"Depender da ajuda externa significa que falhámos em África"

Secretário-geral da Cruz Vermelha no Quénia desde 2001, Abbas Gullet foi ontem codistinguido com a sua homóloga da Finlândia, Kristiina Kumpula, com o Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa para a 2017, entregue ontem em Lisboa. Ao DN, falou sobre o que a organização que dirige alcançou no seu país e sobre os desafios que pesam sobre o continente africano.

Foi-lhe entregue mais um prémio dos muitos que já tem recebido. O que gostaria ainda de concretizar?

Como muitos outros, desejo uma África mais forte, democrática, uma África que acredite em si própria, que tenha liderança que trabalhem para o povo, pelo povo e com o povo, não lideranças egoístas. África é um continente com todo o tipo de recursos e de belezas naturais, com uma população jovem, tem muitos talentos. O que gostaria de ver concretizado é uma África que tenha orgulho em si própria, que seja autossuficiente na produção alimentar, educada, que não esteja dependente da ajuda externa, que tenha setores de comércio e negócios prósperos e eficazes. Um continente onde a felicidade seja possível e acabem as desgraças a que todos assistimos, as guerras civis, os conflitos, a pobreza, o analfabetismo. Gostaria que os nossos filhos tivessem uma vida melhor do que aquela que tem sido a da minha geração.

O que está a dizer corresponde praticamente a uma revolução cultural...

Se for esse o caso, que seja. Somos o continente com a população mais jovem no mundo. No Quénia, por exemplo, mais de 70% tem menos de 35 anos. E esta realidade não pode ser ignorada pela elite política, pelos governantes e, mesmo que não o façam, as mudanças acontecerão. São inevitáveis. As mudanças acabarão por se impor às elites em África. Não irão ocorrer como na Europa ou na Ásia ou na América, terão um ritmo e um tempo próprio, mas o tempo está do nosso lado.

Dirige a Cruz Vermelha no Quénia desde 2001. Qual é o seu método de trabalho? Vi referência a "disciplina religiosa", "disciplina militar"...

Quando assumi a direção, a Cruz Vermelha no Quénia era uma organização falida, ineficiente, corrupta. Algo que nós, como quenianos, éramos os únicos responsáveis. Eram quenianos as pessoas que dirigiam a organização. O que sucedeu foi uma mudança de paradigma. Adotámos um modelo de gestão transparente, de responsabilização pessoal e coletiva, tolerância zero para erros de gestão e para a corrupção. E temos de ser sempre profissionais naquilo que estamos a fazer. Contratámos muitas pessoas jovens, que acreditavam e acreditam naquilo que estão a fazer, que acreditam em si próprias e no seu país e nos valores da responsabilização e transparência. E aquilo que era a organização mais corrupta de África é hoje a mais respeitada, quer no continente como no resto do mundo.

Acredita que os seus compatriotas e os africanos que vivem situações de carência alimentar poderão ter acesso àquilo que definiu como uma "refeição decente", ou seja, a garantia do direito à alimentação?

África é um continente rico em recursos. Uma "refeição decente" é eu conseguir alimentar-me a mim e à minha família e não depender de ajuda externa. Há pessoas no meu país que, nos últimos 40 anos, viveram sempre de ajuda alimentar externa, de donativos internacionais, e o mesmo acontece em muitos outros países africanos, quer sejam refugiados, deslocados internos ou, pura e simplesmente, pessoas sem recursos. Uma "refeição decente" é aquilo que um país deve ser capaz de providenciar para a sua população, uma nação deve ser capaz de alimentar a sua população, caso contrário, não é realmente independente e não tem garantida a sua segurança.

A ajuda alimentar externa, humanitária ou donativos podem ser contraproducentes para uma sociedade?

Pode ser uma influência muito negativa. A ajuda externa é negativa em África, a não ser em situações de calamidade específica, por exemplo, o tsunami de 2004 na Ásia. Depender da ajuda externa alimentar externa, dos donativos, significa que falhámos. Têm um efeito contraproducente, retrocessivo em África. Quer dizer que não conseguimos alimentar as nossas populações. Os países falharam. Em vez de estarem dependentes da ajuda externa, deveriam ter sabido criar as suas reservas alimentares para situações de emergência. Isso é saber governar em vez de ficar à mercê dos doadores, que podem disponibilizar o que nem sequer é certo para as populações, para o seu tipo de dieta. O depender da ajuda externa significa que se falhou politicamente e até como país.

