"É o vírus que manda, não somos nós". Sinais de alarme multiplicam-se pela Europa

Agência europeia de controlo de doenças emite alerta. França e Espanha passam o milhão de casos oficiais. Na Bélgica há médicos a trabalhar com o vírus.

No dia em que Portugal atinge um recorde do número de internados e volta aos números de abril no que concerne a óbitos e novos casos, multiplicam-se sinais de preocupação na Europa sobre a propagação da covid-19.

A agência de controlo de doenças da União Europeia disse que todos os países da UE, exceto Chipre, Estónia, Finlândia e Grécia, se enquadram agora numa categoria de "séria preocupação", tal como o Reino Unido.

"O aumento contínuo das infeções por covid-19 representa uma grande ameaça para a saúde pública, com a maioria dos países a ter uma situação epidemiológica altamente preocupante", disse Andrea Ammon, diretora do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças.

Enquanto entram em vigor mais medidas restritivas um pouco por todo o continente e nas ilhas britânicas, responsáveis clínicos mostram-se pessimistas. "É uma guerra de trincheiras", com a diferença de que "não são bombas, é um vírus". "É o vírus que manda, não somos nós, nem os políticos, nem os cientistas", disse disse Benoît Misset, chefe da unidade de cuidados intensivos do Hospital Universitário de Liège.

"Estamos a perder. Estamos esmagados. Estamos amargurados", desabafou. Misset contou à AFP que vários dos colegas têm de trabalhar apesar de estarem infectados com o vírus, ainda que assintomáticos.

Bruxelas e Valónia, a região francófona da qual Liège faz parte, são agora os epicentros da crise na Bélgica, onde a ex-primeira-ministra e atual ministra dos Negócios Estrangeiros, Sophie Wilmès, se encontra nos cuidados intensivos.

Em França, as autoridades sanitárias informaram que o país atingiu mais de 1 milhão de casos confirmados de coronavírus, tornando-se no segundo país da Europa Ocidental a seguir à Espanha a atingir esse número, depois de se ter registado mais 42000 novos casos nas últimas 24 horas.

O chefe do centro hospitalar de Paris e da região de Île-de-France advertiu que a segunda vaga pode ser mais grave do que a primeira. "Há muitas pessoas infecciosas nas ruas sem o saber e sem que mais ninguém o saiba", disse Martin Hirsch.

Já o presidente francês Emmanuel Macron, numa visita a um hospital perto de Paris, lembrou que o vírus vai persistir por mais alguns meses. "Quando oiço os cientistas, vejo que as projecções são para, na melhor das hipóteses, até ao próximo verão", disse.

Um recolher obrigatório durante a noite entra em vigor em quase toda a França ao bater da meia-noite, atingindo cerca de dois em cada três cidadãos. O recolher obrigatório das 21h às 6h, que já tinha sido imposto em Paris, nos seus subúrbios, e nas maiores cidades, será agora alargado a outras 38 regiões, e à Polinésia.

Macron disse que é demasiado cedo para dizer se a França poderá avançar para novos confinamentos totais ou parciais

Na quarta-feira, a Espanha tornou-se oficialmente no primeiro país da UE, e o sexto do mundo, a ultrapassar um milhão de infecções confirmadas por covid-19. Dois dias depois, num discurso televisivo, o primeiro-ministro Pedro Sánchez disse que o "número real" de casos era na verdade de mais de três milhões.

Várias autoridades regionais anunciaram novas medidas, com a região de Madrid a proibir as reuniões domésticas da meia-noite às 6 da manhã e a reduzir para metade a capacidade em bares e restaurantes.

Os Países Baixos, um dos países europeus mais atingidos pela segunda vaga, com um número de novos casos diário a bater recordes desde meados de setembro (agora a chegar aos 10000 em cada 24 horas), começaram a transferir pacientes de covid-19 para a Alemanha. Durante a primeira vaga em março e abril, dezenas de pessoas gravemente doentes foram transferidas para a Alemanha, onde a capacidade dos cuidados intensivos é maior.

Confinamento total

Um dia após a entrada da República da Irlanda em confinamento, o País de Gales seguiu os seus passos. São 3,1 milhões de pessoas com ordem para ficarem em casa num "corta-fogo" de 17 dias. O confinamento proíbe a abertura de todos os retalhistas, cafés, restaurantes, pubs e hotéis. "A nossa ambição é não precisarmos de ter novamente este nível de restrição no País de Gales antes do Natal", disse o chefe do governo galês Mark Drakeford.

No sábado, o condado inglês de South Yorkshire, que inclui a cidade de Sheffield, vai passar o nível de alerta para muito alto, como Manchester, o que implica encerramento de pubs, cafés e restaurantes e limitação do número de pessoas dentro de casa.

A partir do fim de semana, 7,3 milhões de pessoas em Inglaterra irão viver sob as restrições mais duras e o governo de Boris Johnson avisou que outras regiões poderão seguir o mesmo destino. Em número de óbitos, o Reino Unido foi o mais atingido na Europa, registando quase 45000 mortes.

Na Polónia, que atingiu 13600 infeções num dia, um número recorde, foi adotado um confinamento a nível nacional que inclui o encerramento parcial de escolas primárias e restaurantes.

Pelo segundo dia consecutivo, a Itália comunicou um número recorde de novos casos, registando 19143 infeções durante o período de 24 horas.

A Suíça também atingiu um novo recorde de infeções pelo vírus, com 6634 novos casos durante as 24 horas anteriores. Espera-se que o governo federal em Berna imponha medidas mais duras a nível nacional na próxima semana, mesmo quando o país pretende manter a economia aberta e as escolas a funcionar.

Revolta contra o ministro

Na República Checa, revolta é a palavra de ordem na sequência de o ministro da Saúde Roman Prymula ter sido apanhado sem máscara a sair de um restaurante que deveria ter sido fechado de acordo com as restrições que o próprio estabeleceu. Prymula diz que estava a ter uma reunião em instalações adjacentes ao restaurante e que se recusa a demitir.

A Suécia continua a destoar dos restantes países. Apesar de um aumento dos casos, e de mortes, as novas medidas anunciadas pelo governo e a entrarem em vigor no dia 1 de novembro passam apenas por limitar o número de pessoas em restaurantes, bares e discotecas.

As autoridades aconselharam os habitantes da cidade universitária de Uppsala a evitar os transportes públicos e o contacto com pessoas fora da sua casa durante alguns dias após um pico de infeções desde que os estudantes regressaram.

Em todo o planeta, a covid-19 já ceifou as vidas de 1,1 milhões de pessoas - cerca de um quinto nos Estados Unidos - e infetou perto de 42 milhões.

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