximada. Se pensarmos que quando [Edward] Snowden revelou a descoberta de atos de espionagem [dos EUA], na Europa, o tráfego geral da Internet foi encriptado, mas apenas parcialmente - aproximadamente 12%. Ao passo que no estado atual, já ultrapassamos 75% de encriptação de dados. Ou seja, a encriptação é uma ferramenta que torna os conteúdos indecifráveis para todos os que não possuem as chaves de encriptação, exceto para o seu proprietário. Portanto, se todo o tráfego da Internet está encriptado, em qualquer lugar, de que forma é que a Huawei pode ajudar a espiar, se não tem acesso às chaves de desencriptação do sistema? Não o faz. Não é fisicamente possível.

Dito assim, não faz diferença quem fornece a ligação...
​​​​​​​Se o tráfego é encriptado, é encriptado. E nós não somos os proprietários das chaves de desencriptação. Isto também significa que nem os chineses, nem os EUA, nem qualquer outro governo será capaz de espiar as ligações, independentemente de quem for o fornecedor da ligação.

Em que circunstâncias a Huawei pode ligar-se? Porque esse tem sido o centro das inquietações da Administração norte-americana...
Há a ilusão de que, de alguma forma, os fabricantes estão sempre com algum tipo de ligação com a rede. Mas não é esse o caso. A forma como o fazemos é apenas quando o operador - o proprietário legal do componente - nos solicita. Por exemplo, para fornecer atualizações, resolução de problemas, ou qualquer outra coisa desse tipo. Mas o proprietário terá sempre o controlo, sabendo se acedemos à rede, por onde acedemos e quanto tempo lá estamos. As decisões não estão do nosso lado. É o operador que tem total controlo sobre o que está a acontecer na rede e não a Huawei. Somos os fornecedores dos "gadgets", fornecemos os componentes da rede, damos apoio para a instalação e, depois, desligamo-nos. Quando os clientes nos pedem, ajudamo-los, resolvemos os problemas e depois desconectamo-nos. Isto também significa que nenhum governo, venha do Ocidente ou do Leste, é capaz de nos utilizar como fonte ou instrumento, para entrar na rede.

A cibersegurança será um tema central nas discussões na Cimeira do G20, na próxima semana em Osaka. Espera que alguma coisa possa mudar para a Huawei?
Esperamos que haja um pensamento racional, em Osaka. E a conclusão será que esta via [da desconfiança] não é a correcta, na disputa comercial. Envolver esta tecnologia e esta empresa, pressionado outros países ou distribuidores, não é o caminho certo. Percebo que os países têm os seus interesses nacionais. Mas meter este tipo de empresas privadas no meio não é a forma certa de agir.

Qual tem sido o papel da Huawei na discussão sobre cibersegurança?
Tem funcionado como um catalisador numa discussão, que não estava realmente a ocorrer na Europa, antes da Huawei. Então, estou feliz que esta discussão esteja a começar agora, porque está aumentar a perceção geral sobre o significado da segurança, e também a criar uma certa linha de regras básicas e de práticas que vão melhorar a privacidade e a segurança geral. Depois de tudo isso, este trabalho, o que temos feito, acho que é melhor para toda a Europa e para todo o mundo, na verdade, sobre a discussão que aqui iniciámos.

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