Dois anos depois, Boko Haram pede resgate pelas raparigas de Chibok

Das 276 sequestradas de uma escola daquela aldeia por militantes do grupo islamita, 57 fugiram. 219 continuam em lugar incerto.

Da primeira-dama americana, Michelle Obama, ao então líder do Partido Socialista português António José Seguro foram muitos em todo o mundo os que em 2014 se juntaram à campanha Bring Back Our Girls (Tragam as nossas Meninas de Volta). Cartazes nas redes sociais, manifestações nas ruas. Passados dois anos, a verdade é que das 276 alunas de uma escola da aldeia nigeriana de Chibok raptadas pelo Boko Haram, 57 conseguiram escapar pouco depois. O destino das restantes continua incerto.

O aniversário do rapto, que os pais das jovens esperam aproveitar para voltar a pôr o assunto nas notícias, também não escapou ao grupo islamita. O Boko Haram pediu um resgate de 50 milhões de euros para libertar as raparigas de Chibok. O valor foi comunicado em negociações secretas com o governo do presidente Muhammadu Buhari, noticiadas pelos media, como The Independent ou The Telegraph.

Raptadas a 14 de abril de 2014 por membros do Boko Haram disfarçados de soldados, as alunas da escola de Chibok só voltaram a ser vistas num vídeo divulgado no mês seguinte, em que surgiam no meio do mato, sem sinal dos raptores. Nos últimos dois anos, estima-se que o Boko Haram tenha sequestrado mais de dois mil jovens - rapazes, mas sobretudo raparigas -, que usa como cozinheiras, escravas sexuais, combatentes e até bombistas suicidas. Criado em 2002, o grupo liderado por Abubakar Shekau prestou vassalagem em 2015 ao Estado Islâmico. Empenhado em impor a charia - a lei islâmica - no Norte da Nigéria, o nome do grupo (que atua também no Chade, Níger e Camarões) significa "a educação ocidental é um pecado".

Esperança para os pais

Saratu é uma das alunas de Chibok ainda desaparecidas. Em janeiro, o pai, Dauda Yama, descobriu uma chamada perdida da filha no telemóvel. Quando ligou de volta, um homem atendeu, dizendo-lhe que o telemóvel pertencia à mulher, o que lhe devolveu alguma esperança de encontrar a filha viva. Na altura, Yama foi pedir ajuda a Yakubu Nkeki, presidente da Associação de Pais das Raparigas Raptadas em Chibok. A filha de Nkeki, de 17 anos, também foi levada pelos homens do Boko Haram.

Decidido a manter o rapto das raparigas nas notícias, Nkeki admite não saber "em quem confiar", além de ter contado à Reuters já ter sido alvo de ameaças devido ao trabalho da sua organização. Esta não só dá aconselhamento aos pais das sequestradas como se assegura que estes recebem a ajuda de que precisam. "Verifico se têm alimentos ou se estão doentes", explica Nkeki.

Com uma nova investigação ao rapto aberta em janeiro, os pais das raparigas tiveram um momento de esperança já este mês quando uma bombista suicida foi detida antes de realizar o atentado que planeara no Norte dos Camarões e disse às autoridades ser uma das meninas de Chibok. Afinal, a rapariga, de 12 anos, não fazia parte do grupo de alunas daquela aldeia, tendo antes sido sequestrada em Bama.

Muitas teorias e um livro

Na Nigéria, o sequestro das raparigas de Chibok não só gerou protestos em várias cidades como acabou por ter consequências políticas. O então presidente Goodluck Jonathan demorou três semanas até se pronunciar sobre o rapto, uma demora que terá contribuído para a sua derrota face a Buhari nas presidenciais de maio de 2015.

Hoje, há cada vez mais pessoas na Nigéria que acreditam que o rapto de Chibok nunca aconteceu, tratando-se apenas de um embuste criado apenas para embaraçar o anterior governo. "Parte da negação é gerada pelo medo", explica à Reuters Muhammed-Oyebode, responsável pela secção de Lagos do Bring Back Our Girls. Ainda em fevereiro, o governador do estado de Ekiti, Ayodele Fayose, garantiu que o sequestro não passou de uma encenação liderada por políticos.

Há quem queira manter bem presente o sequestro e as suas vítimas. É o caso de Aisha Muhammed-Oyebode, filha do general Murtala Muhammed, assassinado em 1976 quando chefiava um governo militar, que está a preparar um livro sobre as 219 raparigas que continuam nas mãos do Boko Haram. O objetivo é "dar um rosto" a estas jovens, através de fotografias e conversas com as suas famílias: "Ao documentar as suas histórias, espero que possamos dar uma voz aos pais e às filhas."

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