Do medo ao desejo de mudança, a América cabe toda no Mall

Donald Trump toma hoje posse como 45.º presidente americano. O juramento será no Capitólio e milhares irão assistir ao desfile que depois o vai levar pela Pennsylvania Avenue até à Casa Branca.

O DN percorreu o Mall, a longa alameda que vai desde o Capitólio até ao memorial a Lincoln, e foi ouvir o que os americanos esperam do sucessor de Obama

Há quem como Jeima tenha comprado a viagem a Washington há meses a sonhar com a posse de Hillary Clinton, outros como Aimee quiseram mostrar ao filho um momento de "verdadeira História".

Vindos do estado de Washington, na costa Oeste, do Oklahoma ou da Califórnia, como os amigos Kirk e John, uns dizem ter receio do futuro com Donald Trump na Casa Branca, outros anseiam pela mudança.

Biblioteca do Congresso.
"Queria estar na posse da primeira mulher presidente"

Enquanto os amigos tiram uma selfie com o Capitólio em fundo, Jeima Kohlmann olha para a Biblioteca do Congresso. O edifício ainda está fechado, nem são 09.00 de uma manhã chuvosa em Washington DC, mas a conselheira numa universidade do estado homónimo, Washington, na costa Oeste, vai esperar. Foi no verão que decidiu vir a DC nesta semana e o objetivo era claro: assistir à posse de Hillary Clinton. Agora, não esconde a desilusão e garante que nem vai assistir à posse de Trump, apenas "à marcha das mulheres", o protesto agendado para amanhã.

"A minha irmã veio à segunda posse de Obama e eu queria estar na da primeira mulher presidente", conta. Com o casaco roxo bem abotoado para se proteger da chuva, esta morena de cabelo amarrado num carrapito tem muitas dúvidas sobre o novo presidente. "Acho-o muito imprevisível. Não estou muito otimista", admite.

Supremo Tribunal.
"Não estamos aqui para nada que tenha a ver com Trump"

Ali ao lado, na colina acima do Capitólio, fica o Supremo Tribunal dos Estados Unidos. É aí, diante das colunas brancas do edifício, que Samantha e Anna vão tirando selfie. Mas as aparências enganam, foi o trabalho que trouxe estas amigas a Washington. "Viemos assistir a umas audiências" explica Samantha, a mais baixa. Mas ainda há tempo para uma conversinha e quando percebem que o assunto é Trump, as duas reviram os olhos. "Não estamos cá para nada que tenha ver com Trump", sublinha Samantha enquanto Anna reafirma a coincidência entre a viagem que trouxe as amigas de Filadélfia, na Pensilvânia, até ao Distrito Federal onde fica a capital. "Acha que ele já leu a Constituição? Acha que já alguma vez leu um livro?" pergunta Anna de rajada. Por isso do novo presidente só espera "coisas más".

Diante da mais alta instância judicial dos EUA, Samanta não resiste a sonhar com a destituição do novo presidente: "É difícil, mas se acontecer, será bem-vindo", diz, antes de repensar. É que "entre Trump e [o vice Mike] Pence venha o Diabo e escolha".

Capitólio.
"Votei em Trump mas não achei que ele ia ganhar"

Entre os que vieram à capital federal também não faltam apoiantes de Trump. Basta descer do Supremo para a zona do Capitólio. É ali que Kirk Cristiansen e o amigo John G. ("Só G., sim") estão a começar o dia. Vindos da Califórnia, o estado que deu larga vitória a Hillary Clinton, não seria de esperar encontrar neles apoiante de Trump, mas é o que são. "Estou muito entusiasmado", afirma Kirk, cujo filho trabalha no Capitólio. E explica: "Esperamos mudanças". Comercial numa empresa de Orange County, Kirk admite: "Votei em Trump mas não achei que ia ganhar". Agora que ganhou, está convencido que "vamos melhorar a relação com a Rússia. Estamos no século XXI, não há problema em ser amigos dos russos".

Muito calado até então, John também está feliz com a vitória de Trump. E quanto à prioridade do novo presidente, o bancário não tem dúvidas: "É preciso acabar com o Obamacare", a reforma da saúde de Obama.

