Entre Macron e Le Pen os melanchonistas escolhem a abstenção

Sondagem mostra que 31% dos sete milhões que votaram no candidato da França Insubmissa estão indecisos para a segunda volta.

Confrontados com uma escolha entre "a peste e a cólera" ou entre "a guerra e a pobreza", como descrevem Emmanuel Macron e Marine Le Pen, muitos apoiantes de Jean-Luc Mélenchon parecem ter resolvido o dilema da segunda volta das presidenciais francesas optando pela abstenção a 7 de maio. Quarto classificado na primeira volta, o candidato da França Insubmissa recusou até agora dar uma indicação de voto aos sete milhões de franceses que votaram nele no domingo. Por isso alguns decidiram anunciar a sua escolha nas redes sociais através da hashtag #SemMima7deMaio.

As sondagens, essas dão uma ideia mais clara sobre os números: um estudo Elabe para a BFMTV mostra que se 53% dos eleitores de Mélenchon dizem optar por Macron na segunda volta e 16% preferem Le Pen, 31% dos melenchonistas afirmam-se ainda indecisos. "O voto de protesto em Mélenchon pode agora beneficiar a Frente Nacional" de Le Pen, explica Yves-Marie Cann, diretor do instituto de sondagens Elabe.

Da extrema-esquerda para a extrema-direita? A escolha não é assim tão de espantar. Afinal, tanto Mélenchon como Le Pen defendem a saída da França da União Europeia e da NATO. E ambos os candidatos querem baixar a idade da reforma para os 60 anos, além de, por exemplo, defenderem a existência de mais referendos de iniciativa popular.

Talvez tendo esta realidade em conta a Frente Nacional já tenha começado a piscar o olho aos melenchonistas. O vice-presidente do partido, Florian Philippot, garantiu ontem que "muitos eleitores de Jean-Luc Mélenchon" podem votar em Marine Le Pen conduzidos pelo desejo de revogar a lei do trabalho e combater "o peso da finança" em França.

O próprio Jean-Marie Le Pen, pai de Marine e fundador da Frente Nacional, veio ontem elogiar a decisão de Mélenchon de não dar uma indicação de voto aos seus apoiantes. Silencioso durante a maior parte da campanha para a primeira volta, o veterano político de 88 anos foi à rádio France Inter dizer que o candidato da França Insubmissa é "muito correto" e saudar o facto de ter dado liberdade de voto aos seus eleitores: "Parece-me muito digno da parte de alguém que teve um resultado notável e que, em termos oratórios, era o melhor."

Jean-Marie Le Pen não resistiu também a lançar uma farpa à filha, sublinhando que esta fez uma "campanha muito descontraída". Se fosse ele o candidato, teria feito "uma campanha à [Donald] Trump, muito aberta, muito agressiva contra os responsáveis pela decadência do país, quer sejam de esquerda ou de direita", garantiu.

Marine Le Pen, quanto a ela, não perdeu tempo depois do segundo lugar na primeira volta e já está em campanha no terreno. Ontem foi ao mercado alimentar de Rungis, no Val-de-Marne. Ali, a candidata da Frente Nacional disse-se solidária com os eleitores de François Fillon, o candidato d"Os Republicanos e terceiro classificado no domingo, "traídos", segundo ela, pelo apelo deste a votarem Macron. Para amanhã, Le Pen tem já previsto um comício em Nice, onde Fillon ficou à frente dela no domingo.

Esta estratégia de contacto direto com eleitorado, de forte presença no terreno e nos media da candidata da extrema-direita, contrasta com o aparente recolhimento de Macron. O candidato do En Marche! só hoje retoma a campanha, com uma ida à Somme antes de um comício em Arras, no Pas-de-Calais, dois departamentos onde Le Pen venceu a primeira volta.

Macron dedicou o início da semana a consultas para preparar uma futura maioria de governo a pensar nas legislativas de junho. Uma atitude que os críticos denunciam como uma tentativa para "saltar por cima" da segunda volta das presidenciais. Apoiado por Fillon e pelo candidato socialista Benoît Hamon, quinto na primeira volta com pouco mais de 6% dos votos, Macron não escapou ontem ao ataque do presidente do Partido Socialista. Jean-Christophe Cambadélis acusou o fundador do En Marche! de "achar que já está ganho quando não está" e lembrou que "nas últimas 48 horas temos subestimado o resultado de Marine Le Pen. Apesar de uma campanha não muito boa, ela está na segunda volta. As sondagens dão-lhe 40%" na segunda volta.

Enquanto surgiam notícias de que a sua campanha está na mira dos hackers russos, Macron esteve ontem presente - tal como Le Pen - na homenagem ao polícia morto na quinta-feira num ataque jihadista nos Campos Elísios. No pátio da prefeitura de polícia de Paris, o companheiro de Xavier Jugelé garantiu "sofro sem ódio" e apelou a "mantermos a paz".

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