Em tempos de incerteza, a inspiração de uma das maiores histórias de amor da América

O casal presidencial Jimmy e Rosalynn Carter comemora hoje 74 anos de casamento, tantos quanto contam de vida Donald Trump e George W. Bush

Eleanor Rosalynn Smith nunca se interessou muito por rapazes da sua idade e chegou a pensar que ia ficar para tia. Pedia à mãe que atendesse o telefone e dissesse que ela não estava em casa quando um pretendente ligava. E eram muitos os interessados na beldade do sul, nascida em agosto de 1927 na pequena cidade de Plains, Georgia. Julgava que o seu destino era tirar design de interiores numa faculdade para mulheres, mas acabou por se tornar na mulher de um jovem oficial da marinha, mais tarde o presidente Jimmy Carter. Viria a ser uma das Primeiras Damas mais queridas - e poderosas - de sempre nos Estados Unidos da América.

A história de como Eleanor se tornou Rosalynn Carter foi contada no livro "What Makes a Marriage Last" [O que faz um casamento durar], publicado há dois meses por Phil Donahue e Marlo Thomas. Rosalynn e Jimmy Carter casaram-se a 7 de julho de 1946, exatamente há 74 anos. Têm o casamento mais duradouro de toda a história presidencial dos Estados Unidos e são apontados como emblemáticos pela resiliência e longevidade da sua história de amor. Estão casados há tantos anos quantos contam de vida o atual presidente Donald Trump, nascido a 14 de junho de 1946, e o ex-presidente George W. Bush, que nasceu a 6 de julho do mesmo ano.

"Jimmy e Rosalynn Carter representam para muitos americanos um tempo e uma ideia que muito possivelmente não é a América de hoje", disse ao DN o professor Diniz Borges, presidente da Coligação Luso-Americana da Califórnia e cônsul honorário de Portugal em Tulare. "Por exemplo: ainda vivem na mesma casa que construíram em 1961. Eles são o contrário da opulência e da ganância, princípios que hoje estão associados à presidência nos Estados Unidos da América."

O democrata Jimmy Carter foi eleito em 1976 e é um dos raros exemplos de presidentes incumbentes que perderam a reeleição - em 1980, Carter foi derrotado pelo republicano Ronald Reagan. O casal manteve o ativismo que os caracterizara antes e durante a passagem pela Casa Branca nos anos que se seguiram e continuou a ser considerado um exemplo.

"Apesar da polarização que existe nos Estados Unidos, acredito que a maioria dos americanos, independentemente da sua filiação partidária, têm um enorme respeito pelo casal Carter", explicou Diniz Borges. "Os americanos veem no casal Carter um matrimónio genuíno. Um companheirismo de vida que nem sempre é identificável, mesmo em casamentos com longa duração. Talvez até, uma nostalgia." A história detalhada do seu casamento no livro "What Makes a Marriage Last" é um exemplo disso.

"A vida do casal Carter, para uma parte significativa da sociedade americana, é algo que apenas identificam com os avós ou bisavós."

Num artigo recente da revista People, que se debruça sobre os altos e baixos desta união de mais de sete décadas, Jimmy Carter falou de como o casamento se transformou numa parceria entre iguais - num tempo em que essa era uma descrição rara - por causa do trabalho conjunto na propriedade da família, que produzia amendoins. Seria este negócio que o presidente teria de vender anos mais tarde, quando chegou à Casa Branca, para evitar quaisquer aparências de conflito de interesses. O presidente dizia frequentemente que eram parceiros equivalentes; a revista "Time" considerou Rosalynn a segunda pessoa mais poderosa dos Estados Unidos durante o complicado mandato de Carter.

"Embora tenha sido presidente dos Estados Unidos sob circunstâncias extremamente difíceis, a História vai lembrar de forma gentil o ex-presidente americano pelo seu compromisso com o ambiente, paz internacional, a proteção dos direitos humanos e civis e a sua aspiração de tornar o governo "competente e compassivo", algo tão raro por estes dias", disse ao DN o luso-americano Frank Ferreira, cientista político e especialista em assuntos intergovernmentais e do congresso norte-americano.

O responsável sublinhou o caráter notável de um casamento tão longo. "Poucas pessoas têm a mesma sorte nesta vida de encontrar companheiros tão perfeitamente feitos para si." Jimmy e Rosalynn tiveram quatro filhos: Jack, Amy, James e Donnel.

Ferreira lembrou também que há uma passagem nos documentos arquivados da presidência em que Jimmy Carter conta como foi uma viagem estatal a Portugal, em junho de 1980.

Nessa viagem, lê-se nos documentos, o casal Carter foi recebido com honras de estado pelo então presidente português, Ramalho Eanes, e o então primeiro-ministro Sá Carneiro. Discutiram "assuntos de mútuo interesse", discorreu Frank Ferreira.

"Enquanto esteve em Lisboa, o presidente Carter falou muito bem da aliança duradoura entre Portugal e os Estados Unidos, relatou os contributos dos luso-americanos para a sociedade norte-americana e elogiou os líderes de Portugal por construírem uma fundação para um país moderno e democrático", contou Ferreira. Carter também "expressou a sua gratidão" pelo trabalho que Portugal estava a fazer em termos de diplomacia e assuntos internacionais.

"Que o presidente e a senhora Carter vivam muito tempo para voltarem a Portugal para comemorarem ainda mais anos juntos", desejou Ferreira.

Agora com 95 anos, Jimmy Carter tem-se mantido uma voz presente na sociedade norte-americana. Ainda no mês passado divulgou um comunicado abordando os movimentos de protesto por causa da morte de George Floyd, no qual disse que ele e Rosalynn estavam "a sofrer pelas trágicas injustiças raciais e consequente reação em todo o país."

O aniversário de 74 anos de casamento acontece numa altura de grandes incertezas no país, com tumultos sociais, a pandemia de covid-19 ainda fora de controlo e uma batalha presidencial atípica entre Donald Trump e Joe Biden. Jimmy e Rosalynn são vistos como ecos de uma outra era, em que tudo era mais simples, mesmo que não fosse (seguramente) mais fácil.

"Acho que os americanos veem no casal Carter, acima de tudo: a honestidade de se ser quem é", sublinhou Diniz Borges, "e uma verdadeira lealdade ao espaço de onde se veio."

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