Economia, pandemia, eleições. Quem mentiu mais no debate entre Trump e Biden?

O frente-a-frente ficou marcado pelos ataques e pelos insultos. A nível político, não trouxe nada de novo. Ambos os candidatos proferiram afirmações que não passaram na verificação dos factos.

A pouco mais de um mês das presidenciais norte-americanas, o primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden ficou marcado pela troca de insultos pessoais - "não há nada de inteligente em ti, Joe", disse o presidente sobre o adversário democrata, que por sua vez chegou a apelidar o republicano de "palhaço" e a mandá-lo calar.

A nível político, o frente-a-frente não trouxe nada de novo, com cada candidato a defender a sua verdade em temas como economia, coronavírus ou as próprias eleições, com afirmações que não passam no crivo da verificação dos factos.

Economia

Trump repetiu aquilo que já diz há anos: que a sua Administração "construiu a maior economia da história". Mas esta afirmação não tem em conta a crise que a pandemia gerou, com milhões de norte-americanos a caírem no desemprego.

Depois de o desemprego ter atingido um mínimo histórico de 3,5% em dezembro, o Departamento de Emprego disse em janeiro (ainda antes de o covid-19 chegar aos EUA) que o crescimento de emprego foi mais lento nos primeiros três anos da presidência de Trump. Só foram criados 6,5 milhões postos de emprego, sendo que nos três anos anteriores, ainda com Barack Obama na Casa Branca, tinham sido criados oito milhões.

A pandemia levou o desemprego até aos 14,7% em abril, com os números de agosto a apresentarem já uma melhoria, para os 8,4%.

Em matéria de crescimento económico, outro indicador da força da economia norte-americana, Trump conseguiu um crescimento de 3% do PIB em 2018, o seu melhor ano. Obama tinha conseguido 3,1% em 2015 e George W. Bush, antes dele, chegou aos 3,8% em 2004.

Trump conseguiu contudo níveis históricos na bolsa, com o índice a atingir os 29 551,42 pontos a 12 de fevereiro, mas cerca de um mês depois (por causa da pandemia) o Dow Jones já estava nos piores registos em mais de uma década, nos 19 173,98. Entretanto já recuperou para os 27 452,76 esta terça-feira.

Biden, que foi vice-presidente de Obama, disse no debate que a anterior administração deixou a Trump uma economia em crescimento e que ele causou a recessão. Um exagero da parte do democrata, já que nem a economia estava assim em tão boa saúde quando Trump chegou à Casa Branca nem o republicado foi responsável pelos maus números económicos que a pandemia causou.

Mas Biden também mentiu quando alegou que o presidente não fez nada para ajudar os pequenos negócios. Ainda durante a pandemia, Trump assinou o pacote de ajuda de 2,3 biliões de dólares que criou o programa de proteção do salário que incluía 525 mil milhões de dólares para empréstimos a fundo perdido a mais de cinco milhões de pequenas empresas. Contudo, 130 mil milhões não chegaram a ser usados.

O ex-vice-presidente também alegou que os EUA têm um maior défice comercial com a China do que tinham antes, mas este caiu abruptamente nos últimos anos.

Impostos

O presidente insistiu na ideia de que pagou "milhões de dólares" em impostos, apesar de a investigação do The New York Times ter mostrado que não o fez. Contudo, também deixou claro que como qualquer cidadão, "não quer pagar impostos" e procura todas as formas de dedução para reduzir o que paga.

Pressionado por Biden para apresentar provas, Trump disse "vocês vão ver" - no passado já disse que divulgaria as declarações de impostos e nunca o fez.

Coronavírus

O presidente alegou que os EUA estão "a semanas de ter uma vacina" contra o covid-19, mas os especialistas norte-americanos dizem que existem muito poucas probabilidades de uma estar aprovada no final de outubro, acreditando que lá para novembro ou dezembro o país saberá se tem uma vacina segura e efetiva e que só lá para abril deverá haver doses suficientes para todos.

Trump alegou ainda que Biden "vai fechar o país inteiro" por causa da pandemia, com o democrata a dizer que irá ouvir os cientistas.

Por sua vez o democrata alegou que Trump desvalorizou a pandemia, algo que o próprio presidente confirmou em entrevistas com o jornalista Bob Woodward, dizendo que sabia que o vírus era perigoso e mais mortífero que a gripe comum mas quis desvalorizar porque não quis (e ainda não quer) gerar pânico.

Trump acusou também Biden de ter sido "um desastre" durante a pandemia de H1N1, em 2009, mas o vice-presidente não era responsável pela resposta federal nesse caso e além disso a Administração Obama respondeu mais rapidamente após ter sido detetado o primeiro caso nos EUA -- viriam a morrer cerca de 12 500 pessoas, face aos mais de 200 mil já registados na pandemia de covid-19.

Eleições

Trump defendeu que o voto por correio vai levar a "fraude como nunca vimos", exagerando em vários exemplos que deu, enquanto Biden disse que "ninguém conseguiu provar que existe fraude relacionada com o voto por correio".

Os especialistas concordam com o democrata, havendo até quem diga que é mais provável um norte-americano ser atingido por um raio do que cometer fraude no voto por correspondência. No Oregon, que já vota por correspondência há duas décadas, houve 54 casos de possível fraude nas presidenciais de 2016, com 22 pessoas a serem condenadas por votar em dois estados.

O presidente defende que nos casos em que é o eleitor a pedir para votar por estar ausente (é o que ele faz) não há problemas, mas que enviar os boletins de voto para todos os eleitores (como acontece em vários estados) que aí há fraude. Este ano, por causa da pandemia, há mais estados a enviar o boletim para os eleitores, que eles podem devolver pelo correio ou colocar em locais pré-determinados.

Violência

Em relação aos protestos que têm existido em várias cidades norte-americanas, por vezes relacionados com temas raciais, Trump alegou que o xerife de Portland (onde manifestantes têm estado em confronto com a polícia, que tem respondido a ataques com gás lacrimogéneo e balas de borracha) o apoia. O próprio veio dizer no Twitter que isso é falso.

Mas Biden também alegou que, durante um protesto pacífico frente à Casa Branca, o presidente "saiu do seu bunker e pôs os militares a usar gás lacrimogéneo", mas não só não há indicações que Trump tivesse sido levado para o bunker que existe no edifício como foi a polícia a usar esse mecanismo para afastar os manifestantes no dia 1 de junho.

Supremo Tribunal

Biden alegou que a juíza proposta por Trump para o Supremo Tribunal, para o lugar da falecida Ruth Bader Ginsburg, considera que o Obamacare não é constitucional. Contudo, Amy Coney Barrett nunca disse isso, apesar de ser crítica da lei federal aprovada durante a presidência de Obama e das decisões judiciais que a apoiam.

É a Administração de Trump que está a pedir ao Supremo Tribunal (que ouvirá o caso a 10 de novembro) para que considere o Obamacare inconstitucional.

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