Depois de quase eleito, o irredutível Fillon parece quase derrotado

Candidato vai ser constituído arguido. Mas, ao contrário daquilo que prometeu, não desiste da candidatura às presidenciais. Uma decisão "indigna" e "irresponsável", defende, ouvido pelo DN, um analista do Science Po, em Paris

François Fillon estava entre a espada e a parede. Podia ter escolhido a espada, desistindo da corrida presidencial e entregando-se à lâmina. Mas preferiu continuar encostado à parede. Diz que vai "lutar até ao fim". Resta saber se terá oxigénio para continuar a respirar nas sondagens. Está por descobrir até que ponto a espada irá encostar-se-lhe ainda mais à garganta depois de ontem ter dado o dito por não dito.

O candidato apoiado pel"Os Republicanos havia garantido que só desistiria da corrida se fosse constituído arguido no caso dos alegados empregos fictícios que envolve a sua mulher e os filhos. Esse dia está a chegar. Fillon anunciou ontem que foi convocado pelos juízes de instrução para no dia 15 apresentar-se em tribunal para ser colocado sob investigação formal. Mas ele não desiste e argumenta que está a ser vítima de um "assassinato político".

Há três meses, fazendo fé no que diziam as sondagens e naquilo que os analistas iam escrevendo, o enredo parecia estar escrito: Fillon passaria à segunda volta (7 de maio) e, no duelo contra Marine Le Pen, seria entronizado presidente francês. Todos os barómetros político o davam como vencedor da primeira volta (23 de abril), com uma votação na ordem dos 30%. No final de novembro - depois de derrotar Nicolas Sarkozy e Alain Juppé nas primárias do centro e direita - parecia mais do que certo que Fillon ganharia as eleições. Mas nem sempre o que parece é. O golpe que ameaça revelar-se fatídico foi para as bancas a 23 de janeiro, quando o semanário Le Canard Enchainé fez rebentar o Penelopegate. Segundo o jornal, a mulher de François Fillon teria trabalhado para o marido e recebido por funções que nunca desempenhara. Por muito que Fillon tenha tentado desmentir e pedir desculpas, as sondagens dizem que o enredo mudou. Os estudos recentes (ver infografia) dão-no como derrotado à primeira volta. E agora, com esta decisão dos juízes de instrução, aquele que chegou a parecer quase eleito parece cada vez mais quase afastado. Mas ainda é cedo para que Emmanuel Macron e Le Pen lhe escrevam o epitáfio. Afinal, faltam sete longas semanas até à primeira ronda eleitoral.

Para Guillaume Devin, cientista político da Science Po, em Paris, a decisão de Fillon de continuar na corrida é duplamente criticável. Por um lado, explica o analista ao DN , é "indigna de alguém que aspira às mais altas responsabilidades de Estado". Por outro, é "irresponsável", porque "prejudica as possibilidades de sucesso do seu campo político". Para Devin, Fillon "mostra que está mais preocupado com os seus interesses pessoais do que com o futuro da direita republicana". Isto, defende o politólogo, joga a favor daqueles que se dizem "antissistema", como Marine Le Pen.

A decisão de Fillon já provocou deserções na sua equipa. Bruno Le Maire - seu principal conselheiro em política externa e ministro da Agricultura nos tempos em que foi chefe de governo (2007-12) - bateu com a porta. "Acredito no respeito pela palavra dada. Ela é indispensável à credibilidade da política. De acordo com os meus princípios, demito-me de representante para os assuntos europeus e internacionais da campanha de François Fillon". Ao ouvir estas declarações é possível que o candidato, encostado à parede, tenha sentido a espada a aproximar-se ainda mais. Os centristas da União dos Democratas e Independentes também suspenderam a participação na campanha.

A partir de agora será ainda mais difícil para Fillon desviar-se dos ataques. Bastará aos adversários, por exemplo, lembrarem a frase que ele próprio esgrimiu contra Sarkozy durante as primárias: "Quem é que imagina, por um instante que seja, o general de Gaulle como arguido?".

O independente Emmanuel Macron foi duro no comentário: "perdeu o sentido da realidade". Jean-Luc Mélenchon, apoiado pelos comunistas, também aproveitou para jogar ao ataque, dizendo que tem "pena" da direita, porque esta merecia "um candidato apresentável".

"Há um clima estranhamente violento nesta campanha: Cada um dos cinco candidatos principais parece estar numa lógica de vingança. Fillon contra os juízes que o "assassinaram politicamente", Le Pen contra a UE, Mélenchon contra o PS e Benoît Hamon e Macron, por razões diferentes, à procura de vingar-se do mandato de cinco anos de François Hollande. É confuso e perturbador", lamenta ao DN Jérôme Creel, professor na Science Po.

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