Mo Ibrahim: "O mundo não está a prestar muita atenção ao Sudão"

O empresário e filantropo disse temer um "banho de sangue". Entrevista foi feita antes do anúncio, esta quinta-feira da demissão do presidente Omar al-Bashir.

O empresário e filantropo de origem sudanesa Mo Ibrahim disse temer um "banho de sangue" no Sudão, onde há uma escalada da contestação ao Presidente Bashir, e lamentou a fraca cobertura mediática da situação no país.

Em entrevista à agência Lusa, em Abidjan, Costa do Marfim, o empresário, que se notabilizou pela promoção da boa governação em África, disse ainda esperar que o Presidente Omar al-Bashir tenha a "decência de se ir embora".

"Estou muito orgulhoso dos meus irmãos e irmãs sudaneses. São pessoas pacíficas que estão a enfrentar o exército, a segurança, a polícia, os 'gangs' da Irmandade Muçulmana. Todos estes tipos estão armados, as pessoas não estão e estão a dizer 'chega', 'vão-se embora'. É uma tremenda demonstração de coragem. Infelizmente, o mundo não está a prestar muita atenção", disse.

"As manifestações no Sudão estão a acontecer há quatro meses, por todo o lado, em todas as cidades, e a cobertura da imprensa tem sido muito fraca", acrescentou.

Assinalou, por outro lado, a perseguição e a expulsão do país de jornalistas pelo "regime terrível" de al-Bashir e os seus apoiantes, que classificou como "criminosos".

Mo Ibrahim, que falou em entrevista à agência Lusa no final da iniciativa anual da sua fundação, na Costa do Marfim, manifestou-se "muito preocupado" com a possibilidade de os apoiantes do Presidente "usarem a violência e provocarem um banho de sangue".

"Já aconteceu antes, em Darfur. Só espero que esta transição aconteça de forma pacífica", acrescentou.

Omar al-Bashir é acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de crimes de guerra, contra a humanidade e de genocídio no Darfur, mas Mo Ibrahim defende a suspensão do processo em troca da saída do poder do chefe de Estado sudanês.

"Se ele saísse em paz, permitiria salvar muitas vidas. Está contra a parede, há pessoas por todo o lado a manifestarem-se. Ninguém o quer como Presidente, o que é que ele vai fazer? Espero que faça a coisa decente, peça desculpa e vá embora, mas infelizmente nunca mostrou essa decência antes", considerou.

Questionado sobre se equaciona a possibilidade de se envolver diretamente na política no seu país de origem, o empresário considera que isso seria um "erro grave".

"Faço parte da sociedade civil. Se deixasse isto para me candidatar a um cargo político, toda a gente diria que apenas o fiz para ter uma plataforma política e isso destruiria todo o meu discurso sobre a sociedade civil. Sempre pertencerei à sociedade civil", disse.

Lembrou, por outro lado, que defende a renovação de gerações na política e nos governos.

"Sempre defendi que os jovens devem assumir a liderança. Sempre contestei os líderes idosos, todos esses dinossauros devem ir-se embora. Também sou um dinossauro, sou velho. Como é que posso contestar as pessoas por serem velhas e eu, também um velho, ir para o poder? Seria contraditório", considerou.

"A única coisa que tenho é a minha dignidade, a minha integridade, tenho de a respeitar", sublinhou.

As manifestações contra o Presidente al-Bashir, no poder há mais de 30 anos no Sudão, prolongam-se há vários meses e intensificaram-se nas últimas semanas com a participação de milhares de pessoas.

Os protestos, reprimidos pelas forças de segurança, fizeram pelo menos 22 mortos desde o fim de semana.

Omar al-Bashir, que ocupa o cargo de Presidente desde 1989 na sequência de um golpe de Estado, tem sido duramente criticado por um movimento antigovernamental com protestos nas ruas que tiveram início com o aumento dos preços do pão e de outros bens essenciais.

O Sudão, que perdeu cerca de três quartos das suas reservas de petróleo desde a independência do Sudão do Sul, em 2011, vive uma profunda crise económica e está confrontado com uma inflação próxima dos 70%.

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