E se lhe aparecessem atores porno à porta? O humor da Nova Zelândia em campanha contra pornografia online

O governo neozelandês recorreu ao humor no vídeo que ilustra a campanha "Keep it real online" que incentiva os pais a conversar com os filhos sobre sexualidade e a mostrar as diferenças entre as relações da vida real e o que eles assistem online.

E se, de repente, lhe aparecem à porta dois atores pornográficos nus e lhe dissessem que o seu filho adolescente tem por hábito vê-los online em filmes de adultos, que ele assiste no computador, tablet, Playstation ou até mesmo nos telemóveis dos pais? "O seu filho tem estado a ver o que fazemos online". É assim que começa o vídeo da campanha do governo neozelandês que usa o humor para colocar pais e os filhos adolescentes a conversar sobre sexo e as diferenças entre as relações reais e o que eles assistem pela internet.

Um vídeo que não surge por acaso. Um estudo, divulgado em dezembro do ano passado, revelou que grande parte dos jovens neozelandeses (e muito provavelmente muitos outros no resto do mundo) recorrem à internet para aprenderem sobre a sexualidade, sendo entre os filmes para adultos mais populares, cerca de um terço retratam encontros sexuais não consensuais.

Neste pequeno filme que integra a campanha "Keep it real online" - que alerta para os perigos da internet e promove a sua utilização segura -, são mesmo as figuras da indústria pornográfica representadas no vídeo que explicam a importância dos jovens perceberem a diferença entre vida real versus o que assistem online.

"Atuamos para adultos, o seu filho é só uma criança. Ele não deve saber como funcionam as relações reais. Nós nem falamos em consentimento. Vamos direitos ao assunto", explicou a estrela porno Sue - interpretada pela atriz e modelo Cassandra Woodhouse -, à mãe do adolescente, ainda estupefacta.

"Não, eu nunca agiria assim na vida real", completa o ator porno Derek, papel desempenhado pelo personal trainer Paris Theodosiou.

E se a mãe, interpretada pela comediante Justine Smith, fica sem palavras ao deparar-se com os dois atores nus, o adolescente, então, nem tem reação e deixa cair a taça de cereais ao ver quem está à porta da sua casa. É nesta altura que mãe diz ao filho que está na altura de terem uma conversa séria sobre relacionamentos reais, mas "sem julgamentos".

Um vídeo que faz rir a falar de coisas sérias, que embora possam ser constrangedoras para alguns pais, mostra que é importante falar com os mais novos sobre a sexualidade, a utilização segura da internet, como defende a Nova Zelândia através desta campanha.

"Pode ser um desafio conversar com seu filho sobre pornografia. Conversas sobre sexo e pornografia podem ser estranhas e pode sentir que não tem ideia de por onde começar", lê-se no site da campanha.

O governo neozelandês deixa algumas dicas para ajudar pais ou cuidadores a abordar estes assuntos com os filhos adolescentes.

Escolher o "momento certo", "ouvir o que eles têm a dizer", explicar-lhes que "a pornografia não reflete a realidade", falar sobre de "consentimento e respeito sexual" e ser "paciente" são algumas sugestões apontadas no site da inciativa.

Vídeo tem mais de um milhão de visualizações

Uma campanha que pretende ajudar pais a esclarecer os adolescentes sobre os perigos que a internet pode representar e que surge após o estudo feito no ano passado.

Um dos responsáveis pelo inquérito disse ao The Guardian que concluiu-se que os jovens neozelandeses estão a usar a internet como o primeiro e principal meio para aprenderem sobre sexo e muitos podem aplicar o que viram num ecrã nos seus relacionamentos sexuais. E muitos dos filmes para adultos que assistem online é retratado o não consentimento sexual. David Shanks explica que enquanto os adultos encaram a pornografia como a fantasia que é, os mais jovens podem fazer outra leitura.

Escusado será dizer que o vídeo dos atores pornográficos nus que deixam a mãe de um adolescente atónita está a ser um sucesso nas redes sociais. No YouTube, o pequeno filme tem mais de um milhão de visualizações.

"Ficamos impressionados com a resposta que tivemos até agora. Obviamente, os problemas que retratamos na campanha são sensíveis e, por isso, ver a campanha chegar tão bem aos pais foi incrível", disse Sam Stuchbury, diretor criativo da Motion Sickness, a empresa que fez o vídeo.

Só nos primeiros três dias da campanha tiveram 100 mil visualizações, conta Stuchbury.

O humor foi usado para passar a mensagem e está a resultar. "Como neozelandeses, usamos o humor para nos ajudar a lidar com assuntos difíceis", começa por explicar Hilary Ngan Kee, responsável pela estratégia da Motion Sickness.

De certa forma, o humor devolve o poder para lidar com determinados assuntos, considera. "Se conseguirmos rir de alguma coisa, talvez não seja tão assustador, talvez podemos lidar um pouco melhor do que pensávamos", refere Hilary Ngan Kee.

O cyberbullying, pedofilia e a facilidade de acesso a conteúdo violento são outros temas abordados pela campanha do governo neozelandês "Keep it real online".

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