Duro golpe para Salvini com derrota nas regionais italianas

Emilia-Romagna, no norte de Itália, é governada há 70 anos por partidos de esquerda, mas a Liga ia atrás de uma vitória histórica. A sul, na Calábria, a esquerda acabou contudo por ceder à extrema-direita.

O líder da extrema-direita italiana, Matteo Salvini, perdeu a aposta que tinha feito em Emilia-Romagna, não conseguindo vencer a esquerda nas eleições nesta região do norte do país e desta forma acelerar a crise de governo. Ainda assim, o desaire do Movimento 5 Estrelas deixa o executivo fragilizado.

De acordo com os resultados oficiais, o atual presidente da região, Stefano Bonaccini, do Partido Democrático, conquistou 51,4% votos nas eleições de domingo, tendo a candidata da Liga, Lucia Borgonzoni, ficado em segundo com 43,6%. Salvini aspirava a uma vitória, para depois exigir eleições antecipadas em Itália. .

"Ganhámos sem tanto alarde", festejou Bonaccini, cujo estilo sóbrio e moderado foi premiado em comparação ao de Salvini, arrogante e agressivo.

O resultado na região era crucial para a frágil coligação que governa a Itália, formada pelo PD e pelo Movimento 5 Estrelas (M5E, antissistema), que temia que uma vitória da extrema-direita neste reduto da esquerda provocasse a queda do governo. O candidato do M5E, Simone Benini, não foi além dos 3,5% (uma perda de dez pontos percentuais em relação às eleições anteriores).

O índice de participação foi recorde, com 67,1%, quase o dobro do registado em 2014. Os eleitores mobilizaram-se sobretudo em Bolonha e Reggio Emilia.

Salvini, que lidera as sondagens a nível nacional com 30% das intenções de voto, sonha em voltar ao poder e conquistar com a sua linha de extrema-direita esta próspera região do norte da península. Governada pela esquerda desde a queda do fascismo, a região é o orgulho de todo país por causa do seu modelo económico e estilo de vida.

"A Emilia-Romagna continua a ser vermelha", lê-se a manchete do jornal local Il Resto del Carlino.

A derrota de Salvini terá consequências políticas e representa um alívio para a coligação governamental. Para muitos analistas, as eleições regionais eram um "referendo" a favor ou contra Salvini, e a favor ou contra o governo de coligação.

"Muito obrigado ao jovem movimento das Sardinhas", afirmaram os líderes do PD, Romani Prodi e Nicola Zingaretti.

O movimento espontâneo juvenil, que nasceu "contra o ódio e o racismo propagados por Salvini", organizou passeatas e manifestações. Com lemas divertidos e construtivos, contribuiu para travar o avanço da Liga.

A página oficial do movimento anunciou que sua missão foi encerrada no domingo: "Abaixamos a cortina, não vamos fundar um partido".

"Ao final de 70 anos, houve uma disputa na Emilia-Romagna. Aqui a esquerda ganhava sempre com uma percentagem altíssima", comentou Salvini, com seu habitual tom polémico, numa entrevista na qual confirmou indiretamente a sua derrota.

O líder da extrema-direita consolou-se com a vitória na Calábria, no sul de Itália, onde o seu candidato, Jole Santelli, superou por 20 pontos o rival de esquerda. "Pela primeira vez somos determinantes no sul", disse.

Salvini, que percorreu o país, inundou as redes sociais e ameaçou desencadear uma crise, acabou por "despertar" o eleitorado de esquerda que estava desencantado, afirma o jornal L'Espresso.

O líder de extrema-direita enfureceu a esquerda no sábado ao romper o silêncio pré-eleitoral com um tweet sobre o "aviso de despejo" que esperava dar ao governo em caso de vitória.

No lado oposto, o presidente regional e candidato da esquerda, Stefano Bonaccini, fez campanha com elogios ao governo da região, com um índice de desemprego de 5,9% (contra 9,7% em nível nacional) e um crescimento de 2,2% em 2018.

De acordo com alguns analistas, o primeiro-ministro Giuseppe Conte e o PD saem reforçados com a vitória da esquerda, mas o seu principal aliado, a formação antissistema M5E, foi aniquilada.

"Desapareceram. Correm o risco de extinção", escreveu Annalisa Cruzzocrea no jornal La Repubblica.

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