Museu de História e Cultura Afro-americana.
"Acho que vai haver uma nova Grande Depressão"

A fila para o Museu de História e Cultura Afro-americana contrasta com a calma nos outros museus Smithsonian ao longo do Mall, a alameda que vai do Capitólio ao Monumento a Lincoln. Lae Morris veio com a mãe e uma amiga. A viver em Washington, não é a primeira vez que a jovem, no último ano da faculdade, vem ao museu inaugurado em setembro por Obama. E depois de o primeiro presidente negro dos EUA deixar a Casa Branca, Lae espera o pior. "As bolsas já estão a cair. Acho que vai haver nova Grande Depressão", diz.

Memorial à II Guerra Mundial.
"Gosto de Trump não querer ajudar quem não precisa"

Quem percorre o caminho à beira do espelho de água entre o Memorial à II Guerra Mundial e o Memorial a Lincoln consegue ouvir a banda lá ao fundo a ensaiar o hino. Alain e Nicole vieram de Miami. Já estiveram em Nova Iorque e só têm pena de ter de deixar a capital antes da posse. "Gostava de assistir", explica Alain, calças de fato de treino, ténis e boné escuro na cabeça, indumentária a combinar com a da namorada. Estudantes universitários, ambos acham que o novo presidente vai trazer mudanças. "Más mudanças. Ele é imprevisível", diz Alain. Nicole não tem tanta certeza: "Dou-lhe uma hipótese. Ele é empresário, pode ser bom para a economia".

Nascido em Cuba, Alain veio criança para os EUA. Nicole, ela, já nasceu em Miami, também filha de cubanos. Apesar de os latinos terem sido um dos principais alvos do novo presidente, o casal garante que não se sentiu muito visado. E de uma coisa Alain tem a certeza: "Gosto de Trump não querer ajudar quem não precisa. Ele quer que todos trabalhem duro".

Memorial a Lincoln.
"No final do primeiro mandato, Trump terá reunificado o país"

Depois de passar por baixo dos andaimes do palco onde a banda ensaia, chega-se finalmente à sala onde se encontra a impressionante estátua de Abraham Lincoln, o presidente que manteve o país unido e acabou com a escravatura antes de ser assassinado em 1865, após o fim da Guerra Civil Americana. Sem as enchentes de turistas do verão, cada visitante tem oportunidade para uma foto a solo com Abe. Aimee Carter não é exceção. Veio do Oklahoma com o marido, militar, e o filho. "Ele anda no sétimo ano e quisemos que assistisse à História. À verdadeira História", explica, a sorrir debaixo do gorro bege. A família vai toda à posse de Trump e a fisioterapeuta está convencida que o novo presidente vai trazer "grandes coisas".

É verdade, confessa, que chegou a ter outros preferidos na corrida à nomeação republicana "primeiro Ben Carson, depois Ted Cruz", mas a 8 de novembro votou Trump. "No final do primeiro mandato já terá reunificado o país", garante. Para Aimee, foi o despertar da classe média que levou Trump à Casa Branca. "Despertaram a fera. Agora, vai haver mudanças", garante a mulher que se afirma conservadora. "Primeiro a Bíblia, depois a Constituição", diz sobre as suas convicções e "acredito que se trabalharmos duro, seremos recompensados, independentemente da raça, do sexo ou da cor da pele".

Casa Branca.
"Tornar o adeus num obrigado a Obama"

Parado diante da Casa Branca, indiferente à chuva que cai forte, Michael Kilpatrick empunha um cartaz onde se lê: "Caro presidente Obama, o seu legado está escrito nos nossos corações. Deus o abençoe a si e à sua família". Michael veio do Maryland, "a uma hora e meia daqui". Militar na reserva tornado carpinteiro, este homem de barba curta e óculos onde as gotas de água se vão amontoando diz que já queria vir há algum tempo. "Era agora ou nunca". De Trump diz esperar que mude quando se sentar na Sala Oval: "Espero que seja uma pessoa inteligente e se rodeie de quem o saiba aconselhar". Mas quererá ouvir? "Espero que não tenha escolha. Há o Congresso, há os conselheiros. Entre um e outros ele vai ter de perceber que é o trabalho mais importante do mundo", diz, a espreitar por baixo da pala do boné.

E Obama? "É o melhor presidente que a América já teve". Por isso "decidi tornar o adeus num obrigado".

Em Washington
A jornalista viajou a convite da FLAD

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