"Criaram a coligação para bombardear o Estado Islâmico. É o que eles querem"

Entrevista com a ativista dos direito humanos e prémio Nobel da Paz Shirin Ebadi

Durante a sua apresentação falou sobre o problema dos migrantes e a forma como o Ocidente está a combater o autoproclamado Estado Islâmico, sugerindo que em vez de armas devem ser lançados livros, fazendo uma alusão à questão da força da educação.

Falei sobre a experiência falhada com os talibãs, depois do ataque de 11 de setembro aos Estados Unidos. À medida que tentámos matar os talibãs, eliminá-los, não diminuímos a sua força. Pelo contrário, fizemos que aumentassem o seu poderio. Acho que podemos dizer que o Estado Islâmico tem raízes nos talibãs. Por isso pergunto: porque é que o mundo opta por repetir uma experiência falhada? Tal como com os talibãs, criaram uma coligação que está a bombardear o Estado Islâmico, que é o que eles querem.

Como vê o apoio do governo iraniano ao presidente sírio Bashar Al-Assad?

Lamento que o governo do meu país, desde o início da opressão ao povo sírio, tenha optado por apoiar Bashar Al-Assad. Enviaram armas e o exército para o ajudar a matar o seu próprio povo. Mas tenho de acrescentar que esta política do governo iraniano não é a política do povo. Os iranianos estão ao lado do povo da Síria.

Como vê a aproximação do governo iraniano com o Ocidente por causa do acordo relacionado com as armas nucleares?

De forma a garantir o levantamento das sanções económicas, o governo iraniano tinha de chegar a um acordo relacionado com as armas nucleares. Mas considero que, mais uma vez, este tipo de acordo não vai ter qualquer impacto nas suas políticas, sejam elas internas ou internacionais. E foi depois do acordo que o governo enviou mais armas e soldados para a Síria.

Em relação aos direitos humanos no Irão, alguma coisa mudou nos últimos anos?

Nada mudou, não ficou melhor. Aliás, posso dizer que depois da subida do novo presidente ao poder a situação dos direitos humanos está ainda pior do que era. Por exemplo, o número de execuções aumentou.

O que é possível fazer, o que pode o mundo fazer para acabar com esta situação e reverter este ataque aos direitos humanos?

Não concordo com qualquer tipo de sanções económicas ao Irão, porque no final será a população a sofrer os efeitos dessa decisão. Mas podem existir sanções políticas. E posso dar um exemplo de como isso pode ser feito. O governo do Irão tem inúmeros canais de televisão e meios de comunicação através dos quais fazem a propaganda do governo. Estes canais de televisão têm os seus programas, fazem emissões porque usam os satélites europeus para emitir. Uma das coisas que podem fazer é proibir que o governo use estes satélites para fazer a sua propaganda e passar a sua mensagem. Outra coisa é o dinheiro sujo que resulta da corrupção no Irão e que vem para a Europa e que podem deixar de o aceitar.

Será possível garantir que no futuro todas as crianças, homens, mulheres, idosos, tenham os seus direitos garantidos? Vemos crianças sem acesso a educação ou a saúde, o mesmo com os mais velhos.

É algo terrível ver isso acontecer, crianças sem acesso a cuidados básicos ou a educação. Garantir que terão acesso a estes direitos no futuro, não penso que alguém o possa fazer.

Cabe então aos governos, assim como à sociedade civil, fazer que isso aconteça?

A nível nacional cabe aos governos fazê-lo, mas muitos não o querem.

Então está nas mãos dos cidadãos fazê-lo?

Sim, mas depende das sociedades fazer que aconteça. Mas muitas vezes vimos os governos resistirem. Por exemplo, olhem para a Síria. O que quer o povo daquele país? Quer exatamente estes direitos garantidos. E vemos o que Bashar Al-Assad está a fazer, a matá-los. Bombardeou-os duas vezes com armas químicas. Por isso não existem garantias.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG