Entre os comboios modernos e os elevados preços do milho

Uhuru Kenyatta quer um segundo mandato presidencial. Apesar da aposta nas infraestruturas e do crescimento do PIB, preço da farinha do milho pode decidir eleições

O presidente Uhuru Kenyatta inaugurou recentemente a maior infraestrutura do Quénia, uma linha ferroviária ultramoderna entre Nairobi e Mombaça, mas a sua reeleição para um segundo mandato, na votação desta terça-feira, pode ser decidida pelo preço do milho.

O timing era perfeito. Dois meses antes das eleições, Kenyatta cortou em Mombaça a fita mais dourada de todas obras públicas quenianas: uma linha ferroviária tecnologicamente avançada e polivalente que liga o maior porto da África Oriental ao aeroporto internacional de Nairobi e às autoestradas que saem da capital queniana em direção aos principais destinos económicos vizinhos.

A inauguração do investimento, financiado e executado com capitais e mão-de-obra chineses, reuniu no porto queniano as mais altas individualidades locais e do país financiador. Ao mesmo tempo, porém, que a fanfarra tocava pelo comboio moderno, outro evento se assumia como símbolo de uma presidência que falhou no desafio de fazer chegar aos mais necessitados os benefícios do crescimento económico: uma crise alimentar relacionada com a explosão dos preços da farinha de milho, alimento-base de uma grande maioria de quenianos, que provocou descontentamento no país.

O Quénia tem beneficiado de taxas de crescimento superiores a 5% do PIB desde 2013 e tem desenvolvido as suas infraestruturas, com investimentos importantes em aeroportos, estradas e pontes, energias renováveis e a construção de um novo porto em Lamu. O consumo tem sido estimulado, mas nem tudo é luz no mandato presidencial de Uhuru Kenyatta.

Como é frequente em África, a agricultura é o maior empregador, mas o Quénia distingue-se dos seus rivais regionais por ter uma população ativa mais qualificada, uma melhor rede de internet e mentalidade empresarial. O turismo, afetado, em 2013, pelo ataque das Al-Shabab ao centro cultural de Westgate de Nairobi (67 mortos), também retomou o caminho e o clima de negócios não tem parado de melhorar, reconhecem relatórios sucessivos do FMI. As milícias Al-Shabab, oriundas da Somália, foram no ano passado o grupo islâmico extremista mais mortífero em África e nas últimas semanas têm aumentado os ataques no Quénia, à medida que se aproximam as eleições gerais.

"Por um lado, há o Quénia que se desenvolve e se afirma como a economia dinâmica de África Oriental. Por outro, há o Quénia que não beneficia do crescimento", sublinhou, à AFP, Francis Mwangi, analista do Standard Investment Bank. A subida dos preços alimentares, uma nova seca no início do ano, vários incidentes de corrupção e acusações de favorecimento associadas ao aumento dos preços da farinha de milho ameaçam a reeleição do atual chefe do Estado.

O governo começou por reagir à escassez de produção de milho isentando de impostos a sua importação e, em seguida, passou mesmo a subsidiar as importações. Porém, uma e outra medida não tiveram impacto nos preços finais, deixando uma larga franja da população sob ameaça de crise alimentar e a arena política carregada de acusações e críticas generalizadas na gestão da escassez deste bem de primeira necessidade.

No pico da crise, em maio, dois quilos de farinha custavam em Nairobi 180 shillings (1,50 euros), 50% acima dos preços praticados um ano antes. O caso denuncia a vulnerabilidade económica de uma grande parte da população que "não se alimenta do PIB", como é comum ouvir-se nesta região de África.

Jornalista da agência Lusa

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