Do caso Huawei ao caso Khashoggi: o Canadá de um Trudeau sem medo

Membro da NATO, do G7, do G20, destino de eleição de muitos imigrantes e refugiados, o Canadá e o seu primeiro-ministro, Justin Trudeau, desafiam grandes potências, dos vizinhos EUA, à China, passando pela Arábia Saudita

A décima maior economia do mundo desafiou a segunda maior economia do mundo e a tensão sobe. Canadá e China estão de costas voltadas ultimamente por causa de Meng Wangzhou. A filha do fundador da Huawei, Ren Zhengfei, foi detida pelas autoridades canadianas no dia 1 na sequência de acusações de fraude e violação das sanções impostas pelos EUA ao Irão.

Segundo documentos apresentados num tribunal de Vancouver, a diretora financeira da Huawei, de 46 anos, foi detida por suspeita de ter mentido sobre uma filial da empresa, para poder aceder ao mercado iraniano, violando as sanções americanas.

As autoridades dos Estados Unidos suspeitam que o grupo chinês de telecomunicações exportou produtos de origem americana para o Irão e outros países visados pelas sanções de Washington, violando, assim, as suas leis. A detenção de Wanghzhou foi feita a pedido dos americanos que querem conseguir também a sua extradição.

O regime chinês subiu o tom e convocou o embaixador do Canadá, John McCallim, para protestar contra a detenção da empresária e instar os canadianos a libertarem-na de forma imediata.

"A China pede encarecidamente ao Canadá que liberte de imediato a pessoa detida e proteja seriamente os seus legítimos direitos, se não o Canadá deve aceitar a sua responsabilidade pelas graves consequências causadas", leu-se num comunicado assinado pelo vice-ministro dos Assuntos Externos da China Le Yucheng.

Wanghzhou voltou esta segunda-feira a tribunal para ser ouvida sobre o seu pedido de liberdade condicional enquanto aguarda pela decisão sobre a sua extradição. Alega razões de saúde. Argumenta também que tem ligações a Vancouver há 15 anos. Detém aí pelo menos duas propriedades no valor de cerca de 15 milhões de euros.

Ouvido sobre este dossiê, o primeiro-ministro do Canadá, garantiu que a detenção da empresária chinesa nada teve que ver com política. Justin Trudeau, no poder desde 2015, afirmou: "As autoridades competentes tomaram as suas decisões neste caso sem qualquer interferência ou envolvimento político e isso tem que ser dito. Eu não tive nenhumas conversas diretas ou indiretas com nenhum dos meus parceiros internacionais sobre este assunto".

Liberal, filho do ex-primeiro-ministro do Canadá Pierre Trudeau, Justin Trudeau, que tem a mesma idade de Wanghzhou, insiste que o seu país nada tem que ver com esta detenção da filha do fundador da Huwaei e que tudo se inscreve no âmbito da guerra comercial entre EUA e China. Neste caso específico com as sanções unilaterais aprovadas contra o regime dos ayatollahs do Irão pela Administração de Donald Trump.

Administração essa que denunciou o Acordo de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA), tendo depois levado o Canadá e o México a negociar um novo acordo de comércio. Este já existe. Tem apenas que ser ratificado pelos Parlamentos dos países. Ao contrário dos EUA, o Canadá assinou o Pacto Global para uma Migração Segura, Ordenada e Regular das Nações Unidas, sendo um país com longa tradição de bom acolhimento de imigrantes e refugiados.

Sobre a polémica decisão de separar famílias de migrantes e refugiados, na fronteira México-EUA, Trudeau disse, em junho: "O que está a acontecer nos EUA é inaceitável. Não posso imaginar o que estas famílias estão a passar. Obviamente isto não pode ser a forma de fazer as coisas no Canadá". Desde janeiro do ano passado, noticiou a CNBC, mais de 30 mil migrantes e refugiados atravessaram a fronteira entre os EUA e o Canadá para fugir às políticas migratórias de Trump.

Membro da NATO desde 1949, do G7, do G20, o Canadá tornou-se, em outubro, o segundo país do mundo a legalizar o canábis para fins recreativos. O primeiro foi o Uruguai. A legalização deverá restringir o acesso a drogas leves a menores e "tirar dinheiro dos bolsos das organizações criminosas", afirmou, na altura, Trudeau, que tem três filhos.

E se o primeiro-ministro canadiano não tem problemas em que o seu país tenha problemas com a China os EUA, também parece não se preocupar muito em desafiar o terceiro maior produtor de petróleo do mundo. Na sequência do assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, o Canadá anunciou no final de novembro a imposição de sanções contra 17 sauditas, congelando os seus bens no país, declarando-os "persona non grata".

A decisão do Canadá segue medidas semelhantes já assumidas por EUA, Alemanha e França, mas não inclui o nome de Mohammed bin Salman, herdeiro ao trono da Arábia Saudita e que várias agências de informação consideram ser o autor moral do crime contra o jornalista Jamal Khashoggi, morto, depois de ser torturado e desmembrado, a 2 de outubro.

Trudeau foi o primeiro líder ocidental a reconhecer que o seu país recebeu, no início de novembro, as gravações da morte do jornalista saudita. "O Canadá foi totalmente informado sobre o que a Turquia tinha a partilhar", disse Trudeau, em Paris, onde participou no Fórum da Paz na sequência das comemorações do Armistício da Primeira Guerra Mundial. Fórum do qual o presidente americano, Donald Trump, foi o grande ausente. O Canadá indicou ainda que ia rever a venda de armas a Riade.

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