Djaiss deixou o MpD para conquistar a Câmara da Boavista

Há 20 anos que era deputado do Movimento para a Democracia, mas entregou o cartão para avançar como independente.

Um dos vencedores das eleições autárquicas em Cabo Verde é José Luís Santos, o recém-eleito presidente da Câmara da ilha da Boavista. Depois de mais de 30 anos de militância no Movimento para a Democracia (MpD), Djaiss, como é conhecido por todos desde a adolescência, decidiu sair do partido e avançar como independente à frente do movimento Basta. Recebeu 57,5% dos votos dos eleitores da ilha. Em segundo lugar, com apenas 36,5%, ficou José Pinto Almeida, candidato oficial do MpD e que tentava o quinto mandato. Henrique Cruz, do PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde), ficou-se pelos 10,3%.

Djaiss explicou ao DN as razões para o rompimento com o MpD. "Em 2012 o partido fez sondagens para avaliar quem seria o melhor candidato. Fiquei à frente, mas decidi não avançar porque achei que não era altura de dividir o partido. Agora, em 2016, passou-se o mesmo. Nas tais sondagens tive 57% e Pinto Almeida apenas 23%. Mesmo assim o MpD, sem me contactar, achou que deveria ser ele o candidato", conta. Desta vez decidiu não ficar de braços cruzados e avançou sozinho. "Por força da lei tive de devolver o cartão de militante. Já não pertenço ao MpD", resume. Há 20 anos que era deputado nacional pelo partido, mas, com a corrida autárquica, a relação chegou ao fim.

O novo presidente da câmara admite que "as relações não ficaram boas", mas espera que a colaboração se mantenha. "Falei com um dirigente do partido e disse-lhe que, do meu ponto de vista, o MpD manteve o Município da Boavista. Estou totalmente disposto a dialogar para resolver os problemas da ilha", assume. O lugar que deixa vago no Parlamento nacional será ocupado por Dália Benoliel, que foi a candidata do MpD à Assembleia Municipal da Boavista.

"Mágoa? Não. Em política não há lugar para mágoas", assegura ao DN Rui Figueiredo Soares, presidente do grupo parlamentar do partido. "Somos amigos, conhecemo-nos há muitos anos e ele sempre deu o seu melhor ao MpD. O partido escolheu os seus candidatos e, em democracia, é normal que as pessoas possam não concordar e avançar como independentes. Somos pessoas adultas e desejamos-lhe o maior sucesso no desempenho das suas novas funções", acrescenta o mesmo dirigente.

Isac Ribeiro, que era até agora deputado do MpD na Assembleia Municipal da Boavista, não concorda com a decisão de Djaiss em ter avançado sozinho. "Eu não o teria feito. Acho que quando estamos numa organização política devemos acatar as decisões tomadas", explica ao DN. Ainda assim, Ribeiro acredita que José Luís Santos será um bom autarca: "Tendo as pessoas do seu lado e mantendo uma boa relação com o governo, tem todas as condições para fazer um bom mandato."

Djaiss não faz uma boa avaliação do trabalho do seu antecessor, José Pinto Almeida: "Começou a desleixar o bem comum para passar a satisfazer um grupinho de amigos." O novo autarca admite ainda que a Boavista se debate com "problemas estruturais graves". Entre as questões mais "urgentes", o recém-eleito presidente da câmara destaca o saneamento e a limpeza. "Há zonas da ilha que parecem uma lixeira a céu aberto." José Luís Santos chama ainda a atenção para a necessidade de requalificar o bairro da Boa Esperança, na cidade de Sal Rei, uma zona em que grande parte da população não tem acesso a esgotos nem a água potável. A construção de um hospital é outro dos objetivos: "Não podemos continuar apenas com um centro de saúde que não tem quaisquer condições".

Miguel Anacoreta Correia, apaixonado pelo arquipélago e filho do ex-embaixador de Portugal em Cabo Verde (1993-98), Eugénio Anacoreta Correia, acredita que Djaiss é a pessoa certa para pegar na ilha. "Tem experiência política local e nacional e é uma figura do partido que está no poder. Em muitas ilhas o desenvolvimento tem sido estancado quando a cor do presidente da câmara é diferente da cor política do partido que está no poder central. Apesar de ele ter concorrido como independente, o próprio MpD acaba por assumir que a câmara é deles porque ele é um dos seus", sublinha ao DN o economista que todos os anos passa férias em Cabo Verde.

Para Anacoreta Correia, outro dos trunfos do novo presidente é "ser uma pessoa da terra". Nascido e crescido na Boavista, Djaiss é filho de uma "funcionária na área da saúde" e de um "funcionário numa fábrica de conservas de peixe". O pai tem 97 anos e a mãe 89. "Felizmente ainda estão muito bem de saúde", refere José Luís Santos, que não é casado e tem cinco filhos. O mais velho da prole tem 34 anos e a mais nova 15.

Com cerca de 15 mil habitantes, a Boavista é a terceira maior ilha das dez que compõem o arquipélago e, segundo Djaiss, a segunda em número de camas disponíveis para turistas, ficando apenas atrás do Sal. Mas o novo presidente da câmara está convicto de que rapidamente a Boavista será a mais representativa em termos de oferta turística, um setor que representa cerca de 21% do PIB do país.

Um dos desafios para o novo presidente da autarquia, explica Miguel Anacoreta Correia, é fazer que os viajantes passem a contribuir mais para a economia local. "Atualmente viajam com tudo incluído e praticamente não saem dos resorts. Sei que uma das intenções de José Luís Santos é criar condições para que hotéis levem os turistas para a cidade, nomeadamente através de uma oferta cultural de qualidade."

A derrota do PAICV

Em termos absolutos, o MpD foi o grande vencedor das eleições autárquicas disputadas a 4 de setembro, tendo saído vitorioso de 18 das 22 autarquias em disputa, aumentando em cinco o número de câmaras municipais em seu poder. O PAICV conquistou apenas duas: Santa Cruz, na ilha de Santiago e Mosteiros, na ilha do Fogo. As outras duas autarquias que escaparam ao Mpd foram a da Boavista, com a vitória de José Luís Santos, e a de Ribeira Brava, na ilha de São Nicolau. Nesta última, por uma diferença de apenas oito votos, o vencedor foi Pedro Morais, outro dissidente do MpD que se apresentou como independente.

Em termos de vereadores, o MpD fez eleger 115 do total de 138 lugares. A abstenção foi de 41,6% e foram às urnas 183 676 dos eleitores inscritos. "Foi um resultado excelente para o MpD. A Comissão Política Nacional regozijou-se com esta expressiva e inequívoca vitória. Claro que a confiança depositada em nós também nos traz mais responsabilidades", sublinha Figueiredo Soares.

Perante o descalabro nas autárquicas, Janira Hopffer Almada, líder do PAICV, colocou o lugar à disposição, considerando que os resultados ficaram "muito aquém" daquilo a que se tinha proposto. "Sempre entendi que a responsabilidade é fundamental no exercício dos cargos políticos e estou certa de que esta é a melhor decisão", afirmou a agora presidente demissionária. Janira Almada tem 38 anos e em 2013 tornou-se a primeira mulher a liderar um partido em Cabo Verde.

Um dos objetivos a que se tinha proposto quando chegou à liderança do PAICV era a vitória nas legislativas que se disputaram em março deste ano. Também não o conseguiu. Ficou-se pelos 37% dos votos, bastante abaixo do 53,7% obtidos pelo MpD liderado por Ulisses Correia e Silva.

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