Encostada contra a parede, a Cosa Nostra pode dar a volta ao jogo

Os últimos 25 anos foram de declínio para a organização criminosa da Sicília, mas poderá estar a renascer com o tráfico de droga.

Pouco antes das 08.00, numa soalheira manhã de primavera, o chefe da máfia Giuseppe Dainotti estava a andar de bicicleta numa rua tranquila quando dois homens, em cima de uma moto, se puseram ao seu lado e dispararam três vezes. Morreu no local.

Foi um típico homicídio com a assinatura da máfia, no coração da capital da Sicília, Palermo. Ninguém viu nada e apenas uma testemunha admite ter ouvido os disparos. Mais de um mês depois ainda ninguém foi preso.

Libertado da prisão em 2014, Dainotti, 67 anos, tinha cumprido mais de duas décadas atrás das grades, condenado por homicídio. A razão para que agora tenha sido ele a vítima ainda não é clara, mas a polícia sublinha que o facto de este ser o primeiro assassínio de uma figura de topo desde 2010 pode indiciar lutas internas na organização.

"A máfia está à procura de uma nova liderança, num momento em que muitos dos velhos chefes estão a sair das prisões", explica o chefe da polícia de Palermo, Renato Cortese.

"O perigo é que alguma dessas figuras tente voltar a pôr a máfia de pé", continua o mesmo responsável, em declarações à Reuters.

Em tempos todo-poderosa na Sicília, a mais famosa organização criminosa no mundo, conhecida como Cosa Nostra, tem vindo a ser apertada ao longo das últimas duas décadas. Muitos dos líderes foram postos atrás das grades, muitos dos seus negócios foram parar a outras mãos e muitos locais estão preparados para mostrar resistência.

Apesar destes percalços, ninguém acredita que a organização esteja moribunda. Pelo contrário. Mesmo depois de anos de declínio e de a calabresa 'Ndrangheta ter conquistado o estatuto de grupo mais poderoso, os procuradores acreditam que a Cosa Nostra está a tentar reerguer-se a partir do tráfico de droga.

"Está a desenvolver-se e a tentar construir um monopólio no muito lucrativo mercado do narcotráfico", disse num discurso em janeiro Matteo Frasca, chefe do Tribunal de Recursos de Palermo.

Os procuradores garantem que a 'Ndrangheta tem uma forte posição no comércio de cocaína, mas a Cosa Nostra é agora um dos protagonistas no mercado italiano de haxixe, importando a droga do Norte de África e vendendo-a para toda a Europa.

Em março, a polícia encontrou 400 quilos de haxixe, avaliados em cerca de três milhões de euros, a flutuar junto à costa siciliana, depois de uma entrega de produto que correu mal. E em maio as autoridades apreenderam 300 quilos em apenas uma rusga em Palermo.

"Durante algum tempo, a máfia, para o seu financiamento, dependia de esquemas de corrupção envolvendo obras públicas e da cobrança coerciva de taxas a comerciantes, mas, por causa da crise económica, estão a regressar aos velhos hábitos do tráfico de droga", explica um experiente magistrado antimáfia que não quis ser citado porque não está autorizado a falar publicamente.

A revolta dos comerciantes

O PIB da Sicília caiu mais de 13% entre 2008 e 2015 e só agora começa a recuperar, mas muito lentamente. E a taxa de desemprego é de 22%, o dobro da média nacional.

A recessão teve o efeito de tornar muito mais difícil que os comerciantes aceitassem pagar as taxas de proteção e, em apenas uma década em Palermo, houve mais de mil firmas que se revoltaram, recusando-se a pagar.

Em maio começou o julgamento de nove homens acusados de extorquir dinheiro a uma dúzia de lojas situadas numa das principais artérias da cidade, a Via Maqueda. Todos os negócios eram geridos por estrangeiros, principalmente naturais do Bangladesh.

"É um caso extraordinário. Pela primeira vez em Palermo um grupo de lojistas estrangeiros rebelou-se. Fizeram-no juntos. Foi uma ação coletiva", sublinha Daniele Marannanno, coordenador do Addiopizzo, que significa adeus taxas e que se trata de um movimento cívico que encoraja as empresas a combater a Cosa Nostra.

"Muitos negócios ainda pagam o pizzo, mas agora querem alguma coisa em troca da parte da máfia - ajuda para fixação de preços no bairro, para manter empregados difíceis na ordem e para cobrança de dívidas", esclarece Marannanno.

Um comerciante local, que prefere não ser nomeado, refere que uma das consequências do declínio da máfia foi o aumento da criminalidade. Queixa-se de que os pomares da sua família são muitas vezes assaltados durante a noite por pequenos ladrões. "Isso nunca acontecia no passado. Nenhuma mosca pousava em cima da fruta sem autorização da máfia."

Luta pelo poder

A verdadeira luta do Estado contra a máfia começou apenas em 1992, depois de a organização ter matado dois dos magistrados italianos mais importantes, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, motivando uma onda de indignação nacional e forçando os políticos a agir.

Governos sucessivos foram introduzindo vasta legislação antimáfia, permitindo ao estado tomar conta de ativos da organização e desenvolver programas de proteção para informadores.

Como resultado, centenas de mafiosos foram presos durante os últimos 25 anos, incluindo Salvatore "Toto" Riina, o chefe dos chefes, que ordenou os homicídios de Falcone e Borsellino. Agora tem 86 anos. Acredita-se que está com uma doença terminal e que acabará por morrer na cadeia.

Ainda assim, muitos outros mafiosos menos proeminentes, que foram condenados nos grandes julgamentos dos últimos 20 anos, ou foram libertados, como Dainotti, ou estão quase a chegar ao fim das respetivas penas, como Giovanni Grizzaffi, o sobrinho de Riina.

"O último chefe dos chefes foi Riina. Nunca chegou a ser formalmente substituído e as pessoas continuaram a sentir que estavam sob o seu controlo, mesmo estando ele na prisão. Quando morrer é possível que venhamos a assistir a uma luta pelo poder", diz o chefe da polícia, Cortese, que tem uma fotografia de Falcone e de Borsellino pendurada no seu gabinete.

Dainotti foi abatido a tiro na véspera do vigésimo quinto aniversário da morte de Falcone, deixando a polícia e os políticos a pensar se a data terá sido criteriosamente escolhida para sinalizar que a máfia está de novo em ação.

Rosario Crocetta, o governador da Sicília e um cruzado antimáfia, já foi alvo de pelo menos três tentativas de assassínio, a mais recente em 2010. Diz que a organização está muito reduzida, mas sempre em movimento. "São camaleões", explica, com dois guarda-costas de pé junto à sua mesa na esplanada.

"Nunca conseguiremos uma vitória total contra a máfia, tal como nunca será possível derrotar o mal para sempre."

* )Jornalista da Reuters

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