"A avaliação no Brasil é que o governo da Dilma acabou"

O antigo jornalista brasileiro e atual diretor do Brazil Institute, do Wilson Center, em Washingon, diz que Lula terá dificuldade em assumir o papel de vítima porque a maioria da população confia na justiça

Que impacto terá a condução coercitiva do presidente Lula?

Há obviamente a surpresa de ver um ex-presidente, que foi uma figura imensamente popular mas agora já não é, ser alvo deste tipo de ação. Lula é uma figura histórica da maior importância. Fez uma contribuição muito positiva e governou bem, sobretudo no primeiro mandato, quando o Brasil surfava uma onda favorável na economia mundial. Carismático e talentoso, saiu do poder com 85% de aprovação. As sondagens hoje indicam que se se candidatasse novamente perderia, por exemplo, para Aécio Neves [Partido da Social Democracia Brasileira]. Acho que a carreira política dele chegou ao fim. Ele é muito inteligente e só se candidataria se tivesse a certeza antecipada da vitória. Quanto ao episódio de sexta-feira, não estamos acostumados a este tipo de condução coercitiva de pessoas conhecidas e influentes. Até adversários políticos do Partido dos Trabalhadores lamentaram o episódio. E o próprio Lula disse que se sentiu desrespeitado...

Acha que esta ação pode transformar Lula em vítima?

Pessoalmente não creio, porque a maior parte da população aprova a operação Lava-Jato. Claro que o Lula e os apoiantes vão usar isto para dizer que há perseguição política. Mas é preciso lembrar que ninguém está inventando nada. Há factos, muitos com base no testemunho de pessoas acusadas ou condenadas, que resolveram colaborar com a justiça, fazer delação premiada, que o comprometem. Quanto à condução coercitiva, Lula disse que se o juiz o tivesse convidado a depor ele iria. Mas ele foi intimidado a depor pelo Ministério Público de São Paulo sobre estas coisas e manobrou, junto com os simpatizantes, para evitar o depoimento. Também havia o risco de a militância do PT criar uma barreira física entre o ele e a polícia para evitar o depoimento e isso criaria confusão. Foi para o evitar que o juiz recorreu à condução coercitiva.

Qual será o impacto desta ação no processo Lava-Jato?

Acho que isto não irá afetar a reputação do juiz Sérgio Moro, que conduz o processo. Desde o escândalo do mensalão, em 2005, que existe no Brasil uma atitude diferente da sociedade em relação à tradicional impunidade das pessoas em posição de poder e influência. As pessoas estão fartas disso e é por isso que a aprovação da conduta do juiz não sofrerá. A justiça, a polícia e a procuradoria têm muita credibilidade. Quem não tem são os políticos. Além disso, todas estas ações são feitas com a supervisão de um juiz do Supremo. Não há nenhum freelance. Não é coisa de cowboy.

Lula já lançou um apelo à militância para sair para as ruas. Teme o regresso da violência?

Provavelmente haverá uma fase de mais confrontos nas ruas. Porque o PT levará as pessoas às ruas, tal como os movimentos de oposição que estiveram envolvidos nos protestos desde 2013. A expectativa é de que haverá manifestações e contramanifestaçãos muito grandes, no dia 13, no Brasil todo. É preciso lembrar que à crise política se junta uma crise económica, com uma contração de quase 4% do PIB no ano passado e previsão de igual este ano e o desemprego que começa já a afetar a classe média. E a crise é consequência das políticas do governo de Dilma Rousseff.

A presidente saiu em defesa de Lula. Isso é normal?

Repare, ela é a presidente da República Federativa do Brasil e sai de Brasília para ir ter com ele... É sempre assim, nunca é ele que vai a ela. A avaliação no Brasil é que o governo da Dilma acabou e os analistas dizem que não só acabou como não tem a possibilidade de ser reabilitado. Isto porque acabou a ideia de que ela é uma pessoa idónea, porque o nome da Dilma também já está a surgir ligado ao Lava-Jato.

Acha que o impeachment é só uma questão de tempo?

A avaliação que se faz hoje é que o impeachment que ela havia conseguido travar poderá ser recuperado. Importante para o processo é o que vai acontecer a partir de agora na oposição e a força das manifestações previstas para a semana.

Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute do Wilson Center em Washington. Jornalista, foi correspondente da revista VEJA em Lisboa de 1974 a 1977 e do jornal Estado de S.Paulo na capital norte-americana entre 1989 e 2006, quando assumiu o cargo atual

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