Que impacto teve na sua formação e nas escolhas de vida o ter ficado órfão muito cedo?

O ter ficado órfão muito novo deu-me a compreensão de como é importante ser mais humano, de estar mais próximo dos outros e de agradecer a Deus o que recebemos. Mas o mais importante foi entender a necessidade de estar próximo dos mais necessitados, de os ajudar, de lhes dar o máximo de apoio possível. Considero-me muito feliz pela minha vida e pela possibilidade de que tive de ter feito até hoje aquilo que fiz.
Disse uma vez que o seu pai adoptivo foi uma figura modelo para si. Que tipo de pessoa era ele?
Era uma pessoa muito generosa, temente a Deus, uma pessoa que me adoptou (ele e a mulher não podiam ter filhos e ele conhecia o meu pai) e por causa disso posso dizer que sinto nunca ter perdido nada na minha vida. A sua família não podia ter tratado melhor de mim. Foi o melhor pai que alguma vez poderia ter tido na minha vida.

Afirmou em 2012 que gostaria de "aprofundar" a sua espiritualidade, "conhecer e compreender melhor Deus". Considera já o ter feito?

Não tanto quanto gostaria de ter feito. Gostaria de aprofundar ainda mais o meu conhecimento da minha religião, do meu Deus e isto para mim é muito importante agora que me aproximo do crepúsculo da minha vida, entendo que devo ter uma atitude mais espiritual...

É muçulmano?

Sim. E continuo a pensar que tenho de aprofundar a minha fé. De saber ser uma pessoa melhor capaz de ajudar todos os que precisam.

Continua a sair de casa ainda de noite e a regressar também já de noite?

Sim. Continuo.

Como vê a situação política no Quénia? Os períodos eleitorais são sempre um momento de tensão e de conflito e os resultados são sempre contestados pela oposição.

É para mim triste que a percepção sobre o meu país seja essa, que em cada eleição seja um período de violência. Mas julgo que deve ser realçado também o facto de termos instituições como a Cruz Vermelha, que tem sido um verdadeiro raio de esperança de cada vez que se vive situações de violência, antes, durante ou após as eleições. Atuamos sempre como uma organização neutral, que é profundamente respeitada por todos e de ajudar todos os que necessitam de ajuda nessas circunstâncias.

Mas são situações de crise, política e social...

Sim, têm sido uma má experiência para o país. Mas decorre agora um processo de reconciliação em que todos os quenianos consigam aproximar-se e fique claro que não deve voltar a haver conflitos entre nós por causa de eleições e de questões políticas. O Quénia é mais do que soma de nós todos. Têm sido dados passos para superar os erros do passado, de aprendermos a perdoar e a pensar no futuro de forma que umas eleições não sejam momentos de inevitável violência. Claro que o Quénia se deve tornar um país mais livre, plural e democrático, onde o vencedor seja realmente aquele que ganhou e não se entre choque só por que uma pessoa é desta ou daquela tribo, etnia ou deste ou aquele grupo político. O importante deve ser o conjunto de questões que interessa a todo o país.

Está optimista?

Estou muito optimista. Acredito que a mudança de comportamentos é inevitável mas vai ser preciso ainda algum tempo até a sociedade queniana ser realmente imparcial e livre.

Que tipo de situações críticas teve de enfrentar a Cruz Vermelha no Quénia e quais são as situações mais graves neste plano que se podem colocar quer no seu país quer na região?

Agora, enquanto estamos a falar, há cheias no Quénia, com milhares de pessoas deslocadas, infra-estruturas destruídas, bens perdidos. E isto sucede pouco depois de uma seca grave. Isto no que respeita a catástrofes naturais. Também tivemos no passado recente problemas com grupos terroristas [ataques das milícias Al-Shabab a um centro comercial em 2013 em Nairobi e à Universidade de Garissa, dois anos depois e outras ações recentes de menor envergadura] e, como já referido, as situações de crise em período eleitoral, como a que sucedeu no ano passado. Há muitas formas de catástrofes, sejam naturais quer causadas pelo homem. Felizmente, temos conseguido sempre estar à altura das crises que surgem, ainda que, por vezes, tivéssemos de contar com ajuda internacional. O importante é sabermos estar preparados.

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