Deputado que cuspiu em Bolsonaro deixa o Brasil: "Quero manter-me vivo"

Jean Wyllys diz-se "cansado de ameaças" e que pretende "manter-se vivo". O presidente, com quem manteve discussão na votação do impeachment de Dilma Rousseff, comemorou a decisão nas redes sociais

Jean Wyllys, deputado do PSOL, partido de extrema-esquerda, anunciou que não irá tomar posse no dia 1 de fevereiro como deputado. Fora do Brasil, de férias, o único gay assumido de entre os 594 parlamentares federais brasileiros na última legislatura, não vai sequer voltar ao seu país por estar "cansado de sofrer ameaças" e por pretender "manter-se vivo".

"Como é que eu vou viver durante quatro anos dentro de carros blindados, sem conseguir frequentar os lugares que habitualmente frequento?", questionou Wyllys, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a propósito de estar autorizado a usar escolta policial desde a eleição de Jair Bolsonaro como presidente. "O presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou de homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim", acrescenta.

O deputado citou ainda Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio, para sustentar a sua decisão. "Ele disse-me 'cuida-te rapaz, os mártires não são heróis'".

Wyllys também se referiu ao facto do filho mais velho de Bolsonaro, o senador eleito Flávio Bolsonaro, ter contratado para o seu gabinete ainda enquanto deputado estadual do Rio de Janeiro, a mãe e a mulher de Adriano Nóbrega, o chefe da milícia "Escritório do Crime", que a polícia carioca acredita estar envolvida no assassinato em março passado de Marielle Franco, colega de partido de Wyllys, no PSOL, e de Anderson Gomes.

Por outro lado, em 2016, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, Wyllys cuspiu em Bolsonaro, após este o ter chamado de "viado" e outros adjetivos pejorativos que significam "homossexual" no Brasil.

Eleito duas vezes melhor deputado do Brasil pelo site especializado na vida parlamentar "Congresso em Foco" e considerado símbolo internacional na defesa de causas da população LGBT, Wyllys foi vítima de fake news durante a campanha, quando circularam supostas citações suas a elogiar a prática de pedofilia. Um dos caluniadores, o deputado eleito Alexandre Frota, do partido de Bolsonaro, o PSL, foi condenado. "Mas a pena imposta ao Alexandre Frota não repara o dano que ele produziu ao atribuir a mim um elogio da pedofilia. Eu vi minha reputação ser destruída por mentiras e eu, impotente, sem poder fazer nada. Isso se estendendo à minha família. As pessoas não têm ideia do que é ser alvo disso", afirmou Wyllys.

Jair Bolsonaro, entretanto, escreveu na rede social twitter "grande dia", ao saber da decisão de Wyllys. Carlos Bolsonaro acrescentou "vá com Deus, seja feliz".

O substituto de Wyllys será o também homossexual David Miranda, que se intitula "gay, negro e favelado". Ele é casado com Glenn Greenwald, o jornalista americano que divulgou as denúncias de espionagem nos EUA feitas por Edward Snowden, e promete defender as causas LGBT, como o antecessor.

Ao "grande dia" de Bolsonaro no Twitter, David Miranda respondeu na mesma rede social: "Respeite o Jean, Jair, e segura sua empolgação. Sai um LGBT mas entra outra, e que vem do Jacarezinho. Outro que em 2 anos aprovou mais projetos que você em 28. Nos vemos em Brasília".

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